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Full text of "O olho de vidro : romance historico"

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UNIVERSITY OF TORONTO 

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Professor 

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ROMANCE HISTÓRICO 



TERCEIRA EDIÇÃO 



LISBOA 
Parceri» ANTÓNIO MARIA PEREIRA. 



UTRARIA-CDITORA 



Rua Augusta, 50, 52 6-54 
1904 



OBRAS 



OE 



CAMILLO CASTELLO BRANCO 



EDIÇÃO POPULAR 

:k.:s.xxx 
O OLHO DE VIDRO 



VOLUMES PUBLICADOS 



I — Coisas espantosas. 

n — As três irmans. 

in — A engreitada. 

rv — Doze casamentos felizes. 

V — O esqueleto. 

VI — O bem e o mal. 

VII — O senhor do Paço de Ninães. 

VIII — Anathema. 

IX — A mulher fatal. 

X — Cavar em ruinas. 

XI ) 

Correspondência epistolar. 



xn 

XIII — Divindade de Jesus. 

XIV — A doida do Oandal. 
XV — Duas horas de leitura 

XVI— -Fanny. 

xvn \ 

XVIII I Novellas do Minho. 
XIX ) 
XX 



. Horas de paz. 

XXII — Agulha em palheiro. 
XXIII —O olho de vidro. 



CAMILLO CASTELLO BRANCO 



O OLHO DE VIDRO 



ROMANCE HISTÓRICO 



TERCEIRA EDIÇÃO 



LISBOA 

Parceria ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

UVRARIA EDITORA 

Rua Augusta, 5o, 52 e 54 

1904 



LISBOA 
OmciNAs Typographica e de Encadernação 

Moridas a vapor 

Rua dos CorreeiroSy 70 e 72j 1.* 
1904 




PROLOGO 

(DA I.» EDIÇÃO) 



O eminente bibliographo e meu prezado amigo 
Innocencio Francisco da Silva, historiando em bre- 
ves linhas a vida quasi obscura de Braz Luiz d' Abreu, 
conclue com estas palavras : Se algum dos nossos 
romancistas actuaes se resolvesse a tratar o assum- 
pto, affigura-seme que a vida doeste nosso medico^ 
com os curiosíssimos incidentes que ficam apontados^ 
lhe danam sobeja matéria para a fabrica de uma 
composição, onde mediante a lição dos escriptosy que 
nos restam de Bra^ Lui\, poderiam fundir-se hábil- 
mente espécies mm interessantes para d'ahi resultar 
obra de cunho verdadeiramente nacional. 

Os termos em que o convite é feito animam e ao 
mesmo tempo assustam. Comecei temerariamente 
a composição d'este romance : máo foi principial-o, 
que eu sou tão pouco cioso de aprimorar escriptos 



6 O olho de vidro 

d'esta ordem, que não me fórro ao perigo de con- 
cluil-os e imprimilos, ainda quando me desagradam. 
Não direi o que penso d'este : assevero, porém, 
que não está de certo realisada a esperança do 
meu amigo Innocencio Francisco da Silva. Se a 
biographia do author do Tortugal-medico é mina 
para locupletar romancistas, vão lá todos, que eu 
não toquei nos veios mais ricos. 



Porto, 3 de março de 1866. 



Camillo Castello Branco, 



INTRODUCÇAO 



Francisco Luiz d' Abreu, estudante do segundo 
anno medico na universidade de Coimbra, estava, 
por volta das onze horas da noite de 28 de janeiro 
de 1Ò92, estudando, no seu Vila Corta, as theorias 
de Galeno acerca das purgas — de purgattone. — 
Embebecido e pasmado nas virtudes drásticas dos 
olhos de caranguejo, apenas tinha um todo-nada de 
espanto para celebrar os não menos miraculosos 
effeitos da pelle de cobra, quando, tão a deshoras, 
duas aldrabadas na porta o roubaram ao seu enle- 
vo. Francisco encapuzou-se no gabão, e abriu as 
portadas da janella que dava sobre o Becco das 
Flores, becco assim denominado por antiphrase, fi- 
gura de rethorica tolerantissima que permitte de- 
nominar-se flores o adubo de que ellas tiram a seiva 
pútrida, mais tarde evaporada em aromas. 

— Quem é ? — perguntou o estudante, apertando 



8 O olho de vidro 

as azas nasaes, com ingrato desprezo das boninas 
da sua rua. — Quem é o vadio ? 

— Sou eu ! — respondeu quem quer que era, 
abrindo pequeno respiraculo por sobre o ferragou- 
lo, que lhe envolvia todo o rosto. 

— Tu I . . . — exclamou Abreu com alvoroço. — 
Vou abrir ! Pois és tu ? ! 

Algum motivo mysterioso tinha o académico para 
descer ás escuras a precipitosa escada, contando 
as escaleiras e raspando com o pé cauteloso sobre 
cada degrau. Aberta a porta, recebeu nos braços 
com ardente vehemencia o interruptor de seus es- 
tudos, e tão alheado ficou das suas considerações 
therapeuticas sobre a pelle de cobra, que nem já 
os olhos de caranguejo lhe lembravam. 

— Tu aqui, António de Sá ! — tornou Francisco. 
— Eu fazia-te na índia ! . . . Sobe, meu desventu- 
rado rapaz, que não ha ainda duas horas que os 
teus condiscípulos te lamentaram, especialmente 
José de Barredo se arrepellava por ter sido teu con- 
fidente n'esses funestissimos amores que te per- 
deram . . . 

— Com razão ! . . . — murmurou o outro — com 
razão me lamentaste, que eu sou desgraçado, quanto 
pôde sel-o n'este mundo um rapaz de vinte annos. 

— E que magro estás ! . . . atalhou Francisco 
Luiz, achegando-lhe do rosto a candeia de lata, que 
despregou do velador. — Como estás acabado ! . . . 

— Se te parece ! . . . um anno quasi sem ar, nem 
sol, passado de terrores. . . Como não queres que 
eu esteja pallido e descarnado ? ! São assim todos 
os rostos que se lavam com lagrimas. . . 



o olho de vidro g 

— Pobre António !... — atalhou o outro muito cons- 
ternado. — Se, ao menos, tivesses fugido de Por- 
tugal, como nós suppunhamos, terias céo e ar . . . 
Senta-te, homem ! . . . Queres tu comer ? 

— Quero. 

— Ainda bem ! A desgraça não te quebrantou o 
antigo estômago . . . Aqui tens queijos, figos e bolos 
de Santa Clara. . . Olha que ainda duram os amo- 
res da freira . . . Aqui tens o coração da freira n'es- 
tas trouxas d'ovos. Carne não na ha, e não sei onde 
vá procural-a a esta hora. . . Queres tu uma sôrda? 
Essa faço-t'a eu: estão alli os alhos-, e, á mingoa 
de azeite, cosinha-se com o da candeia, e depois 
conversaremos ás escuras. 

— isto basta para quem anda faminto de bons 
bocados — disse António, com desusado atticismo, 
devorando o queijo e os figos, e as trouxas allego- 
ricas do coração da franciscana, não já como des- 
graçadissimo entre os homens, mas certamente como 
de entre os estudantes o mais faminto. 

O hospedeiro académico enfreou sua curiosidade 
emquanto o amigo não pôde dispor da lingua, em- 
penhada na soffrega lida da deglutição. No entre- 
tanto, andava elle rebuscando na gaveta alguma vi- 
tualha, como se em gaveta de estudante alguma vez 
se operasse o milagre de que alguns raros anacho- 
retas se gosaram na Palestina, quando os anjos do 
céo lhes cosinhavam os fricassés. 

— Que andas tu procurando ? — perguntou Antó- 
nio de Sá Mourão. 

— Um boi que te mate essa fome !]Hei medo que 
me devores, rapaz. 



IO o olho de vidro 

— Nem manjar branco me dês que já me cá não 
cabe. Estou alimentado para três dias, se for neces- 
sário. Queres agora a minha historia de treze me- 
zes? Deita-te ahi na tua cama; escuta e adormece 
quando quizeres. Que sabes tu da minha vida ? 

— Sei o que todos sabem : que fugiste de Bragan- 
ça com uma moça, filha única de pae rico e feroz, 
que te fez procurar aqui em Coimbra, e me quiz 
metter no aljube para lhe dar conta de ti, allegando 
que eu devia forçosamente ser teu confidente, por 
que sou christao novo como tu. 

— Não sabia — interrompeu António — que os 
meus infortúnios implicaram comtigo . . . 

— Mais do que eu te sei dizer. . . Os trabalhos, 
que me ameaçavam, affligiam-me muitissimo menos 
que a idéa da inexorável perseguição que te fariam 
por toda a parte. Esperava eu, a cada hora, a noti- 
cia da tua prisão, com todas as probabilidades de 
que morrerias na forca, se não morresses na foguei- 
ra. Ninguém dava novas tuas, que não fossem hor- 
rorosas. Uns diziam que tinhas sido morto a tiro; 
diziam outros que te havias suicidado. Ao cabo de 
seis mezes, espalhou-se a boa nova de que tinhas 
embarcado para a índia, favorecido por teus paren- 
tes ricos de Lisboa, e também corria que a moça 
te acompanhara vestida de rapaz. Ora, como nunca 
mais se fallou de ti, acreditámos que estavas sal- 
vo. . . Gomo te vejo aqui, António ? ! Que é isto ? ! 
Onde tens estado ? Como pudeste fugir á justiça, 
se não foi n'algum subterrâneo ? 

— Eu te conto, respondeu António. Aquella tem- 
porada de ferias que fui passar com meus tios em 



o olho de vidro ir 

Bragança foi a morte da mocidade, das esperanças, 
e de tudo em que eu fundamentara a felicidade das 
minhas modestas ambições. O prazer exclusivo da 
minha vida tinha sido o estudo, a gloria da scien- 
cia, desvanecimento louco de poder ainda, mediante 
a sciencia, avisinhar-me do throno, como os antigos 
da nação * e desopprimir nossos irmãos, quanto 
coubesse na alçada do juizo, e no prestigio que a 
posição de medico do rei me desse. Era um sonho 
talvez desatinado; mas o despertar-me d'elle foi 
atroz !. . . Amei aquella mulher ; referi-te o nascer 
d'aquelle funesto amor. Sabes que os teus conse- 
lhos e vaticinios, ainda mal que realisados, não po- 
deram reduzir-me ao dever, á honra, e propriamen- 
te ao discreto egoismo, que tantas vezes nos arreda 
de abysmos cavados pela excessiva sensibilidade. O 
peior, meu amigo, já não era vencer-me eu ; era 
vencer a compaixão que me fazia a pobre menina, 
cujas alegrias dos dezoito annos eu fora converter 
em amargura de toda a vida. 

— Combati essa opinião — interrompeu Francisco 
Luiz — por cuidar que era grande parte n'ella a tua 
vaidade, a vaidade do homem que se julga neces- 
sário á vida da mulher. . . 

— E' verdade ; combateste a insensata opinião ; 
mas. . . não sei se cedo se tarde o fizeste ; o certo 



1 Nação era o termo denominativo e collectivo do povo 
judaico, dispersado entre as nações. Nação, por excellencia, 
era a d'elle. Vej. passim^ João Baptista d'Este, Dialogo entre 
discípulo e mestre cathechisante^ e todas as sentenças do santo 
officio, e escriptos concernentes á raça hebraica. 



j2 O olho de vidro 

é que as tusa razoes me pareceram sophysticas e gla- 
ciaes. Vi em ti o philosopho que sempre foste ; e em 
mim vi o homem duplicado em sua existência pelo 
amor, os dois homens que se combatem e forcejam 
por despedaçar-se, até que um triumpha, e. . . fica 
senhor das ruínas do coração. . . Já agora não dis- 
cutamos como médicos em volta d'um cadáver. Sai- 
bamos que está morto o homem, e ouve tu singela- 
mente a historia das delirantes febres que o acaba- 
ram. 

De antemão sabia eu já que a filha de Fernão Ca- 
bral me seria negada, e que os lacaios do christia- 
nissimo fidalgo, por ordem de seu senhor, me amea- 
çariam com os seus tagantes. 

Isto não embargou que eu timidamente me fosse 
apresentar ao nobre morgado de Carrazedo, e lhe 
pedisse a filha. Fernão ouviu-me em pé, e respon- 
deu-me n'estes termos: «Olhe para estes retratos» 
— e apontou para uma dúzia de figuras pendentes 
das paredes — «olhe para estes retratos, e veja se 
ahi está algum com a estrella vermelha das seis 
pontas cosida sobre a garnacha ou sobre o amez*» 
dito isto apontou-me a porta da escada. 

Não sei se ódio, se lagrimas, se tudo a um tempo, 
me enchia o coração ! Já então não tive animo para 
te escrever ! 

Ha desgraças tamanhas que um homem parece 
envergonhar- se de contal-as aos seus amigos mais 
do intimo d'alma. Fechei-me com o segredo da mi- 



* Característico legal da raça judaica. Vej. Ord. do Reino 
— as Philip. 



o olho de vidro j3 

nha ignominia. Deixei Bragança e fui para a Guar- 
da, resolvido a entregar-me inertemente ao devo- 
rar silencioso da minha saudade. 

Fugi dos carinhos da familia, e ferrolhei-me n'uma 
casa agreste e erma na quebrada da Serra da Es- 
trella. A desesperação alli foi-me consoladora, por 
que a morte era inevitável n'aquelle desamparo. 

Nem ainda então pude escrever-te, meu amigo í 
Assim que tentava fazel-o, não sei exprimir que des- 
alento me esvaía a cabeça. «Que vale queixar-me ? ! 
dizia eu entre mim — O que Deus não dá não m'o 
podem dar amigos. Deixal-os gosar, deixal-os igno- 
rar estas obscuras angustias.» 

Uma noite, faz agora onze mezes, estava eu pas- 
seiandonos quasi pardieiros da minha vivenda, quando 
ouvi tropel de cavalgaduras no barrocal que descia 
da serra ao alpestre casalejo de meus avós, os quaes 
alli se tinham homisiado no tempo das grandes per- 
seguições do rei D. Manuel. Accudi á janella e ouvi 
uma voz de homem dizer: «E' aqui.» Não sei que 
outras palavras se disseram : eram a voz d'ella : era 
Maria. 

Quando dei tento de mim, e cobrei conhecimento 
da minha situação, tinha nos braços a filha de Fer- 
não Cabral, e á beira d'ella vi uma criada sua, que 
nos fora medianeira, e um criado da casa de meu 
pae. 

Contou Maria, a intercadencias anciadas, que fu- 
gira de Bragança, logo que o pae se ausentou por 
alguns dias, no propósito de negociar o casamento 
d'ella com um fidalgo de Vizeu. Como não tinha 
mãe, e costumava passar muitas horas reclusa no 



/^ o olho de vidro 

seu quarto, os domésticos não deram logo conta 
da fuga, nem a suspeitariam tão cedo, se a sua aia 
não faltasse também. Fugiu caminho da Guarda, e 
procurou-me alta noite, em casa de meus pães, que 
tentaram restituil-a á casa paterna, temerosos dos 
resultados. Como ella, porém, os assustasse ainda 
mais com o propósito de se matar, encaminha- 
ram-na ao meu deserto, com todo o segredo. 

Imagina tu que hospedagem daria eu á filha do 
gentil-homem, alli, n'aquellas ruinas, onde todas as 
alfaias eram um catre de bancos, uma arca, dois 
tamboretes de páo, e alguma loiça vermelha do uso 
dos caseiros, pobre gente de nossa raça, que para 
alli ficara grangeando e usofruindo as pouquinhas e 
inférteis terras ! . . . A Maria e á sua criada grave 
dei o meu leito ; e com o meu criado me fui ao pa- 
lheiro, e me agazalhei nas mantas que os caseiros 
nos emprestaram. ' 

De madrugada, chegou meu pae a indagar do meu 
destino, e a dar-me alguns recursos para fugirmos 
até onde passássemos insuspeitos. O velho chorava, 
e eu, digo-t'o com pejo, queria que elle se alegrasse 
de me ver feliz! 

Deferi a minha saida para o dia seguinte, sem sa- 
ber que rumo tomasse. Meu pae mandava-me fugir 
por Hespanha e embarcar para Hollanda. Maria, 
esperançada na commiseração do pae e na protec- 
ção dos seus santos advogados, queria que eu e ella 
fossemos ajoelhar aos pés d'elle. Por mais que m'o 
dissesse em tom de anjo quando revela os decretos 
do céo, não pude sequer imaginar possivel o per- 
dão do soberbo fidalgo. 



o olho de ptdro i5 

Saimos para Celorico, a quatro léguas de distan- 
cia. N'uma aldeia dos arrabaldes, moravam irmãos 
do meu caseiro, grangeando um casal. Alli delibe- 
rei repousar alguns dias, porque Maria já tão sem 
forças ia da jornada por ^serras n'um dia de rigo- 
roso inverno, que mal podia ter-se nas andilhas. 
Desde aqui avisei meu pae, pedindo-lhe novas do 
que soubesse. Respondeu-me que, horas antes, ti- 
nha sido cercada nossa casa, e que elle, com todos 
os nossos, estavam arriscados a ser presos. 

E foram, no dia seguinte, presos e fechados em 
masmorras. 

As immediatas noticias que tive foram cruelissi- 
mas. Todos os nossos bens tinham sido inventaria- 
dos como para entrarem no sequestro feito a bens 
de judeus. Eu não devia já esperar recursos alguns 
de minha casa, e o dinheiro que eu possuia pou- 
quíssimo era para me transportar para fora do rei- 
no. Sobrepõe tu, Francisco, a estes lances, o medo 
da prisão, e escutar a cada instante nos menores 
rumores o estrépito dos quadrilheiros! E, se estes 
são poucos supplicios para conceberes muito em 
sombra a minha vida, ajunta a isto uma cama de 
enxerga n'um quarto de vigamento por onde a ven- 
tania esfuziava, e sobre essa enxerga a pobre me- 
nina a tremer os frios das sesÕes, e eu de mãos 
postas a contemplal-a assim! 

Para que ninguém da aldeia nos visse, os dias 
para nós eram a continuação das noites. Aquelles 
pobrinhos fazendeiros, de portas a dentro, melho- 
raram quanto poderam a nossa situação. Eu, por 
minhas mãos, carpintijei o tabique para aconchegar 



j6 O olho de vidro 

o nosso quarto; e, com todas as cautellas, consegui 
que viessem de longe bragaes e roupas com que 
tirei á alcova de Maria as tristezas da indigência. 
Melhorou a minha pobre amiga e desenvolveu es- 
pantosa energia na lucta. O sorriso d'ella dava-me 
alentos; mas não podia espancar da minha alma a 
imagem de meu pae, mãe e irmãos encarcerados, 
perseguidos pelo rancor vingativo de Fernão Ca- 
bral, e mais que muito sujeito á extremidade de 
pagarem com a vida o meu delicto. 

Com que traças e trabalhos eu conseguia incer- 
tas noticias d'elles! Para mim era já consolativa a 
nova de que os não tinham mandado para os cár- 
ceres da inquisição de Coimbra. Logo que elles 
aqui entrassem, perdidos os considerava cu. 

E assim vão decorridos treze mezes, Francisco 
Luiz ! Comprehendes tu que infernos eu tenho apa- 
gado com as minhas lagrimas para poder viver 
ainda!... Lagrimas escondidas d'aquella martyr, 
para que ella, conhecedora do meu desalento, não 
desanime ! . . . 

— E choras assim, António ! Coragem ! — excla- 
mou Abreu, tomando contra o seio o anciadissimo 
moço. 

— Ai! deixa-me chorar, que não o pude ainda 
fazer tanto ás largas. Deixa-me chorar, que isto é 
veneno mortal que me sáe aos olhos 1 E' preciso 
que vejamos alma compadecida para sabermos a 
doçura d'este desafogo de lagrimas! 

Passados momentos, António apertou, de golpe 
e convulsamente, as mãos do condiscipulo, levou-as 
aos lábios, e exclamou soluçante : 



o olho de vidro ly 

— Sabes ao que vim ? 

— Diz, meu querido amigo. 

— Venho pedir-te dinheiro para fugir de Portu- 
gal. 

— Tel-o-has. Minha mãe já não vive, e eu tenho 
uma legitima. Conta com elia. 

— Bem hajas! bem hajas, meu Francisco! Mas 
venho pedir-te mais alguma coisa. 

— Diz. 

— Eu tenho um filho de quinze dias. Não posso 
fugir com a creancinha. Aceitas m^a no regaço da 
tua caridade ? Ficas com o meu filhinho, para m'o 
restituir, quando a felicidade me bafejar ? 

— Ficarei com o teu filhinho, António. Dar-lhe- 
hei o coração que te dou a ti. Se Deus o não tiver 
levado, quando voltares, achal-o-has. Não lhe direi 
o teu nome de pae, sem que tu lh'o possas dar. 
Ninguém saberá que é teu filho, sem que tu possas 
dizel-o ao mundo. 

— E' assim que t'o roga a minha alma attribula- 
da. . . a ti e a Deus, que me está fallando no teu 
coração. Porque não hei de eu ajoelhar a teus pés, 
se creio que em ti está o Senhor da compaixão e 
da misericórdia?! 

Francisco Luiz de Abreu levantou nos braços o 
arquejante moço; e, não menos commovido, ratifi- 
cou as promessas feitas. 



Ás dez horas da noite seguinte, Francisco Luiz e 
o seu amigo sairam de Coimbra, cada qual por di- 
versa porta. O bemfeitor toi para Ourem, sua terra; 



i8 O olho de vidro 

o judeu da Guarda, por desvios escusos, entrou, de- 
corridas duas noites de jornada, na abegoaria onde 
o esperava a mãe da creancinha, que bebia um leite 
aguado de lagrimas. 

Dez dias volvidos, por noite alta,[entrava no mes- 
mo casalejo Francisco Luiz de Abreu, com uma 
ama de leite, e com a sua legitima materna n'um 
saco de moedas de ouro. 

Contemplou a formosura da peccadora, e a for- 
mosura do innocente nos braços d'ella. Saudou-os, 
chorando, e tomou a creancinha muito aconchegada 
do seio. 

— Como se chama o anjinho ? — perguntou o aca- 
démico. 

— Tu o dirás — respondeu António. — E' teu afi- 
lhado. 

— Seja Francisco — disse a mãe. 

— Muito desejaria eu baptisal-o, e dar-Ihe o meu 
nome — observou o académico ; — mas tu sabes, 
António, o resguardo que convém ter comvosco, 
com este menino e comigo. O meu parecer é que 
se esconda quanto ser possa a influencia que eu hei 
de ter na creação de teu filho. Melhor é que as sus- 
peitas do mundo, se ellas vingarem descobrir liga- 
ções d'esta creança comigo, me julguem a mim, que 
não a ti, pae d'ella. O meu intento é alugar uma 
casinha em Coimbra onde a ama viva com elle. Não 
irei ser padrinho, para não dar corte á desconfian- 
ça de que elle seja meu filho. Assim se irá crean- 
do, até que eu conclua a formatura. N'este meio 
tempo, quererá Deus que tu voltes a Portugal. 

— Voltarei eu?! — exclamou António, apertando 



o olho de vidro ig 

no mesmo braço o amigo, o filho, e a mãe, que es- 
tava lavando com lagrimas o rosto da creancinha, 
deitada nos braços do estudante. — Ver-vos-hei eu 
mais ? —balbuciou intallado de gemidos. Que futuros 
melhores posso esperar eu ! ? Gomo crês tu possí- 
vel o termo da perseguição?. . . 

— Não sei — disse Abreu, fingindo esperanças. — 
Não sei . . . mas as voltas do mundo são tão espan- 
tosas. . . Todavia. . . — continuou elle com alvoroço 
de uma já sincera esperança — não te lembraste 
ainda d'uma felicidade muitissimo possivel ? 

— Qual ? — conclamaram os dois, para quem um 
raio de esperança era já cousa de estontear como 
a luz do sol aos exhumados das trevas de longo en- 
carceramento. — Qual ? que felicidade nos promet- 
tes, meu amigo ? 

— A mais obvia e fácil. O que me espanta é que 
ella vos não haja sorrido primeiro do que a mim. 
Ides para Hespanha, não é assim ? 

— Vamos. 

— De lá passaes a Hollanda, onde achareis o abri- 
go que os nossos irmãos deparam a quantos infelizes 
vão de cá acossados pelas tochas do auto da fé. Tu, 
António, és novo e robusto. Se não quizeres conti- 
nuar os teus estudos médicos lá fora, voltas a tua 
actividade para outra ordem de trabalhos : fazes-te 
mercador, ganhas dinheiro, esqueces a pátria, como 
se nunca a tivesses, como em verdade não temos ; 
depois, mandas ir o teu filhinho, como complemen- 
to da tua felicidade na vida tranquilla. 

— Que sonho ! — clamou alegremente a filha de 
Fernão Cabral. — E eu nunca pensara n'isso. . . 



20 O olho de vidro 

— Nem eu . . , — ajuntou António. — Ha umas 
desgraças que esterilisam a mais pensadora e expe- 
ditiva alma ! Eu não via senão escuridade. . . Ago- 
ra, bem hajas tu, meu irmão, que me restitues á se- 
renidade de homem inquebrantável por affrontas da 
sorte ... E a ti, a ti, meu amigo ? Não hei de cu mais 
vêr-te ? 

— Porque não, se eu hei de ser propriamente 
quem te vá levar o filho ? 

— Oh ! então já sei que ha o antever da perfeita 
felicidade, cá mesmo d'este grande abysmo em que 
me lancei com esta infeliz menina. . . 

E, abraçando-se n'ella, choravam ambos lagrimas 
já de jubilo, como as de quantos náufragos que 
apegam sobre ponta de rocha, ainda quando ao 
despegarem-se, para ganhar terra, voragens novas 
se lhes anteponham. 

N'este dia, como se a adversidade cançasse de 
cruciar os dois fugitivos, boa nova lhes chegou a 
sobredoirar os prazeres da esperança. 

Sem embargo da raivosa perseguição do fidalgo 
de Bragança á inculpada família do hebreu, as leis 
não se dobraram a sentenciar a perdição dos inno- 
centes. Após dez mezes de masmorra na cidade da 
Guarda, os dois velhos e seus filhos sairam livres, 
sob a bandeira misericordiosa dos dignitários da 
Sé, conjurados todos em deporem sobre a pura 
christandade dos presos, e a sua irresponsabihdade 
nas desordens do máo membro de sua familia. 

Redobrada a exultação de António com esta no- 
va, queria já elle dispensar-se de receber o emprés- 
timo de Francisco de Abreu, como quem contava 



o olho de vidro 21 

com sobejo dinheiro de sua casa resgatada do se- 
questro. O amigo, porém, não condescendeu nem 
o desquitou da obrigação de devedor, instando na 
immediata sai da de Portugal, porque a raiva do fi- 
dalgo redobraria de vigilância, depois da soltura 
dos presos em quem não podéra assentar em cheio 
a mão rancorosa. 

Prevaleceram as judiciosas previsões de Fran- 
cisco Luiz. A'quella hora, de feito, já Fernão Ca- 
bral, esporeado pelo ódio, apertava novas diligen- 
cias para descobrir o rasto dos fugitivos, e, me- 
diante disfarçados espias que na Guarda lh'os 
andavam furoando, não estava já longe de lhes des- 
cobrir o rasto. 

Ao outro dia, depois de muito chorar da mãe, a 
cujo seio arrancaram a creancinha, Francisco Luiz, 
sem saber como se estancavam lagrimas de tão 
puro sangue de alma, fugiu para assim dizer com 
o menino, sem esperar as ultimas despedidas. 

Ao anoitecer doeste dia, os consternados pães, 
por serranias não trilhadas endireitaram ás frontei- 
ras e vingaram entrar em Hespanha. Contempla- 
vâm-se a espaços, e viam nos olhos um do outro 
o desconforto, a desesperança, o convencimento de 
que sua desgraça ia crescendo. 

— E o nosso filhinho ?. . . — dizia ella em gemi- 
dos, que pareciam um arrancar da vida. 

E elle cobria o rosto com as mãos, arquejava, 
engulia as lagrimas e não respondia. 

— Que mal fizemos em deixar a creancinha ! — 
voltava ella, cruzando os braços sobre os seios, 
que lhe doiam entumecidos do leite. — Que ruim 



22 O olho de vidro 

mãe eu fui !. . . Meu Deus, perdoae-me que eu so- 
mente agora considero a grandeza do meu crime ! 
— Não chores assim ! — atalhava o attribulado 
moço. Pois como andarias tu fugitiva com um fi- 
lhinho de três semanas ! O' Maria, por Deus te 
peço que nos não atormentemos ! Ajuda-me a ser 
homem I Ampara-me, pela boa sorte do nosso filho 
te rogo que me ampares ! Volta ao futuro os olhos 
de tua alma! Esperemos. . . luctemos, sejamos for- 
tes, não nos deixemos acabar aos golpes d'esta 
saudade. 



Iníomações 



Corria o anno de 1697. 

Francisco Luiz d' Abreu, doutor em medicina, 
mudara sua residência para Coimbra, esperançado 
em entrar no magistério, conforme lh*o promettiam 
sua capacidade, vasto saber e créditos. Tinha casa- 
do, quatro annos antes, com Francisca Rodrigues 
de Oliveira, filha de abastados judeus de Ourem. 
Não tinham filhos ; mas dos braços de um ao outro 
saltava um menino de cinco annos, chamado Braz, 
acariciado com blandicias de filho. A creança tra- 
tava de padrinho o doutor, e á senhora chamava 
mãe. A esposa do medico, privada do goso de se 
ver assim amimada nos lábios de anjo desentra- 
nhado de seu seio, jubilava de lhe ouvir aquelle 
doce nome de mãe, e toda se estremecia de mater- 
nal ternura chamando-lhe seu filho. 

Grande numero de pessoas relacionadas com 



24 o olho de vidro 

Francisco Luiz, presumia que o pequenino Braz era 
filho natural d'elle, e que Francisca de Oliveira, 
bem que israelita e pérfida ao sacramento do ba- 
ptismo, alojava no peito entranhas tão christãs que 
levara para sua companhia o menino, e lhe queria 
até á extremidade de lhe chamar filho, e consentir 
que elle lhe chamasse mãe. 

Exceptuada a amoravel esposa do doutor, nin- 
guém sabia em Portugal quem fossem os pães 
d'aquellà creança. A ama, que a tinha amamentado, 
morrera ; e a pobre gente, que lhe assistira ao nas- 
cimento, ignorava o destino d'elle. 

Um dia, como a creança, antes de ir-se á cama, 
entrasse a beijar a mão do padrinho, Francisca 
beijou-a nas faces, e disse-lhe : 

— Não tornes a chamar padrinho ao teu amigo ; 
chama-lhe pae, sim, Braz ? 

— Pois sim, mãesinha — disse a creança, e saiu 
pela mão da creada. 

Francisca proseguiu : 

— Pois não é assim melhor?! Acabamos de nos 
convencer que elle é nosso filho. 

— O menina, respondeu o marido — esse conven- 
cimento parece-me difficil . . . 

— Nosso filho gerado no coração ... — tornou 
ella. 

— Isso lá, sim ; doesse modo já eu o perfilhei ; 
mas o peior é que amanhã podem apparecer ahi 
umas entranhas menos phantasticas do que a tua 
maternidade de coração a reclamarem o que é seu 
legitimamente. 

— Pois tu cuidas que elles voltam cá?! Podes 



o olho de vidro 2S 

ainda imaginar que elles vivem ? Ha tres annos que 
não temos uma carta d'elles! 

— Mas também não recebemos a certidão de 
óbito. 

— Pois sim, — redarguiu Francisca — mas, se elles 
vivessem, as pessoas de Hollanda, a quem tu tens 
pedido tantas vezes novas d'elles, não t'as dariam, 
ainda mesmo que lhe não soubessem os verdadei- 
ros nomes?! 

— Acho-te razão; porém, custa-me a crer que 
elles tenham morrido ambos. O mais certo é o que 
eu tantas vezes te tenho dito. . . 

— Que Fernão Cabral tem recebido as cartas que 
elles te escrevem ? 

— Sim. 

— Não creio. Tu recebes cartas de Amsterdam, 
de Londres e de toda a parte. Se te subtrahissem 
umas, iam todas, homem. Cá, ninguém me tira a 
mim da cabeça, que elles morreram em naufrágio, 
ou os sicários do fidalgo os mataram lá por fora, 
ou... quem sabe?... a tamanho apuro de des- 
graça chegariam, que se dessem a si a morte, como 
no século passado succedeu com tantos irmãos nos- 
sos . . . 

— Pôde ser— obtemperou Francisco Luiz; — mas 
teriam coragem de matar-se uns pães que dei- 
xavam esta creança ? !. . .Não é possível ! A ultima 
carta, que recebi de António, aqui está — disse elle, 
tirando-a do segredo de uma gaveta — é de 4 de ou- 
tubro de 1694. Escreve-me de Marselha. Não se 
queixa de mingua de recursos. Revela uma certa se- 
guridade de espirito, que é signal de boas avenças 



26 o olho de vidro 

com as misérias da vida. Diz que está em arranjos 
com alguns hebreus, filhos e netos de portuguezes, 
para se trasladarem com suas familias para uma 
colónia franceza, que, diz elle, talvez seja a de S. 
Domingos. Promette escrever-me quando se houver 
definitivamente resolvido, e depois. . . 

— Mais nada— atalhou Francisca — Ora, no Ca- 
nadá, já sabemos que elles não estão. N'outras co- 
lónias, também tu já sabes que ninguém os viu» 
Que havemos de pensar d'isto? Que se ha de sup- 
por depois do silencio de três annos? 

— Que as cartas me são roubadas — insistiu o 
doutor. 

— E tu a teimar, homem ! . . . Oxalá que eu me 
engane ; mas, se adivinho, Deus sabe que o menino 
está amparado, e que ha de ser sempre meu filho, 
ainda que o senhor me dê muitos filhos. 

— Suicidarem-se ! — proseguiu Francisco de Abreu, 
que parecia, de absorvido em suas cogitações, não 
ouvir a esposa — Suicidarem se não pôde ser... 
António Mourão graduou-se em medicina em Paris 
ha quatro annos, e de lá passou para Hollanda. Um 
medico não chega a encarar com tão feia miséria 
que lhe quebre o animo, ao extremo de o anniqui- 
lar. António em qualquer parte acharia pão, ainda 
que fosse máo physico; porém, com os talentos 
d'elle, não posso conceber máo medico. Seja o que 
fôr, Francisca. Eu espero ainda haver novas por 
alguns hebreus de Marselha. Hei de perguntar em 
que época e em que navios saíram colonos, e para 
onde sairam. Não o fiz até agora por medo que as 
minhas cartas andem espiadas, e vão dar ás mãos 



o olho de vidro 57 

de Fernão Cabral. Mas vou escrever ao nosso ami- 
go Francisco de Moraes Taveira, que está em Lis- 
boa de viagem para França, e pedir-lhe que inda- 
gue quanto poder dos nossos irmãos de Marselha 
o destino dos colonos, com os quaes saiu António 
de Sá Mourão. 

Francisca entrou á alcova do menino, e sentou- 
se-Ihe á beira do catre a contemplal-o adormecido 
em sonhos, que lhe sorriam, a espaços, na rosa en- 
tre-aberta dos lábios. 

Francisco Luiz de Abreu ficou escrevendo largas 
paginas ao seu amigo Francisco de Moraes, hebreu 
abastadissimo de Villa Flor, commerciante de pe- 
dras preciosas, que traficava nas principaes cidades 
de Europa e Ásia. 

Na volta do correio, Francisco de Moraes asseve- 
rou ao doutor que chegado a França, iria indagar 
pessoalmente a Marselha, e não pouparia despezas 
com os informadores que o satisfizessem. E, por 
esta occasião, lhe noticiava que fazia conta de tra- 
zer de Hollanda seu filho Heitor, que lá se estava 
educando em humanidades com seus tios, para es- 
tudar medicina em Coimbra ; e, a tal respeito, ac- 
crescentava : «Não sei se erro em trazer o rapaz 
para Portugal ; mas a mãe insta, chora, e definha- 
se a termos que receio que me ella morra. Seja o 
que Deus quizer. Aconselhar-lhe-hei o que lhe cum- 
pre fazer, e espero que elle, por obediência e de- 
sejo da vida, me attenda.» 

Francisco Luiz deu-se logo pressa em pedir ao 
hebreu que não trouxesse para Portugal, como vi- 
ctima amarrada para o açougue, o pobre rapaz que 



28 o olho de vidro 

lá fóra vivia sem receio da polé e da fogueira. Pin- 
tava-lhe, sem encarecimento, os perigos que amea- 
çavam em Portugal um rapaz creado e educado en- 
tre israelitas doutos, e com elles affeito a dizer alto 
e destemidamente o seu pensar em coisas de reli- 
gião. Recordava-lhe as numerosas victimas da in- 
quisição, que preferiram morrer a desconfessar sua 
fé, antepondo a gloria do martyrio da idéa herdada 
de avós á hypocrisia de acceitarem apparentemente 
a religião dos carniceiros filhos de Domingos de 
Gusmão. Lembrava-lhe a sublime coragem de Ma- 
nuel Fernandes Villa Real, cônsul portuguez em 
Paris, e, não obstante, garrotado e queimado na 
praça da Ribeira em Lisboa no anno de i6b2. Lem- 
brava-lhe o lente de Coimbra António Homem, quei- 
mado em 1624, e o advogado Miguel Henriques da 
Fonseca, Pedro Serrão * e outros, cuja inflexibili- 
dade de caracter, comquanto perpetuasse honrada 
memoria, lhes custou aflrontosissima morte, e dei- 
xou aberta por muito tempo amarga torrente de 
lagrimas. 

As reflexões do medico abalaram o judeu; mas 
não lhe demudaram a tenção. Era Heitor, filho úni- 
co, herdeiro de grandes haveres; queria voltar á 
pátria, onde o chamavam saudades de menino ; ti- 
nha por si as lagrimas e instancias da mãe ; pro- 
mettia ser discreto e hypocrita ; queixava-se do cli- 
ma de Hollanda e de febres quartans. O pae era 
sósinho a querel-o afastado de Portugal, e assim 



* Veja a nota final. 



o olho de vidro 2g 

mesmo andava em lucta comsigo mesmo, até que 
deliberou trazei o de volta da sua excursão mer- 
cantil a França e outras nações. 

De Marselha escreveu Francisco de Moraes infor- 
mando o seu amigo Abreu. Dizia que António de 
Sá Mourão, convidado com grandes lucros a ir es- 
tabelecer-se como medico no Canadá, ou Nova 
França, aceitara a proposta, e embarcara com sua 
mulher, resolvido a enriquecer-se no prosperado 
trafico dos pellames. Ajuntava que um dos três na- 
vios, carregados de colonos,' batido pela tormenta, 
se esgarrara do rumo, e fora a pique na costa de 
S. Domingos, a tempo que duas galeotas de flibus- 
teiros, conhecidos como demónios do mar, na lin- 
guagem da peninsula britannica, faziam aguada 
n'uma bahia d^aquella infamada costa, onde poucos 
annos antes haviam naufragado três naus francezas, 
capitaneadas pelo audacissimo colonisador Robert 
Gavalier de la Salle. Ajuntava o informador que 
n'aquelle navio perdido iam fatalmente o medico e 
sua mulher, com muitas pessoas das mais graúdas 
da colónia, algumas das quaes se presumia que ti- 
nham caido nas mãos dos flibusteiros segundo in- 
formações de um galeão hespanhol, que das pes- 
soar embarcadas no navio perdido, até áquella hora, 
não viera noticia a França. 

Francisco d' Abreu, lendo a carta, disse á esposa. 

— Tinhas adivinhado desgraçadamente ! O nosso 
Braz já não tem pae nem mãe. Agora podemos dis- 
por do futuro d'esta creança. Vê tu que funesto re- 
mate houveram aquelles amores do meu pobre An- 
tónio ! Já não ha duvidar . . . Estão mortos ! Batam 



3o O olho de vidro 

as mãos os gallileos, e folguem de ver que vinga- 
ram as ondas o que as lavaredas não poderam í 
Oh ! . . . que vontade eu tenho de banhar o rosto 
doeste menino com as minhas lagrimas, e contar lhe 
as desgraças de seus pães. 

— Não — atalhou Francisca — não lhe digas nada \ 
não digas ! Que lucra elle em saber isso ? . . . Vaes 
semear-Ihe no coração ódios e paixões que, no fu- 
turo, lhe podem ser a sua perdição. Nem se quer 
lhe digas em tempo algum que seu pae era judeu. 
Quebremos-lhe, se podermos, este condão funesto l 



II 



era mãe ! 



No seguinte anno de 1698, o doutor Abreu, que 
nunca se descuidava de ter o ouvido fito aos rumo- 
res surdos da inquisição, recebeu mui secreto a\iso 
de algum condiscipulo, que devia ser familiar do 
santo officio, qualidade com que o maior numero 
de médicos d'aquelle tempo se nobilitava; e tanto 
assim era, que algum medico, privado d*ella, dava 
a entender que pertencia mais ou menos á seita 
maldita ; ou, como diziam, tinha uma, duas ou três 
partes de judeu. O aviso mandava-o aperceber-se 
para trabalhos grandes. 

Alvoroçado com a pavorosa nova, o doutor quiz 
Ioga sair da pátria, e refugiar-se em Damasco, onde 
tinha um tio que exercitara em Portugal a profissão 
de boticário, no Fundão, até ao anno de 1662, em 
que fora queimado o capitão Manuel Fernandes 
Villa-Real. Chamava-se o fugitivo Pedro Lopes. 



32 o olho de vidro 

Impediram-Ihe ao doutor a precipitada fuga al- 
guns parentes e amigos, que podiam bastante com 
os promotores do santo officio ; recommendando- 
Ihe, porém, que visitasse as egrejas com frequência, 
e desse bem publicas demonstrações de sua pie- 
dade. 

Assim o cumpriu o doutor Francisco Luiz, bem 
que sua mulher mui violentada se prestasse a uma 
ostentação hypocrita, da qual a crédula israelita se 
penitenciava com muitos jejuns e orações. 

Decorridos mezes, fez-se auto da fé, e n'elle saiu 
condemnado a prisão illimitada um Fernão Vaz Lu- 
cena, parente do doutor. A máxima culpa d'este 
christão novo era o ter-se descaminhado e caido 
nas mãos dos inquisidores uma carta em verso, que 
Pedro Lopes, tio de Francisco Luiz d' Abreu, lhe 
escrevera de Damasco. Esta carta indirectamente 
ameaçava a tranquillidade do lente de Coimbra ; e, 
por amor d'ella, se formara a tempestade em que 
os amigos do lente viam ao longe o raio, o qual 
urgia conjurar com visitas aos templos e tregeitos 
bem públicos de piedade. 

Que perversa e impia carta seria aquella, em que 
os inquisidores acharam motivo para condemnarem 
Fernão Vaz Lucena a cárcere perpetuo ? N'um ve- 
lho manuscripto que possuimos, chamado Memorias 
de Francisco Soares Nogueira, encontramos trasla- 
dada a carta, cuja copia não vem descabida ao pon- 
to ; e, se mais não vale, tem por si o mérito de nos 
dizer como os boticários hebreus conciliavam as le- 
tras amenas com a manipulação dos ingentes xaro- 
pes d*aquelle tempo, posto que nem sempre conci- 



o olho de vidro 33 

liassem a inspiração com a contagem das syllabas, 
segundo a arte poética. 
Dizia assim a carta : 



Oh Fernando, oh Fernando, 

até quando 
ha de durar teu descudo, 
entre o povo torpe e rudo ? 
Que serve estar aguardando ? 
Sabes a banda d'além . . . 

e o que convém. 
Quem se agarra, quem se afterra, 
deixa o monte, deixa a serra, 
e ao valle seguro vem. 



Não vês como arde esse matto 



que pouco a industria vai ? 
Antes que chegue ao casal, 
levanta cabana e fato ! 
Não sejas aventureiro, 

que o toureiro 
simff), morre em seu officio. 
Mais vai ter outro exercicio, 
que fundar em ser ligeiro. 
Por que não queres ser forro ? 

Eu morro, 
por não haver quem te arranque ! 
Se podes ver de palanque 
por que queres andar no corro ? 



Também eu estive lá, 
e sei o que ha ; 
tudo passei, tudo vi. 
Não se incerra o mundo ahi 



34 O olho de vidro 

melhor mundo vae por cá ; 
o pão é cá mais ensôsso, 
e a carne sem chambão ; 
também cá se ganha pão, 
e não com tanto sobr'ôsso. 
. A gente é cá sem reima, 
de menos teima ; 
a terra fructos produz, 
e o sol dá cá mais luz, 
posto que tanto não queima. 



Digo-te verdade mera: 

considera ; 
e, se queres ter descanço, 
vem buscar o rio manso, 
foge do mar que se altera ; 
foge do lago e da cova. 

cousa nova, 
e só n'isto me obedece. 
Mova-te o próprio interesse, 
quando o grão Deus te não mova ; 
que os lobos como rodeiam 

sempre pream. 



Divulgou-se a carta, depois do auto da fé. O dou- 
tor Abreu, assim que a viu, aferverou-se na fre- 
quência de egrejas, batia nos peitos estrondosas pu- 
nhadas, e ingranzava as contas das camaldulas, de 
modo que os ouvidos dos devotos podessem con- 
tar-lhe os quinze mystcrios do rozario. Porém, co- 
mo se a hypocrisia lhe não desse caução bastante 
segura, o lente de medicina, emquanto escoava os 
sonoros bogalhos, scismava no modo de fugir, sem 
dar ansa aos espias. 



o olho de vidro 35 

Apezar das camaldulas e dos protectores, a in- 
quisição cada vez mais desconfiava da sinceridade 
do doutor ; e o doutor, não menos vigilante que ella, 
cada hora, habilmente negociava a transferencia dos 
seus haveres ao estrangeiro. 

O pequeno Braz era-lhe empeço. Não sabia elle 
se devia levar comsigo a creança. O perigo e o me- 
do, concentrando-o no cogitar em salvar-se, torna- 
va-o mais egoista em cuidados de si, e menos pen- 
sativo do futuro do pequeno. Francisca de Oliveira, 
por sua parte, queria muito á creança ; mas não era 
bem o querer e amar maternal : faltava-lhe aquelle 
sentir-se viver, estremecer e morrer nas artérias do 
filho. Então lhe seria a ella bom de comprehender 
que somente é mãe aquella que sentiu as dores da 
maternidade. 

— Que hade fazer-se ao pequeno ? onde o dei- 
xaremos? — perguntava Francisco Luiz á mulher. 

— Se o podessemos levar sem difficuldade . . . 

— Não podemos, por que eu já desconfio que nos 
será negado o passaporte. Temos de fugir ; e es- 
capar com uma creança desembaraçadamente nin- 
guém o faz. Bem sabes que nossos avós matavam 
os filhos que lhes retardavam e denunciavam a 
fuga. 

— Deixa-se em casa dos nossos parentes — tor- 
nava ella. 

— Isso é sacrificar os nossos parentes ; porque o 
rapaz é considerado meu filho — observou o doutor. 
— Tenho uma boa idéa — ajuntou elle — entregue- 
mol-o a Francisco de Moraes, de Vilia Flor, que 
sabe a historia d'esta creança, e lhe ha de servir de 



36 O olho de vidro 

pae com os sobejos da sua riqueza. Não ha tempo 
a perder. Vou escrever-lhe para Lisboa, e pedir lhe 
que me espere por estes quinze dias. 

Francisco de Moraes Taveira aceitou gratamente 
o encargo, tanto por lhe ser offerecido pelo doutor 
Abreu, como por ser o orphãosinho filho do des- 
venturado israelita, que perdera provavelmente a 
vida, quando cuidava ganhal-a com honra. 

Desde que a resposta chegou, Francisca, olhando 
a face carinhosa da creança, chorava sempre. Quanto 
mais o estreitava ao peito, mais o menino lhe sor- 
ria, como se com afagos quizesse mitigar as angus- 
tias desconhecidas, que via no rosto lagrimoso de 
sua mãe. Já ella pedia ao marido que não deixasse 
o menino ; vacillava já também o doutor \ e, muito 
instado da esposa e do coração, que a si mesmo se 
reprehendia, deliberou resolver-se em Lisboa, se- 
gundo se lhe figurasse fácil ou difficil a passagem 
para outro reino. 

Nas ferias d'aquelle anno, o lente simulou uma 
jornada a Ourem, sua pátria, e foi em direitura a 
Lisboa. O santo ofíicio de Coimbra reparou na sai- 
da, e lançou pesquizas. Informaram-no de alguns 
processos de liquidação de patrimónios e venda de 
bens, que o doutor Abreu rapidamente negociara 
na terra de sua mulher. D'isto foi avisado o inqui- 
sidor geral, de modo que já em Lisboa o promotor 
instaurava processo, quando o lente alli chegou. 

Avisado pelo medico mais convisinho dos segre- 
dos da inquisição, Francisco Luiz deu-se pressa em 
sair de Lisboa com destino a Inglaterra. Negaram- 
Ihe passaporte. Atterrado d*esta contrariedade, si- 



o olho de vidro 3j 

gnificativa de maiores violências, mudou de resi- 
dência para casa segura, que lhe dispoz o hebreu 
de Villa Flor. 

A vigilância dos esbirros estava attenta sobre os 
navios hollandezes principalmente, e pouco menos 
sobre quaesquer outros de commercio com portos 
estrangeiros. Francisco de Moraes, avassalando com 
ouro a piedade do piloto de uma nau portugueza 
destinada á índia, introduziu no navio o doutor e 
sua mulher, considerados mercadores e próximos 
parentes do piloto. As arcas de suas preciosidades 
entraram com os passageiros ; tudo que mais e me- 
nos caro lhes era foi com elles, exceptuado o pe- 
queno Braz, que dormia á hora em que elles par- 
tiram, e nem acordou ao cair-lhe nas faces as la- 
grimas dos seus bemfeitores. 

Ao amanhecer-lhe o dia seguinte, Braz pergun- 
tou pela mãe. Ai ! se ella o fosse, não perguntaria 
o desamparadinho por sua mãe. 

Respondeu-lhe um moço de vinte annos, que os 
seus amigos tinham ido fora de Lisboa, e voltariam 
passados alguns dias. A criança chorou em silen- 
cio, como quem conhecia que o prantear-se seria 
desagradecer as caricias que lhe fazia o filho de 
Francisco de Moraes. 

Era elle o mancebo que o hebreu de Villa Flor 
fora buscar a Amsterdam. 

Heitor Dias da Paz distrahia a creança de seis an- 
nos com brinquedos próprios da meninice. Parecia 
que um ao outro se estavam divertindo. Heitor quiz 
instituir-se mestre do a ^ c do pequeno ; mas as 
graças infantis do discipulo encantavam-no por ma- 



38 O olho de vidro 

neira, que era coisa de muito rir vêl-os ambos des« 
pegarem do alphabeto para se andarem correndo 
pela casa no jogo dos esconderêlos. 

Dentro em pouco, as lembranças dos fugitivos 
hebreus eram apenas brevissima tristeza de sauda- 
de na memoria de Braz. 

Heitor, desejoso de ver a terra do seu nascimen- 
to, foi para Villa Flor, e levou comsigo o menino* 
Francisco de Moraes, por medo de que, n'alguma 
hora, a inquisição lhe quizesse galardoar a astúcia 
no escape do sobrinho de Pedro Lopes, accenden- 
do em honra d'elle as santas rezinas da fé, tratou 
de sumir-se na sua província, dando-se por cança- 
do de amontoar riquezas. 

Assim se reuniram em felicidade ainda não expe- 
rimentada, os pães de Heitor, contando como ele- 
mento de sua boa sorte a posse do orphão, que, 
de muito amado que era, não sentia falta dos seus 
primeiros amparadores. 



III 



o faro das bestas-íeras 



Por espaço de quatro annos se gosou Heitor 
Dias das doces reminiscências de infância, sem que- 
rer saber de estudos nem do destino. Os pães não 
o incitavam a empregar seu tempo em letras que 
lhe abrissem carreira de gloria. Fechada sabiam 
elles que ella estava aos hebreus, salvo a das scien- 
cias ; folgariam de o ver luzir entre os famigerados 
Zacutos ; mas muito mais se compraziam de o ter 
entre si a recado de toda a suspeita de inimigos e 
do perigo de se relacionar com imprudentes amigos. 

Decorridos, porém, quatro annos, em lyoS, Hei- 
tor Dias da Paz pediu ao pae que o deixasse ir es- 
tudar medicina a Coimbra, porque lhe era já pe- 
sada a ociosidade e desvalia de sua vida. Francisco 
de Moraes, confiado na discrição do moço, conce- 
deu-lhe licença. Heitor pediu que o deixasse levar 
com elle o seu irmãosinho Braz Luiz, para, desde 



40 O olho de vidro 

os dez annos, o ir encaminhando nos estudos con- 
ducentes á carreira da medicina. A generosa lem- 
brança foi applaudida pelos velhos, e o pequeno 
agradeceu-a com lagrimas de alegria. 

Do pupilo ou, segundo as presumpções do vulgo 
de Coimbra, filho do doutor Abreu, já ninguém se 
lembrava quando, corridos cinco annos, lá voltou. 
Heitor a ninguém disse de quem fosse aquelle me- 
nino. Apresentava-o como orphão pobrinho, cuja 
educação elle tomara a sèu cargo. O pequeno já 
também mal se recordava dos seus bemfeitores, e 
quando fallava de algum d'elles, chamando-lhes pae 
ou mãe, o filho de Francisco de Moraes recommen- 
dava-lhe que a pessoas estranhas não dissesse nada 
do pouco que ainda se lembrava. 

Heitor entrou no primeiro anno da faculdade em 
artes, depois de ter sido examinado em humanida- 
des. N'este exame, em coisas de grammatica, scien- 
cia que então reunia muitas espécies hoje distin- 
ctas, o hebreu de Villa Flor, mais descuidada que 
intencionalmente, defendeu proposições que des- 
toaram asperrimamente nas orelhas orthodoxas dos 
examinadores. Sem embargo, deram-n'o como apto, 
reservando mentalmente o espiarem-lhe os actos 
com a vigilância própria de quem quer salvar uma 
alma em risco de perder-se. 

Braz Luiz entrou no collegio de S. Paulo a estu- 
dar latinidade com precoce e admirável entendi- 
mento. Causou certo assombro nos frades que liam 
no collegio a ignorância do moço em doutrina chris- 
tã, interrogaram-n'o minudenciosamente sobre o 
viver da familia que o educara. Braz respondia que 



o olho de vidro 41 

os seus bemfeitores resavam, e elle também re- 
sava por um livrinho de orações. Apresentaram- 
Ihe diversos livros de piedade para que d^entre el- 
les escolhesse o da sua resa. O pequeno sentiu 
um bate no coração, comprehendeu instantanea- 
mente o perigoso d'aquelle interrogatório, e saíu-se 
bem do aperto, indicando o cathecismo de fr. Bar- 
tholomeu dos Martyres. Poucos dias volvidos, Braz 
Luiz papagueava toda a doutrina, dando a enten- 
der que apenas lhe fora necessário recordar o que 
sabia desde a primeira infância. Esta esperteza não 
enganou os mestres. Os primeiros fios da teia en- 
traram logo em urdidura ; e já as inquietas cons- 
ciências dos frades não levavam as noites d'um som- 
no. 

No emtanto, Heitor levou a cabo, com muita ap- 
plicação e extremado engenho o seu primeiro anno. 
Foi a ferias, levou comsigo Braz Luiz, e contou ao 
pae a inquirição porque passara o menino sobre o 
<:athecismo christão. Francisco de Moraes agourou 
mal d'este exame, e pediu ao filho que, em vez de 
voltar a Coimbra, se passasse a Hollanda. Heitor 
Dias engenhou razoes para combater os sustos do 
pae, e voltou ao segundo anno de medicina, le- 
vando Braz ao segundo anno de latim. 

Os de S. Paulo repetiram o inquérito com ardi- 
losos rodeios. Braz, já cabalmente instruido, corta- 
va-lhes as voltas com respostas por demasia atila- 
das; de modo que deu força ás suspeitas, mos- 
trando estar apercebido para destruil-as. 

A este tempo sobejamente sabia o conselho da 
inquisição que os christãos novos de Villa Flor, se 



4^ O olho de vidro 

não eram sinceros judeus, também não eram since- 
ros catholicos. Qualquer das coisas, no entender 
dos theologos, era egual á outra como affronta- 
mento á verdadeira religião. 

Heitor Dias da Paz andava espreitado. Seus con- 
discipulos propriamente o provocavam a questões 
theologicas, das quaes elle se desembaraçava, dan- 
do-se como ignorante de subtilezas e aceitando os 
dogmas sem discussão. O conceito dos espiões de 
sua consciência não melhorava por isso ; quando 
muito, concediam lhe a boa qualidade de judeu dis- 
creto. 

Assim correu o segundo anno da sua formatura, 
sem acontecimento que o precatasse contra alguma 
violência. , ' 

Voltou Heitor aio terceiro anno, com o coração 
retalhado de saudades de sua mãe que ficava mor- 
ta. Levou comsigo para Coimbra o pae que se 
queria deixar morrer na alcova d^onde lhe levaram 
o cadáver da esposa. A convivência do filho deu- 
Ihe alma, e esperança de peito onde inclinar a ca- 
beça na velhice. Não obstante, a saudade levou-o 
ás portas da morte. 

Aquella ida do velho a Coimbra foi desgraça 
para Heitor. Francisco de Moraes, em risco de 
vida resistira a receber os sacramentos, porque o 
seu morrer, sem ritual de religião alguma, queria 
elle que fosse como adormecer inclinado ao res- 
paldo da cadeira. Estrondeou o escândalo nas abo- 
badas dos conventos. Heitor, com o rosto coberto 
de lagrimas, quando sua alma estava a mendigar 
palavras de consolação, porque via alli o pae mo- 



o olho de vidro 4^ 

ribundo, tinha de explicar ás cataduras severas dos 
frades e visinhos a turvação de seu pae, e a, por 
isso, involuntária privação de sacramentos. Redar- 
guido nas satisfações que dava, replicou talvez com 
descomedimento, quando já seu pae se tinha pas- 
sado a Villa Flor. Da replica, provavelmente, foi 
lavrada acta no gabinete do procurador fiscal da 
santo ofl&cio. O certo foi que, vinte dias depois, 
Heitor Duarte da Paz, ao entrar nos geraes da uni- 
versidade, foi acercado de três familiares, que o 
conduziram ao cárcere da inquisição. 

Bemdita a mão da Providencia, que já tinha fe- 
chadas as pálpebras da mãe d'aquelle moço. 

Braz Luiz, comquanto desde o momento em que 
o seu protector foi preso ficasse privado de recur- 
sos para continuar como pensionado em S. Paulo, 
não foi despedido. Os frades paulistanos considera- 
vam-no óptimo estudante, e alma nova para se dei- 
xar fecundar em proveito da santa religião. Além 
de que o orphao, esquecido do nome de seus pães, 
senão engeitado d'elles, não tinha culpa minima da 
hebraísmo de quem o protegia. N'este mesmo pa- 
recer assentaram os frades dominicanos : honra lhes 
seja. E, portanto, Braz Luiz conservou-se no coUe- 
gio a expensas da casa, sem licença do reitor *, e 
por largo tempo ignorante do destino de seu bem- 
feitor, até que, no fim d'aquelle anno de 1704, os 
mestres lhe disseram que Heitor Dias da Paz se es- 
tava purificando de peccados gravíssimos, para re- 



* Veja a nota final. 



44 ^ ^^ho de vidro 

médio dos quaes lhe acudira a vigilância misericor 
diosa do santo tribunal da inquisição. 

Braz chorou muito, e caiu febril na cama. O cho- 
rar e o adoecer do moço mereceu compaixão dos 
mestres, que o consolaram com esperanças seguras 
de que o seu protector havia de sair limpo e absolto 
d'entre as mãos dos filhos de S. Domingos. 

Recobrou o estudante saúde, a tempo que Heitor 
Dias da Paz era transferido á inquisição de Lisboa, 
por motivos mais ou menos extraordinários, que 
não vingámos averiguar. O que a toda luz eviden- 
ciámos é que o hebreu esteve preso desde lo de 
janeiro de 1704 até 12 de setembro de 1706. 

E como saiu elle do cárcere ? Absolto ? Peniten- 
ciado? As feras das cavernas da santa casa espha- 
cellaram-lhe as carnes? Deixaram-lhe ao menos o 
coração com algum sangue, aquelle coração de vinte 
e oito annos, para ainda se restaurar de encontro 
ao seio reparador d*uma esposa, que o anjo dos des- 
amparados lhe houvesse enireluzido nas trevas da 
sua masmorra de seiscentos dias e seiscentas noi- 
tes? 



IV 



Resposta 



Abrira-se em ondas de luz o céo da manhã d'a- 
quelle dia 12 de setembro de 1706. 

Dobraram os sinos de S. Domingos. Apuzeram-se 
os folheiros cavallos das reaes cavallariças ás ber- 
lindas cosidas em oiro. As variegadas librés dos au- 
licos e ministros enfileiravam-se processionalmente 
depôs os coches do filho de D. João iv. Ia grande 
movimento e alvoroço nos mosteiros. Serpejavam 
innoveladas as multidões que desciam da cidade alta 
para o escampado do Rocio. O tanger dos sinos era 
de morte ; mas o dia era de festa, festa de egreja 
triumphante, festa d'um auto da fé. 

D. Pedro 11 e seus filhos apearam no alpendre 
do templo de S. Domingos ; e em meio de filas de 
fidalgos, de frades, de desembargadores, caminha- 
ram mesuradamente por entre as naves, até se as- 
sentarem na sua alterosa tribuna, a tudo sobrancei- 



^6 O olho de vidro 

ra, salvo á tribuna dos inquisidores, que era a pri- 
maz n'aquelle espectáculo satânico da piedade. 

Para que tudo fosse egrégio, até o pregador no 
auto da fé de 1706 era um dos mais doutos e fami- 
gerados interpretes dos evangelhos, sobre ser um 
dos mais abalisados escriptores de seu tempo. Nem 
mais nem menos que o reverendissimo padre mes- 
tre, geral da congregação de S. João Evangelista, 
chronista-mór de sua ordem, qualificador da inqui- 
sição, examinador das ordens militares, e, para em 
breve o dizer, sacerdote de tantas partes que, nem 
solicitado por D. Pedro 11, aceitara o bispado de 
Macau. Já sabe o leitor curioso que se trata do pa- 
dre Francisco de Santa Maria, author do Ceu aberto 
na terra, da Águia do Empireo, da Saphjra vene- 
ziana e Jacintho portugue^, do Anno histórico, de 
muitos volumes de sermões, todos esplendidos, to- 
dos laureados, todos christianissimos ; mas nenhum 
tão esplendido, tão laureado, tão christão, como 
este que sua reverendíssima vae hoje pregar no 
auto da fé, em presença de Suas Magestades e Al- 
tezas. Este episodio da festa explica as tumultuosas 
enchurradas do povo, que confluem da cidade alta 
á praça do Rocio: aquillo é gente que, a um tempo, 
fareja com delicias o fartum dos corpos que vão ser 
queimados, e aponta as orelhas pias para não dei- 
xar perder minima palavra da ungida oração do pa- 
dre Francisco. 

A procissão dos condemnados é longa. São mais 
de cincoenta, homens e mulheres, os que vão pade- 
cer ou galés, ou desterro, ou prisão perpetua, ou 
garrote e fogueira, ou a fogueira em vida. D'estes 



o olho de vidro 47 

últimos ha cinco, tres homens e duas mulheres, re- 
laxados em carne, como rezam as sentenças. 

Dois homens e as duas mulheres dão visos de já 
levarem obliterada a memoria da vida que deixam. 
Vão amparados nos braços dos ofi&ciaes do santo 
officio, agonisando a espaços anciãs soluçantes que 
lhes ressumbram á fronte um suor glacial. Entre 
elles, porém, caminha firme, direito, altivo, com a 
sua tocha de cera verde na mão, e a samarra e a 
carocha pintalgadas de demónios e fogueiras, um 
moço de vinte e oito annos, gentil de sua pessoa, 
sem embargo de lividez cadaverosa de dois annos 
de cárcere. É Heitor Dias da Paz. 

O promotor da inquisição subiu á sua tribuna. 
Ao fim de quatro horas de leitura de cincoenta e 
tantas sentenças, indigitou o hebreu de Villa-FIôr. 
Dois esbirros com o alcaide do santo officio ladea- 
ram o moço, e conduziram-n'o a ajoelhar-se em frente 
da mesa sobposta á tribuna. 

E o promotor leu o seguinte : 

cAccordam os inquisidores, ordinário e deputa- 
dos da santa inquisição ^ que, vistos estes autos 
culpas, confissões e declarações de Heitor Dias da 
Paz, christão novo, estudante de medecina, filho de 
Francisco Moraes Taveira, mercador, natural de 
Villa-Flôr, reu preso que presente está, porque se 
mostra que sendo christão baptisado, e como tal 
obrigado a ter e crer tudo o que tem, crê, e ensina 



1 O leitor dispensa que se lhe dê fielmente traslado das 
maiúsculas e da orthographia. 



4^ O olho de vidro 

a santa madre egreja de Roma, elle o fez pelo con- 
trario vivendo apartado da nossa fé catholica, tendo 
crença na lei de Moisés, e fazendo em observância 
da dita lei jejuns judaicos, estando nos dias d'elles 
sem comer nem beber, senão á noite depois de sair 
a estrella, ceando então coisas que não eram de 
carne, e deixando de comer a de porco, lebre, coe- 
lho, gordura e peixe sem escama, e guardando os 
sabbados de trabalho, vestindo n'elles camizas la- 
vadas, e os melhores vestidos, começando a guarda 
d'elles da sexta feira á tarde. 

«Pelas quaes culpas, sendo o reu preso nos cár- 
ceres do santo officio, e com caridade admoestado 
as quizesse confessar para descargo de sua cons- 
ciência e bom despacho da sua causa, disse que o 
que tinha que dizer e declarar (sem o ter por culpa, 
antes por bom e necessário á sua salvação) era crer 
firmemente em Adonai, Deus de Abraham, Isac e 
Jacob, assim e da maneira que o manda a lei de 
Moisés. 

«E vendo-se na mesa do santo officio a cega e 
obstinada determinação do reu, lhe foi dito que 
considerasse bem a resolução que tomava em se 
não querer apartar da crença da lei que seguia, e 
como ia mal encaminhado em querer persistir na 
lei de Moisés, porque já n'ella não havia nem po- 
dia haver salvação, por ser acabada pela vinda de 
Ghristo, Jesus, senhor nosso e verdadeiro. E foi de 
novo admoestado tornasse sobre si; e, conhecendo 
seus erros, se apartasse d'elles, e se convertesse á 
fé catholica que tem, crê e ensina a santa madre 
egreja de Roma, cujo filho elle era e professara no 



o olho de vidro 4g 

baptismo, e confessasse inteiramente suas culpas, 
pois isso era o que lhe convinha para salvação de 
sua alma, e para se poder usar com elle da mise- 
ricórdia que a santa egreja costuma conceder aos 
bons e verdadeiros confitentes. 

«E por tornar a dizer e aifirmar com animo en- 
durecido e obstinado, não só n*aquella sessão, mas 
em outras muitas que com elle se tiveram, afim de 
sua reducção, que não se queria apartar da crença 
da lei de Moisés, que seguia, antes estava prompto 
para dar a vida por ella: 

«Veiu o promotor fiscal do santo officio com li- 
bello criminal e acciisatorio contra elle, que lhe foi 
recebido ; e se lhe disse que pois perseverava ainda 
na crença de seus erros com obstinação e contumá- 
cia, estivesse com seu procurador e lhe desse conta 
do estado de sua causa, e lhe pedisse o aconselhasse 
no que mais lhe convinha, e por elle respondesse 
ao libello da justiça, para que, guardados os ter- 
mos de direito, se podesse continuar sua causa. 

«Estando com o dito procurador, contestou o li- 
bello pela matéria de suas declarações, e não quiz 
usar de defesa, pelo que foi lançado da com que 
podia vir, e ratificadas as testemunhas da justiça, 
se lhe fez publicação de seus depoimentos, con- 
forme ao estylo do santo officio, a que não veiu com 
contraditas, pelo que foi lançado d'ellas. E estando 
outra vez com seu procurador para lhe formar os 
interrogatórios que quizesse, para serem repergun- 
tadas as testemunhas que tinha contra si não veiu 
com ellas, dizendo que era desnecessária diligencia, 
pois elle estava declarado e afirmativo profi tente 



5o O olho de vidro 

da lei de Moisés ; e, como a não negava, não ha- 
via para que impugnar os depoimentos das teste- 
munhas. E n'este acto escreveu um papel que de- 
clarou ser o assento que tomava em sua causa, e 
começava pelas palavras seguintes : — ^erditio tua, 
Israel, tantumodo in me auxilium tuum, inquit Do- 
minus, 

«E logo continuava dizendo que elle reu não só 
não deixava a crença da lei de Moisés ; mas se de- 
clarava crente e professor d'ella pelo theor dos ter- 
mos dos autos, e queria ficar em juizo com a crença 
da lei de Moisés, na forma seguinte, declarando : 
Que cria em um só Deus verdadeiro, e que este 
era o de Israel, o Deus dos patriarchas e prophe- 
tas, que fez o céo e a terra, e fez pacto com Abra- 
hão, e deu lei a Moisés, e poz por primeiro pre- 
ceito d'ella: Non habebis altos Deos preter me. E, 
como tal, tinha por damnada crença o christianis- 
mo, e por tal a excluia^ abjurava e renunciava, e 
ainda qualquer signal e caracter d'ella. E assim elle 
reu, sem mais processo, queria ser julgado por apar- 
tado da fé e por passado á crença da lei de Moisés, 
mostrando que a differença que havia entre uma e 
outra coisa era adorarem os judeus somente a Deus 
verdadeiro, e adorarem os catholicos o demónio ; 
dizendo também e accrescentando ás ditas declara- 
ções algumas subtilezas e subterfúgios cavilosos, 
com os quaes se colhia ser o reu verdadeiro judeu 
e professor da lei de Moisés. 

«E sendo o reu chamado á mesa do santo officio, 
e n'ella perguntado se o dito papel em que se con- 
tinham as ditas declarações era por elle escripto e 



o olho de vidro 5i 

assignado, e, se o que n'elle se continha era o que 
elle reu entendia e cria, e por elle queria se esti- 
vesse em juizo : respondeu que sim, e por aquellas 
declarações queria ser julgado ; e sendo, advertido 
que fizesse genuflexão, e reverencia á imagem de 
Jesus Christo crucificado, que se lhe mostrou, e o 
inquisidor que o processava repetidas vezes lhe 
apontou, nunca o reu quiz ajoelhar nem olhar para 
a sagrada imagem, mostrando grande rebeldia e 
dureza de animo ; e sendo de outras vezes mandado 
jurar pelos Santos Evangelhos nunca o quiz fazer, 
nem assignou mais papel algum onde visse escri- 
ptas as palavras santa inquisição, 

«E pelo reu foi dito que não queria mais procu- 
rador nem mais interrogatórios ; por serem desne- 
cessárias mais diligencias, visto que elle já de si 
dissera ainda mais do que as testemunhas contra 
si tinham deposto. 

«E continuando-se o processo da sua causa, se 
procurou em todo o discurso d'ella mostrar ao reu 
o caminho da sua salvação e engano dos seus erros, 
persuadindo-o á obrigação que tinha pelo baptismo 
a ter e crer na fé catholica, captivando o entendi- 
mento em obsequio da mesma fé, e dar credito 
nas matérias de consciência e religião ás pessoas 
que lhe foram dadas para o encaminharem ; porque 
ainda que elle reu tinha algumas letras, não havia 
professado as divinas, e como tal não podia expli- 
car as escripturas sagradas, nem entendel-as como 
entendiam os religiosos letrados com quem havia 
estado, fiando elle mais do seu próprio entendi- 
mento que dos outros, sendo elle n'esta matéria 



52 o olho de vidro 

ignorante e os ditos religiosos letrados, de quem 
se havia de haver por convencido, pois não tinha 
fundamento algum para permanecer na crença da 
lei de Moisés, que seguia, e por tornar a dizer que 
se reportava ás protestações de sua crença con- 
theudas nos papeis que havia escripto. * 

«E lhe foi dito que ainda estava em tempo de 
melhorar sua causa, se sem embargo da obstinação 
de que até alli tinha usado, desistisse d'ella, e, ar- 
rependido de seus erros, os confessasse com taes 
mostras e signaes de arrependimento que se po- 
desse entender que elle reu, de puro e verdadeiro 
coração, se reduzia á nossa santa fé catholica, de 
que tão cega e obstinadamente vivia apartado, para 
se poder usar com elle da misericórdia que a santa 
madre egreja costuma conceder aos bons e verda- 
deiros confitentes ; que de contrario se seguia infal- 
livelmente o risco de ver sua pessoa no mais peri- 
goso e miserável estado que se podia imaginar, e o 
que mais era para sentir, a certeza de condemnar 
sua alma ás irremissiveis e eternas pennas do in- 
ferno. 

tE pelo reu foi dito que das sessões, que lhe fo- 
ram feitas na inquisição e dos conselhos que lhe 
deram as pessoas que por ordem da mesma inqui- 
sição haviam estado com elle reu, afim de o redu- 
zirem á crença dos christãos, tinha entendido o pe- 
rigoso estado de sua causa, e o risco a que estava 



* N'este período asfixiante é menos admirável a profundeza 
da doutrina que o fôlego pulmonar do leitor da sentença ! 



o olho de vidro 53 

«xposta sua vida ; porém que, sem embargo da 
perda d'esta, não podia largar a crença que seguia, 
emquanto lhe não propunham razões mais conclu- 
dentes para se persuadir e apartar-se da lei de 
Moisés. 

«E visto como o reu se não quiz haver por con- 
vencido de seus erros, havendo-se dado solução 
verdadeira ás duvidas que propunha, sendo por tão 
repetidas vezes admoestado na mesa do santo offi- 
cio com summa caridade, paciência e brandura ; e, 
sendo visto seu processo na mesa do santo ofl&cio, 
se assentou que o reu pela prova da justiça e sua 
mesma confissão e declaração estava convencido no 
crime de heresia e apostasia, e como herege após- 
tata de nossa santa fé catholica convicto, confesso 
afirmativo e proíitente da lei de Moisés, pertinaz e 
impenitente foi julgado e pronunciado, e finalmente 
citado para ouvir sua sentença, pela qual estava 
relaxado á justiça secular. O que tudo visto e bem 
examinado: 

aChrtsti Jesu nomine invocato. Julgam, pronun- 
ciam e declaram o reu Heitor Dias da Paz por convi- 
cto, confesso variante, e affirmativo profitente da lei 
de Moisés, pertinaz e impenitente, e que incorreu 
em sentença de excommunhão maior, em confisca- 
ção dos seus bens para o fisco e camará real, e nas 
mais penas em direito contra similhantes estabele- 
cidas, e como herege apóstata de nossa santa fé ca- 
tholica, convicto, confesso affirmativo, publico pro- 
fitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente o 
condemnam e relaxam á justiça secular, a quem pe- 
dem com muita instancia se haja com elle benigna 



54 O olho de vidro 

e piedosamente, e não proceda a pena de morte e 
effusão de sangue.» 

Heitor Dias da Paz, lida aquella ultima clausula 
da sentença, fitou penetrantemente o semblante do 
promotor e riu-se. Os esbirros mandaram-no levan- 
tar-se, e beijar um dos doze missaes que decora- 
vam a ampla mesa sotoposta ao estandarte de S» 
Domingos. O hebreu levantou a fronte com arro- 
gante desprezo, e disse em voz que se fez ouvir na 
tribuna real : 

— Não quero ! 

Fez-se um borborinho de piedosa ira na egreja. 
Esta agitação foi de súbito applacada pelo appare- 
cimento de fr. Francisco de Santa Maria no púlpito. 

Reinava já sagrado silencio, quando o geral dos 
loyos, e venerado author do Anno histórico^ trove- 
jou estas palavras do texto : De maio ad malum 
eggressi SU71Í, et me non cognoverunt, dicit Dominus K 



' Saíram de um mal para ouiro mal, e não me conhecei am> 
diz o Senhor. Jerem.^ cap. g. 



A piedosa eloquência do frade 



o leitor, que veio tarde a este mundo para poder 
gosar o espectáculo de um auto da fé, pôde ser 
que não faça cabal juizo da peça chamada o dis- 
curso da festa, e entenda que vem aqui opportuno 
o ensejo de se lhe dar alguma noticia do sermão 
de 1706, por ser elle do ascético e sapientissimo 
auctor da Águia do Empyreo, Pôde ser que ainda 
a muitos curiosos d'estas christãs leituras o sermão 
de fr. Francisco de Santa Maria seja desconhecido, 
por que é já raríssimo. A meu ver, a maior parte 
da edição arrebataram-n'a da terra os anjos, como 
coisa do céo ! Dos exemplares que escaparam tenho 
eu um, que é a minha vaidade de bibliomano e a 
minha edificação de devoto. 

O pregador, no exórdio, prop6e-se demonstrar 
três pontos : primeiro, que o Messias veio ; segundo, 
que o Messias é homem e juntamente Deus ; ter- 



56 O olho de vidro 

ceiro, que o Messias, homem e Deus, é Jesus de 
Nazareth, crucificado por aquelles, ou pelos antepas- 
sados dos judeus que estão presentes. Depois do 
que, implora a intercessão da sacratíssima Virgem, 
e começa. 

Eis-aqui um lanço que nos move a favor do geral 
da congregação dos Evangelistas: 

«Comvosco fallo, ó infelizes filhos de Israel, e 
«tomo para testemunha a Deus todo poderoso, que 
«não é o meu intento insultar- vos, ou aífrontar-vos 
«em coisa alguma, nem tenho nem levo outro fim 
«n'esta acção, mais que a maior gloria de Deus, a 
«defensa da verdade, o triumpho da fé, o remédio 
«da vossa cegueira, a salvação da vossa alma; e, se 
«acaso com a força do dizer, proferir alguma pala- 
«vra que vos offenda, desde aqui vos peço perdão 
«d'ella pelas entranhas da misericórdia do verda- 
«deiro e altíssimo Deus.» 

Heitor Dias da Paz levantou de sobre as pinturas 
diabólicas do san-benito os olhos serenos ao rosto 
do padre Francisco de Santa Maria. Esteve-se quedo 
alguns segundos n'aquella contemplação, e sorriu-se, 
a tempo que o orador, compungido em fervores de 
caridade, balbuciava aquellas expressões, que o lei- 
tor pio leu commovido. 

Varias pessoas honestas, que viram o sorriso do 
hebreu, disseram umas ás outras : 

— Veremos á tardinha se o marrano se ri na fo- 
gueira . . . 

O orador, no emtanto, ia proseguindo na demons- 
tração dos seus três pontos, que foi completíssima, 
sem deixar brecha á mais especiosa contestação. 



o oiho de vidro Sj 

Heitor, a cada conclusão triumphante do padre, 
sorria ; e, por pouco não desfechava uma casquinada 
provavelmente sandia, quando o orador, repulsando 
a pecha de idolatras com que os hebreus malsinam 
os catholicos, argumentou d'esta sorte: cE como é 
«possivel que, sendo nós idolatras ha tantos secu- 
€los, e sendo vós ha tantos séculos cultores do ver- 
«dadeiro Deus; sobre vós ha tantos séculos que 
«chovam os castigos, e sobre nós os favores? Sobre 
«vós os castigos! Bem o vedes, pois vos vedes ha 
«tantos séculos sem pátria, sem honra, sem rei, 
«sem patriarchas, sem prophetas, sem capitães, sem 
«juizes, sem sacerdotes, sem templo, sem altar, sem 
«sacrifício, sem liberdade. Nós os christaos tudo 
«isto temos. Pois que ? favorece Deus tanto aos ido- 
(ílatras, e castiga tão rigorosamente aos fieis?» 

O impulso de riso do judeu, a meu ver, proce- 
deu da respeitável ignorância do padre quanto ás 
regalias de que os sectários de Mafoma se estavam 
saboreando em porção do mundo sublunar muito 
mais larga e comprida que a porção alumiada pelo 
christianismo. Quereria, talvez, o israelita, sem em- 
bargo de se lhe estarem alcatroando as achas da 
fogueira, perguntar ao loyo se os mahometanos, 
apezar da bruteza e crassa estupidez de sua fé, eram 
menos felizes terrealmente fallando que os nazare 
nos. Ora, como o goso de questionar lhe seria 
amordaçado, se elle abrisse a bocca indignada, o 
judeu desafogou-se n'aquelle rir parvamente heré- 
tico. O caso, porém, não fez levemente titubar o 
impassível pregador. 

Ia discorrendo o padre Francisco pelas provas 



58 O olho de vidro 

dos milagres; e veio ao ponto de asseverar que 
Deus não obrara milagre algum em confirmação da 
lei de Moisés. D'isto a prova mais insinuante que 
o douto pregador desfechou dos lábios inspirados 
está no seguinte argumento: 

«Todos, ou quasi todos os annos vão muitos de 
«vós ao patibulo, e sendo diante dos nossos olhos 
tpasto á voracidade do fogo, nunca se viu em algum 
«de vós algum prodígio. Que é isto? Assim deixa 
«Deus a verdade escurecida e humilhada?- . . Agora 
«já o fogo vos não tem respeito? Já a chamma la- 
« vra em vós como a madeira secca ?> 

Heitor Dias não sorriu então: caiu-Ihe mortal- 
mente angustiado o rosto para sobre o peito. As 
palavras do sacerdote do Christo levaram-lhe ás 
carnes o calefrio horrendo das dores que o aguar- 
davam para o fim d'aquelle dia: como que sentiu 
as linguas de fogo a tocarem lhe o peito, e a suffo- 
cação da fumarada da fogueira. 

Demonstrados os três pontos da oração com 
quanta lucidez se esperava de tão conspicuo sujeito, 
o author do Céo aberto na terra apostrophou pri- 
meiro os confessos, depois os relapsos, e por der- 
radeiro o único profitente que era Heitor. 

Aos confessos dava os emboras, e pedia-lhes pe- 
las entranhas de Nosso Senhor que perseverassem. 

Aos relapsos disse : «E* verdade que já não po- 
«deis livrar a vida temporal; mas é certo que po- 
«deis assegurar a eterna. . . Morrer é natural: mor- 
«rer affrontosa e violentamente é desgraça; mas 
«sobre tudo isto, salvar a alma, é a maior ventura. 
«Oh, que felizes sois, digo outra vez, se sabeis 



o olho de vidro 39 

«emendar com os acertos da morte os desconcer- 
« tos da vida, e se vos dispondes com verdadeira fé 
«e verdadeira contricção para a ultima hora!» 

Que bom homem aquelle ! O garrote e a fogueira 
eram indispensáveis á caridade e misericórdia do 
Senhor; mas que montava isso? Morrer é nature- 
7^a ; morrer em colchão flácido ou em cama de bra- 
zas vivas é uma e a mesma coisa: é natureza; mas 
o importante alli para o caso já não era o ir-se um 
homem de este mundo ao outro por effeito d*um 
feroz homicidio : a questão era segurar a vida eter- 
nal, e essa estava arranjada, logo que os relapsos, 
á ultima hora, se entendessem com Deus uno e 
trino. 

Em seguida, padre Francisco de Santa Maria poz 
os olhos sobre o confitente Heitor Dias da Paz, e 
exclamou, tanto ou quanto commovido: 

«E vós, que n'este tremendo cadafalso sois o réo 
do maior delicto, olhae que em vós n'esse infeliz 
estado se verifica com propriedade lastimosa o que 
dizem as palavras do meu thema : De maio ad mu' 
lum egressí sunt. Saireis de seres condemnado no 
juizo dos homens, e entrareis a ser condemnado no 
juizo de Deus. Saireis da morte temporal e entra- 
reis na eterna. Saireis de um fogo que brevemente 
acaba, e entrareis em outro fogo, que para sempre 
dura. Oh filho da minha alma, é possivel que assim 
vos deixeis guiar só da vossa imaginação, e vos 
ateis tão fortemente á vossa teima em um negocio 
de tanta importância ? Tão pouco vae em salvar ou 
condemnar para sempre? Quero crer de vós que 
em qualquer negocio d'esta vida não havíeis de 



6o O olho de vidro 

obrar sem conselho, sem reflexão, sem madureza; 
e em um negocio, em que vae a vida eterna, assim 
vos resolveis, assim vos precipitaes ? Nos pontos da 
medicina (que estudáveis) é sem duvida que havíeis 
de estar pelo que vos diziam vossos mestres. Pois, 
se nos pontos de medicina, vos guiáveis pelo que 
vos diziam os doutores médicos, nos pontos da fé 
porque vos não guiaes pelos doutores theologos, 
que tantas vezes e com tanto zelo e espirito se em- 
penharam em vos reduzir ao caminho da verdade ? 

«Dizei-me de que mestres aprendestes essa lei 
que seguis já tão antiquada e esquecida no mundo ? 
Sem duvida de dois homens ignorantes, que talvez 
nunca abriram a escriptura, e talvez não saibam a 
lingua latina, e muito menos a hebrea. Não o tomeis 
por injuria — ajuntou o orador, certamente impro- 
visando, como visse um gesto de repugnância des- 
denhosa e despeitosa no aspecto do confitente — 
não o tomeis por injuria...; porque, fundado nas 
vossas mesmas escripturas, affirmo que na vossa 
nação falta ha muitos séculos, por justo castigo de 
Deus, o dom da sabedoria, e dominam as trevas da 
ignorância *.» 

Estende-se dififusamente o padre, cathequisando 
o judeu, com a mira posta enj resgatar-lhe a alma ; 
que o corpo esse já não ha eloquência nem perdão 
divino ou humano que possa salval-o do fogo. Fi- 
nalmente, remata a apostrophe n'estas branduras : 



' Desculpe-se á obcecação piedosa do author do Anno his- 
tórico uma bestidade de tanto porte. Foi a maior que se ati- 
rou do púlpito abaixo n'aquelle século. 



o olho de vidro 6i 

«Ora filho do meu coração, converter e, converter e 
ad Dominum Deum tuum, 

«Gonvertei-vos para o vosso Deus, convertei-vos 
para o vosso Senhor, que, abertos os braços, e com 
o coração aberto, vos espera para vos metter n'elle 
como amigo, se do coração vos converteis a elle. 
Dae este gosto ao céo, dae este gosto á terra, dae 
este gosto aos coros angélicos e dae este gosto aos 
espiritos bem aventurados, dae este gosto a todo 
este numerosissimo e luzidissimo auditório, que 
todo deseja com muitas veras a vossa vida e a 
vossa salvação. Na vossa mão tendes a vida e a 
morte, a salvação e a condemnação: vede o que 
escolheis. E, se todavia persistis na vossa teima, e 
na vossa contumácia, da parte de Deus vos digo, 
que dentro em breve tempo apparecereis diante do 
mesmo Deus em juizo, do qual, sem desculpa do 
vosso erro, saireis condemnado para o fogo eterno.» 

E com pouco mais terminou o munumental dis- 
curso, de que ficou muitissimo agradado o senhor 
rei D. Pedro ii, e seus filhos ; e bem assim o emi- 
nentissimo senhor cardeal D. Miguel Angelo Conti, 
arcebispo de Garzo, e núncio apostólico n'estes rei- 
nos, ao qual o padre Francisco dedicou o seu ser- 
mão impresso. 

D. Pedro ii não mais saboreou outro sermão 
idêntico ; porque, três mezes e sete dias depois 
d'aquella explendida ovação da santa egreja, morreu. 

O padre Francisco de Santa Maria, comquanto 
só passado sete annos fosse coroar-se ao capitólio 
dos anjos, como piamente cremos que foi, também 
não voltou a regalar o publico nos autos da fé. 



02 O olho de vidro 

Cheguemo-nos ao assumpto. Os relaxados á jus- 
tiça secular foram conduzidos a uma das salas da 
santa casa, em que estava junta a relação para os 
sentenciar. 

A sentença de Heitor Dias da Paz, e dos outros 
já estava lavrada, embora fingissem lavral-a depois 
de um banal interrogatório. Com ella na mão, per- 
guntou o presidente ao judeu, ajoelhado: * 

— Sois o relaxado Heitor Dias da Paz? 

— Sou. 

— D'onde sois? 

— De VillaFlor. 

— Credes — tornou o presidente — na Santissima 
Trindade, Padre, Filho, Espirito Santo, três pes- 
soas e um só Deus verdadeiro ? 

— Não creio. 

E levantou-se, sem que o presidente Ih'o orde- 
nasse. 

O escrivão, que estivera autoando a sentença, 
ergueu-se e disse ao condemnado : 

— Ajoelhe para ouvir a sentença. 

— Ouvil-a-hei em pé — respondeu Heitor. 

— Leia — disse o presidente ao escrivão. 
O escrivão leu o seguinte : 

« Accordam em relação, etc. Vista a sentença junta 
dos inquisidores, ordinário, e deputados da inquisi- 
ção, e como por ella se mostra o réo preso, Hei- 
tor Dias da Paz ser hereje apóstata da nossa santa 



^ Estes pormenores, corridos na relação com os condem- 
nados, vejam-se em João Martins da Costa. «Estylos mais 
praticados na casa da supplicação» pag. 239 e seg. 



o olho de vidro 63 

fé catholica, convencido no crime de judaismo, e 
por tal relaxado á justiça secular, e sendo pergun- 
tado n'este senado persistir no seu erro, e declarar 
que não cria em nossa santa fé catholica, senão na 
lei de Moisés; o que assim visto, e disposição de 
direito em tal caso, condemnam ao reu que com 
baraço e pregão pelas ruas publicas e costumadas 
seja levado á ribeira doesta cidade, e ahi seja levan- 
tado em um poste alto, e queimado vivo, e feito 
por fogo em pó, de maneira que nunca de seu corpo 
e sepultura possa haver memoria ; e o condemnam 
outrosim em perdimento de seus bens para o fisco 
« camará real, posto que ascendentes ou descen- 
dentes tenha, os quaes declaram por incapazes, in- 
hábeis, e infames na forma de direito e ordenação. 
E pague as custas d'estes autos. Lirboa, 12 de se- 
tembro de 1706.» 

A procissão dos condemnados saiu do pateo da 
santa casa, caminho da Ribeira. As duas judias re- 
laxadas em carne, dizia-se que já iam mortas. Os 
dois hebreus, que tinham assistido ás leituras de 
suas sentenças em anciados gritos, iam desacorda- 
dos nos braços dos quadrilheiros do santo ofi&cio. 
Heitor caminhava sem amparo, placidamente, olhan- 
do a um lado e ao outro as damas que exornavam 
as janellas do transito. 

Ao embocar o préstito á rua da Padaria, um an- 
cião mal coberto de andrajos, com trejeitos de louco 
eufurecido, rompeu a mó compacta do povo, e os 
soldados que ladeavam os condemnados. 

Heitor Dias reparou n'aquelle velho que os ar- 
cabuzeiros afastavam a repellóes. Fitou-o com hor- 



04 O olho de vidro 

rivel estremecimento ; ia a proferir uma palavra e 
soffucou-a. Debalde. O grito do coração já tinha 
ecoado no seio do ancião, que exclamou : 

— Adeus, meu filho I Adeus, meu filho, eu vou 
antes de ti avisar tua mãe que por instantes esta- 
rás comnosco no seio de Abrahao ! 

E, ao preferir a ultima palavra, sorveu de um vi- 
dro um trago de peçonha, ao qual se seguiram me- 
donhas convulsões. 

— Abençoada seja a sua coragem, meu pae ! — 
exclamou Heitor — Até logo, até á eternidade í 

As agonias do velho terminaram dentro em quinze 
minutos. As do filho principiavam pouco depois, e 
não foram mais longas. Antes de sentir o queimar 
das lavaredas nas entranhas, expirara afogado no 
fumo. 

E o sol d'aquelle dia era ainda formoso ao intar- 
decer. As auras do mar bafevajam tépidas. El-rei 
passeava nas barandas do paço da Ribeira, aspi- 
rando o aroma dos laranjaes; e os frades de S. Do- 
mingos resavam vésperas. 



VI 



Braz Lniz 



N'este tempo, Braz Luiz, o collegial de S. Pau- 
lo, ia nos quatorze annos. 

A noticia da desastrosa morte dos seus bemfeito- 
res, revelada pelos condiscípulos, pungiu-o, tirou- 
Ihe d'alma sinceras lagrimas ; porém, n'aquellas eda- 
des a sensibilidade é para pouco ; as saudades das 
pessoas queridas que morreram não se prendem á 
previsão angustiosa das desgraças porvindouras. O 
filho de António de Sá Mourão estava de todo es- 
quecido do doutor Abreu, e não longe de esque- 
cer-se de Heitor Dias da Paz. 

Os mestres do collegio, cuja dilecção pelo enge- 
nho do moço se manifestava no affago com que o 
divertiam de pensar no hebreu queimado e no ou- 
tro que dera a si desesperada morte, receosos de 
que o santo officio fosse ainda contender com o es- 
tudante por suppor que elle fosse irmão de Heitor, 
zelosamente informaram os inquisidores dos piedo- 



66 O olho de vidro 

SOS sentimentos de Braz Luiz, e da docilidade e de- 
voção com que elle se entregava aos exercicios es- 
pirituaes. O santo oííicio, inteirado d'isto, deixou em 
paz e por conta da religiosidade dos paulistas o 
menino. 

Como elle se alimentava e educava a expensas 
do collegio, o parecer dos mestres era encaminhal-o 
para frade paulistano. Este intento, quando o moço 
tinha quinze annos, foi contraditado pela companhia 
de Jesus, que enviara delegados a recensear nas 
universidades e collegios de Évora e Coimbra es- 
tudantes esperançosos, garfos de boa seiva, que se 
fossem enxertando nos troncos envelhecidos, para 
que alguma hora não soflresse quebra o predomi- 
nio intellectual dos filhos de Santo Ignacio. 

Os paulistanos offenderam-se do sequestro que 
os jesuitas arbitrariamente fizeram nos seus mais 
grados alumnos ; e, por vindicta, entraram a des- 
persuadir o moço de aceitar a roupeta. Facilmente 
o moveram á repugnância da vida sacerdotal, e as- 
sim se privaram também de o conquistarem para 
si. A companhia de Jesus cathequisava, mas não 
violentava. Tamsómente as vocações libérrimas e 
muito espontâneas lhe serviam. Logo pois que Braz 
Luiz manifestou indisposição para a vida sacerdo- 
tal, abriram mão d'elle os jesuitas, ofterecendo-Ihe, 
se necessários fossem, recursos com que podesse 
seguir a carreira para onde pendessem os seus ta- 
lentos. Quer generosidade, quer astúcia com que 
os padres ardilosamente grangeavam a estima quasi 
universal, o certo é que Braz Luiz teria a protec- 
ção d'elles, se não tivesse a dos paulistas. 



o olho de vidro ôy 

Deram-lhe a opção de modo de vida. Braz esco- 
lheu a medicina. 

Aos quinze annos matriculou-se no primeiro do 
curso depois de ter estudado artes, e logo deu de 
si tão lisongeira conta, que se estremou entre os con- 
discipulos, ganhando as distincções das escolas, a 
estima dos mestres, e especialmente de D. Manuel 
dos Reis e Sousa, a quem o discipulo nos seus fu- 
turos escriptos se mostrará agradecido. 

Ao correr do terceiro anno, a Índole do acadé- 
mico passou por inesperada revolução. Sem faltar 
ás obrigações escolares, deu-se á tunantaria dos 
estudantes mal-comportados. Fez-se armador no- 
cturno, bulhento, femieiro e pimpão. Os paulistas 
ameaçaram-no de o deixarem entregue aos seus 
desatinos. Braz Luiz respondia ás ameaças dando 
óptimas lições nas aulas, e ganhando os louvores 
dos lentes, sem desistir de tomar o primeiro posto 
nas algazarras e assuadas nocturnas. 

Em uma d'essas escaramuças á cidade baixa, tra- 
vou-se uma refesta ensanguentada entre a gente miú- 
da de Coimbra e os estudantes. Braz, depois de 
muitas proezas, caiu ferido de uma choupada, que 
lhe vasou o olho direito. Alguns condiscípulos leva- 
ram-no em braços para sua casa, e lhe assistiram 
affectuosamente á cura. Salvaram-no da morte : mas 
não poderam salvar-lhe o olho. 

Depois de dois mezes de cama, o estudante re- 
cebeu a má nova de ter perdido o amparo dos fra- 
des. Accudiram logo os condiscípulos fintando-se 
para supprirem a esmola do collegio. Braz prose- 
guiu na formatura, e não mais foi visto nas sorti- 



68 O olho de vidro 

das bellicosas, como quem já não tinha mais que 
um olho para sacrificar. Os paulistanos, contentes 
da reforma do seu protegido, voltaram a soccor- 
rel-o; porém, o pundonoroso académico, reunindo 
os seus condiscipulos favorecedores, expoz a relu- 
ctancia com que aceitaria a esmola dos frades, e a 
satisfação com que continuaria a recebel-a de estu- 
dantes. Applaudiram-lhe o brio, e animaram-no a 
regeitar o pão vilipendioso dos paulistas. 

Em 1714, tomou Braz Luiz d' Abreu gráo de li- 
cenciado em medicina. A razão que elle teve para 
assignar-se Abreu funda n'uma casualidade de que 
resultou enganar-sç Barbosa na sua Bihliotheca Lu- 
sitana, dando Braz Luiz como filho de Francisco 
Luiz d' Abreu e Francisca Rodrigues d' Oliveira. Foi 
o caso, que folheando elle o abcedario por onde co- 
meçara a soletrar, muito na primeira puerícia, em 
companhia do seu primeiro protector, encontrou o 
seu nome assim posto no alto da primeira pagina 
do alphabeto : Bra^ Lui\ de Abreu, Assim o escre- 
vera a esposa do doutor, n'uma d'aquellas horas de 
ternura, em que ella encarava no menino como em 
filho propriamente seu. 

Ahi está onde ao medico se deparou um apelli- 
do, que elle não sabia d'onde lhe havia de vir, por 
mais que discorresse sobre o modo de rastrear seu 
nascimento. N'este investigavel mysterio o que a si 
mais provável se figurava era que seu pae devia de 
ser um homem appellidado Abreu; mas como es- 
quadrinhar-lhe a naturalidade, as aventuras da vida 
ou da morte? Em Coimbra não havia para que in- 
dagal-o; porque elle não tinha sequer vaga lembran- 



o olho de vidro 6g 

ca de ter estado em Coimbra nos primeiros annos. 
Todas as suas lembranças esboçavam-se dos sete 
annos para áquem. Terra que não fosse Coimbra 
só escassamente se recordava de Villa Flor ; e ima- 
gens de pessoas, duas somente lhe viviam meio 
delidas na lembrança: eram Francisco de Moraes 
e Heitor Dias da Paz. 

Um condiscipulo de Mirandella encarregou-se de 
averiguar-lhe algumas noticias de seu nascimento em 
Villa Flor. As tradições encontradas alli eram que 
uma creança apparecêra em casa do hebreu Moraes, 
ao tempo que seu filho voltou da Hollanda. Paren- 
tes ainda vivos d'aquelles israelitas não sabiam di- 
zer nada a tal respeito. O que o condiscipulo infor- 
mador accrescentou foi que dos muitos haveres do 
hebreu suicidado não havia palmo de terra que a 
inquisição não confiscasse. 

Habilitado para exercitar a medicina, comquanto 
lhe sobrassem créditos de grande estudante, falta- 
vam-lhe doentes. A' mingua de recursos, pensou em 
estabelecer-se n'alguma terra desprovida de médi- 
cos. Um seu contemporâneo da faculdade jurídi- 
ca convidou- o para Vizeu, onde o encontrámos cu- 
rando com muita voga e felicidade em 1715 até 
1718*. 

No fim d'este anno, como a sua fama o atraia e 
a cobiça o impulsava para terras de mais gloria e 
lucros, passou a residir em Lisboa. Aqui e n'este 



* Isto consta do livro que Braz Luiz d' Abreu publicou, oito 
annos depois, intitulado Portugal medico. 



^o o olho de vidro 

mesmo anno começou elle a olhar tristemente para 
a deformidade que lhe deixara no rosto a choupada, 
e achou-se não só feio, se não repugnante a olhos 
de damas, que se engulhavam de lhe verem a orbita 
direita vasia e coberta pela pálpebra amortecida. 

Cogitou o medico em arranjar um olho artificial, 
com que encher a orbita nauseenta e dar contracti- 
bilidade apparente á pálpebra. Investigou a sciencia 
e encontrou que os gregos e egypcios fabricavam 
olhos artificiaes, formando-os de uma casquinha me- 
tálica, pintada ^ou esmaltada, similhante a uma me- 
tade de ovo pequeno, dividido longitudinalmente. 
Este primitivo e pouco engenhoso olho não agrada- 
va ao nosso joven medico. Indagou no estrangeiro, 
e de Hollanda o informaram que estava em Amster- 
dam um hebreu inventor d'olhos artificiaes de es- 
malte, com a qual matéria substituirá vantajosamente 
os metálicos. Entendeu se Braz Luiz de Abreu com 
o inventor hollandez, e ajustou na orbita um olho, 
menos mal imitado, mediante o qual a pálpebra vol- 
tou á sua elasticidade. 

Este olho de esmalte era immovel : bastava en- 
carar na cara do medico para logo se conhecer que 
a orbita direita estava envidraçada. D'ahi seguiu-se 
chamarem-lhe o doutor Olho de Vidro, alcunha que 
lhe ficou até á morte, e longos annos depois serviu 
de celebrar-lhe a memoria, a magnitude dos talen- 
tos médicos e os seus não menores infortúnios. 

Como quer que fosse, a physionomia do doutor 
Braz Luiz, não obstante a pouca illusão que emba- 
hia o falso olho, melhorou bastantemente. 

O restante do carão, como diziam os coevos d'el- 



o olho de vidro 7/ 

le, era senão gentií, mui symetricamente ageitado. 
Vestia com apontado primor, e cuidava com esme- 
ro das melenas negras e lustrosas, que não polvi- 
lhava. A razão d*este proceder, tão inverso dos cos- 
tumes do seu tempo, é elle quem propriamente a 
escreve d'este modo : « . . . Emquanto aos polvilhos, 
tão longe estão de parecerem ornato na cabeça do 
medico, que antes são presagios lethaes da vida do 
doente. Porque se a egreja com pós na cabeça nos 
adverte da morte que vem, como o medico com pós 
no cabello nos ha de recuperar a vida que se vae ? 
Eu, quanto a mim, antes creio que os pós são si- 
gnificativos da morte, emquanto a egreja nol-o diz, 
do que hierogliphicos de saúde respeitando ao me- 
dico que os traz. Os verdadeiros ministros d'Apol- 
lo só usam de polvilhos cephalicos na região ani- 
mal; de polvilhos cordeaes na região vital; e de 
polvilhos estomachicos na região natural. Isto é uso 
modesto ; o mais, estava para dizer que era abuso 
ridículo.» * 

Não curemos de ponderar a justiça das razões 
que o doutor allega contra os polvilhos. Imaginan- 
do que os col legas de Braz Luiz se riram muito 
d'ellas, faço justiça aos contemporâneos do auctor 
do Portugal medico. 

Também desadorava os perfumes o nosso dou- 
tor, n'aquelle tempo em que o paralta de bom cu- 
nho recendia como caçoula de camarim de odalisca. 
Outra razão efficientissima do seu enojo de perfu- 



'Porlugal Medico, pag. ySo n." 63. 



7^ O olho de vidro 

mes : tSou de parecer que (o medico) evite os chei- 
ros, e que se negue a todo género de perfumes, por 
que ainda que Hyppocrates no seu tempo permit- 
tía os que não eram suspeitos aos achaques, com- 
tudo n'este século mais escrupuloso por mais pre- 
vertido, nenhum género de perfumes cheira bem. . . 
Deixemos esses esmeros para os que vivem á mo- 
da, e não excedamos a moda, que nem porque um 
medico cheira bem, cura melhor.» * 

Em adornos capillares acceitava o doutor mera- 
mente os naturaes : usava simplesmente a sua opu- 
lenta grenha, nua de artifícios e empréstimos ; por- 
que, dizia elle : «Seja também modesto o medico 
nos adornos da cabeça, tão introduzidos n'este mi- 
serável século, que não ha já encontrar solicitador 
sem cabelleira nem belleguim sem perruca.» E 
acrescentava: «Quantos desprezam e cortam hoje 
o honesto cabello de christãos e collocam sobre a 
cabeça as melenas de um herege U ^ 

O vivo desejo que Braz Luiz de Abreu alimen- 
tava de reformar as demasias luxuosas e derisorias 
dos médicos, tornou-se em justa indignação, e a in- 
dignação porventura fel-o poeta como ao satyrico 
latino. Um dos mais intelligiveis sonetos que elle 
escreveu em tom apostólico salvou-se do olvidio, 
graças ao acertado cabimento que lhe elle deu n'um 
seu livro de medicina. Resa d'esta sorte : 



1 Idem, pag. 728, n.» 56. 

2 Idem, mesma pag. n,° 57. 



o olho de vidro j3 

Oh medico ! se és medico com eífeito 
Procura mundo * ser, mas não mundano ; 
Que de ApoUo o caracter soberano 
Não anima nos vicios o respeito. 

Bebe o cão, bebe tu ; mas com tal geito 
Que o crocodilo do rumor profano 
Quando vás a beber do Nilo humano 
Não possa devorar teu bom conceito. 

Era teu ornato a modéstia nunca falte. 
Um pouco mais ao grave do que ao lindo ; 
Que assim obra quem douto assim discorre. 

E porque a tua fama mais se exalte, 
Visita a modo de quem vae fugindo. 
Gomo do Nilo o cão, que bebe e corre. ^ 

O desgracioso da musa do Olho de Vidro está 
delatando que o poeta, se não era menos de pedes- 
tre, poetava violentando sua Índole. O natural 
cj'elle era outro. A meu juizo, tanta prudência e 
bom conselho no mais verde da mocidade, argue 
um aliás louvável cuidado de se fazer bemquisto 
aos homens graves do seu tempo. E', de mais d'is' 
so, muito provável que o medico se temesse de que 
os rafeiros do santo officio lhe andassem farejando 
o sangue ; e elle, a contas com a consciência pró- 
pria, duvidava dâ pureza de seus incógnitos pães, 



* Limpo. 

2 Portugal Medico, pag. 724. 



'J4 O olho de vidro 

ao lembrar-se do rito hebraico dos bemfeitores de 
Villa Flor. Se os elle não conhecia, quem lhe asse- 
verava que a inquisição os não conhecesse ? Se lhe 
pedissem a certidão do baptismo, onde iria elle es- 
quadrinhada ? 



VII 



Exemplo de honestidade aos médicos 



Quer tosse sisudeza, quer hypocrisia, Braz Luiz 
de Abreu, que entáo contava vinte e cinco annos, 
assim que o amor lhe abriu o peito com seus má- 
gicos dedos, sacudiu a canga do artificio e mos- 
trou-se homem genuino. Deu elle tento de que os 
seus collegas todos eram familiares do santo offi- 
cio, e todavia amavam a rosto descoberto ; e, nas 
casas onde entravam, contra a prescripçao do so- 
neto, não procediam exactamente 

Como do Nilo o cão, que bebe e corre. 

Ora, como elle, de espaço, fosse vendo que a in- 
quisição vivia despreoccupada d'aquelles cães do 
Tejo que bebiam muito devagar, bandeou-se com 
elles, e atirou o coração ás tempestades dos vinte 
c cinco annos, resalvadas as apparencias. 



'j6 O olho de vidro 

A primeira dama que se quiz senhorear da alma 
do seu medico, era uma fidalga quarentona, ainda 
vistosa, affeita a ser beijada na face por bons galans 
que se ajoelharam diante d'ella até aos trinta an- 
nos, e se purificam da idolatria, desde que as flo- 
res do rosto, desbotadas pelo caio, e os cabellos 
ressequidos pelo ferro se foram despegando d'a- 
quella cabeça rica de formosas tradições. Estava 
literalmente calva. 

D. Claudia da Silveira, logo que se julgou enca- 
rada voluptuariamente pelo olho único do seu me- 
dico, levou a mão ao peito e sentiu-se arder. Desde 
essa hora os achaques eram tantos e tamanhos que 
Braz Luiz escassamente se podia desobrigar de acu- 
dir-Ihe três vezes por dia com agua de Inglaterra, 
com pedra cordeal de Gaspar António, ou com agua 
de lingua de vacca, antidotos de sua predilecção 
contra os estherismos e enchaquecas da senhora 
D. Claudia da Silveira. 

A dama, cada vez mais enfermissa, tornára-se a 
desesperação da medicina gallenica. Dos linimentos 
á chaga interna que lhe cancerava as entranhas, 
um somente dera satisfatório resultado : era a pre- 
sença do medico, o tatear d'elle no pulso arreiado 
de manilhas, o apalpal-a nas costellas sobre e sub- 
jacentes ao coração. No coração nomeadamente é 
que ella dizia ter a morte, o morder e repuchar de 
dentes e garras do que quer que fosse. Resolveu o 
doutor que lhe dessem uma untura anodyna sobre 
a parte magoada. Resistiu a dama, quando viu a 
aia arremangar-se para o acto, e exclamou, repel- 
lindo a criada : 



o olho de vidro yj 

— Não consinto mãos estranhas no meu corpo ! 
Antes a morte ! 

Braz Luiz de Abreu empenhou calorosas razões 
a persuadil-a, cuidando sinceramente que a dama 
soffria dolorosissimas palpitações. Da austeridade 
de medico passou ás branduras de amigo que muito 
lhe devia, porque a paga era mais que pródiga, e 
chegou a pedir-lhe consentimento para ser elle 
quem lhe friccionasse o seio. 

Muito rogada e como incendiada em pudor vir- 
ginal, consentiu D. Claudia, referindo a sua con* 
descendência não tanto ao amor da vida, como ao 
horror da morte assim atribulada. 

O leitor conhece de certo aquella passagem de 
um livro do padre Manuel Bernardes, em que se 
conta o caso de S. Effrem estar com uma das mãos 
untando o peito de uma formosissima mulher, que 
tinha parte de demónio tentador do santo, emquan- 
to assentava a outra mão sobre um brazeiro para 
ir assim com as dores quebrantando os Ímpetos da 
matéria bruta, as fervenças da carne, como n*outro 
caso diz o mesmo padre oratoriano. 

D. Claudia da Silveira verdadeiramente não tinha 
parte de demónio ; porque o medico lhe deu a un- 
tura anodyna com tanta serenidade e quietação de 
corpo e alma, que só isso lhe bastaria a ganhar o 
céo, se a mulher fosse documento para merecel-o 
e argumento para pedil-o. 

Operou o linimento muito devagar, segundo o 
medico ia entendendo da brandura dos ais e alque- 
bramento da enferma. Afinal, cessaram de todo os 
gemidos por um suspirar descançado que parecia 



']8 O olho de vidro 

descair em dormir restaurador das forças extenuadas. 

Braz Luiz de Abreu ficou vaidoso do seu trium- 
pho, e despedíu-se da dama, que lhe acenou de mão 
e cabeça tão levemente como quem a custo o fazia, 
vencida do turpor do somno. 

Assim que elle voltou costas, D. Claudia sentou- se 
na cama, bracejou enraivecida, e despregou a mur- 
ros phreneticos uma cortina adamascada que lhe 
ondeava por sobre o espaldar do leito. 

Accudiu a aia a querer continuar a untura. A fi- 
dalga quiz atirar-lhe á cara com a taça do anodyno, 
e sentiu-se sinceramente febril. 

A aia avisou o fidalgo, cunhado de sua ama, d'a- 
quellas fúrias em que estava a senhora. O fidalgo, 
avesado a taes manhas, respondeu com magnani- 
midade indicativa da probidade austera d'aquella 
familia : 

— Manda-lhe chamar o Olho de Vidro. 

— Mas elle ainda agora saiu, senhor! 

— Não importa: que torne a entrar, que torne 
a sair, que entre de novo, que faça o que ella qui- 
zer, comtanto que eu não ature minha cunhada 
Claudia. 

Assim se fez. 

Braz Luiz acabava de entrar no seu gabinete, 
para escrever no caderno de observações a rápida 
cura das convulsões de coração de D. Claudia com 
unturas de enxúndia de pato e oleo de assucenas, 
quando um lacaio dos Silveiras o chamou a toda a 
pressa para a fidalga. 

O medico praguejou mentalmente contra a sua 
dadivosa doente ; mas foi. 



o olho de vidro 79 

Encontrou-a convulsiva e escarlate, debatendo-se 
n'uma poltrona. Era ainda a dor do coração que 
lhe estava destroçando o peito. Fallou o doutor 
em ventosas sarjadas. A dama expediu in continente 
(sem calemburgo) tres gritos estridulos contra as 
ventosas. 

— Pois não, minha senhora !—accudiu o medico 
— não faremos uso das ventosas, até mesmo por- 
que a convulsão se vae distendendo aos membros, 
e receio que se torne geral. Eu vou receitar ; mas 
requer tempo o preparado do remédio. Senhora 
Anacleta — continuou o doutor voltando-se para a 
criada grave — mande procurar um pato gordo ; or- 
dene que o matem, depennem e limpem das entra- 
nhas ; e depois remetta-se o pato ao boticário com 
a receita que vou escrever *. 

RECiPE. Recheie o pato com salva, mangerona an. 
Manip. j. gomma amoníaco e Bedelio an. une. j. Ga- 
lamo aromático, noz moscada, flor da mesma, e cra- 
vinhos da índia an. une. semiss. o que tudo primeiro 
se pize em almofariz, e se amasse com óleo de mi- 
nhocas, e assim se introduza no ventre do pato, que 
se coserá com linha, se ponha a assar, e o que des- 
tilar se receba em um vaso meio de vinagre, com 
cujo pingo e gordura se unte o coração. 

Abreu. 

Depois, sentando se ao pé da doente algum tanto 
melhorada das convulsões, ajuntou: 

— Se este admirável remédio não produzir o al- 



* A receita é trasladada de pag. jbi do Portugal Medico. 



8o o olho de vidro 

mejado effeito, asseguro a vossa senhoria que em 
casos análogos me tenho dado excellentemente com 
os banhos de azeite puro, e melhor será se antes 
se tiver cozido n'elle uma raposa *. 

— Uma rapoza, doutor ! — exclamou a dama en- 
gulhosa — uma raposa ! Que immunda coisa I . . . 
Onde hei de eu ir buscar a raposa ? 

— Que desejará vossa senhoria que não appare- 
ça, minha senhora ! Qualquer caseiro das suas terras 
do Alemtejo ou Beira, com ordem de vossa senho- 
ria, caçará raposas, que são mirificamente medici- 
naes. 

— Anjo bento ! raposas medicinaes ! . . . volveu D. 
Claudia, e abriu um sorriso jovial, á volta com um 
gemido, como se o picar súbito da dor a não dei- 
xasse rir francamente. 

— Parece-me que está mais alliviada.. . — disse 
o medico. 

— Um poucachinho . . . 

— Pois as virtudes da raposa são miraculosas, 
minha senhora — proseguiu elle, confiado na eficá- 
cia da distracção. — A língua da raposa trazida ao 
pescoço reforça a vista. As mãos d'ella trazidas ao 
pescoço preservam do quebranto. * 



* É textual da pag. 751. «A sciencia da medicina está de 
todo perdida em Portugal ...» escrevia o doutor Francisco 
Thomaz, medico do hospital de Lisboa, ao bispo D. Jorge de 
Athaide em 1592 Vej. Comp. hist. do estado da Univ. de 
Coimbra, xq^i- 

2 São as menores virtudes da raposa, segundo vemos no 
tratado, d'este escriptor, medico, o mais famigerado dos seus 
collegas. Vej. a pag. 722. 



o olho de vidro 8i 

— Do quebranto ! . . . — murmurou D. Claudia da 
Siheira — Ai ! doutor, ha quebrantos sem cura ! Ha 
arêjos que em pegando da gente o remédio é mor- 
rer. 

— Feitiçarias, quer dizer vossa senhoria ? Não é 
tanto assim. Contra esses temos os prodigiosos ale- 
xipharmacos da santa egreja catholica. 

— Bem sei, bem sei — balbuciou a dama, com 
piedoso gesto. — Não é d'esses que eu tenho medo. 
O meu santo António me defenderá. . . Ha coisas 
peiores do que isso n'este mundo. . . coisas que fa- 
zem perder a cabeça á creatura mais ajuizada. Ten- 
ções e protestos não montam nada. Que me faz a 
mim dizer: não hei de pensar mais n'isto ou n'a- 
quillo ? Apega-se a gente com todos os santos. Fa- 
zem-se rezas e promessas. Lembra-se tudo quanto 
ha de máo. . . E, chegada a occasião, tanto faz como 
nada ! Ai ! — suspirou ella, pondo as mãos ambas 
sobre o coração. —Ai!... pobres mulheres !... Só 
vós sois as fracas.,, as peccadoras... não é assim 
doutor ? 

Braz Luiz de Abreu, que n'este lanço estava es- 
preitando de soslaio uns olhos que o espreitavam 
por entre o reposteiro — os olhos da engraçada e 
trigueira aia de D. Claudia — por pouco não é sur- 
prehendido pelo relance da fidalga, que o fiítou 
muito no rosto, com ar interrogador. 

— E' assim, minha senhora, é assim — balbuciou 
elle. 

— E' assim, é — tornou ella — E que remédio 
sabe vossemecê para estes quebrantos, doutor? 

— E' conforme ... — tornou Braz Luiz, sem ati- 



82 o olho de vidro 

nar com a resposta conveniente, porque só n'aquelle 
instante percebera, com despeito de sua vaidade de 
medico, a enfermidade da fidalga. 

— E' conforme, disse vossemecê doutor. . . — vol- 
veu ella, anciosa de entender as reticencias. 

— Sim, minha senhora. . . Ha vários modos de 
possessão, além dos conhecidos nas demonogra- 
phias . . . 

— Não entendo isso — atalhou a fidalga — Pois 
a paixão d'alma também é feitiço ? 

— Se não é . . . — balbuciou o doutor. 

— Leva as mesmas voltas — accudiu prestes D. 
Claudia, e proseguiu expondo com pouquissimo res- 
guardo de sua honestidade as diabruras que o amor 
tinha feito em senhoras de sua amizade, não pou- 
pando na relação das taes diabruras secretas as suas 
mais próximas consanguinaes, e algumas impudici- 
cias muito recônditas da corte da primeira mulher 
de D. Pedro II, com a qual vivera nos primeiros 
annos de sua mocidade. 

Ao correr d'esta narrativa, D. Claudia reparou no 
abstrahimento do medico, cujo olho, de instante a 
instante, punha fito ao reposteiro, e como que pro- 
curava pascer-se deleitosamente em qualquer cousa 
de fora. 

Assim prevenida e desconfiada, esperou azo, vol- 
tou a cabeça ao lado opposto da porta, retorceu-a 
rapidamente de novo olhando ao local suspeito, e 
entreviu a cabeça da sua criada grave Anacleta, por 
quem doidejavam quantos fidalgos novos e encane- 
cidos a visitavam. 

— Olé ! — exclamou ella, erguendo-se de salto — 



o olho de vidro 83 

Agora entendo ! — E, correndo ao reposteiro, afas- 
tou- o de repellão, e disse iracunda: 

— Anacleta, já hoje não dormes n'esta casa. Rua ! 
Não quero testemunhas nem espiões do que se diz 
no meu quarto. Rua ! 

E, tornando com solemne passo para junto de 
Braz Luiz de Abreu, que assistia corrido áquelle 
coníiicto, disse-lhe : 

— E a hypocrisia de vossemecê, senhor dou- 
tor ! . . . A feitiçaria da minha criada também se 
cura com os prodigiosos não sei que (o doutor tinha 
dito «alexipharmacos») da santa egreja catholica? 
Que hypocritas são estes médicos ! . . . 

E cacarejou uma risada secca. 

— Pois que ? ! — tartamudeou o doutor, enleado 
até á irrisão. 

— Eu logo vi ! . . . — disse a fidalga, como em pra- 
ticas de solilóquio comsigo mesma. — A promptidão 
das visitas... está explicada... Assim devia ser. 
Lé com lé, não falha o dictado. Cuidei que as mi- 
nhas criadas serviam somente aos meus criados. 
Bons tempos, em que os médicos se não sujavam 
com amores de servilhetas . . . 

— Oh ! senhora D. Claudia ! — atalhou o pundo- 
noroso doutor — vossa senhoria está-me insultan- 
do... perdoe-me dizer-lh'o, porque nunca cuidei de 
dizer isto a pessoa de sangue tão illustre. . . E, de 
mais, cavalheiro que tal diz a uma dama, não deve 
mais voltar á presença d'ella. 

E, tomando o chapéo e bengala, fez uma arquea- 
da cortezia. 

— Faça o que quizer, doutor! — disse ella abes- 



84 o olho de vidro 

pinhada, com o nó esterico nos gorgomilos — Faça 
o que quizer que vossemecê se arrependerá. . . 

Braz Luiz de Abreu saiu oíFegante de despeito e 
tédio de D. Claudia da Silveira. 

— Que tal está a pelladal — dizia elle de si para 
comsigo — A impudica. . . E eu dar-lhe as unturas 
com a boa fé do mais soez enfermeiro ! Chibata é 
que ella precisava nos lombos ociosos ! . . . 



VIII 



Mã Sina de poetas 



Passados alguns dias, differentes pessoas da in- 
timidade do doutor lhe segredavam que D. Clau- 
dia fazia correr que elle fora expulso da casa dos 
Silveiras, porque andava cortejando a aia grave da 
fidalga, sem respeito ao que devia á illustre enfer- 
ma, e ao que devia á sua dignidade de medico. Os 
amigos aconselhavam n'o, se queria ser recebido 
em casas de primeira plana, abster- se de galantear 
criadas, principalmente se as amas, como D. Clau- 
dia, queriam ser antepostas ás suas servas. 

A calumnia era tolerável, porque em verdade, a 
frescalhona Anacleta era uma das sete criadas gra- 
ves, para as quaes o doutor olhava com a fixidez 
de quem só tem um olho. Assanhou-o, porém, o 
susto de ver-se banido das casas, onde tinha os seus 
prezadissimos, bem que fáceis amores, afora as doen- 
tes mais rendosas. 



86 O olho de vidro 

O ciúme de Claudia mais o exasperou ainda 
por que a historia, em que elle figurava ridiculo 
era contada entre as famílias ás gargalhadas. Enrai 
vecido, cogitou na imprudência de fazer rir os ami 
gos á custa da fidalga. Figurou-se-lhe que o mais 
contundente látego era a satyra em verso. Não teve 
amigo que lhe aconselhasse juizo e discrição, como 
convinha á gravidade do seu officio, e ao melindre 
da poderosa parentela de D. Claudia. Escreveu, e 
deu copias a diversos amigos das seguintes qua- 
dras : 

A UMA PELLADA 

Mulher, n'esse teu desgarro... 

Convém saber, antes de ir avante, que D. Clau- 
dia, como st quizesse attrahir aos pés a attenção 
das pessoas, que lhe reparavam na cabeça, costu- 
mava estar sempre calçada de sapatos bordados a 
fio de ouro. As mais fidalgas chanceavam-n*a, na 
ausência, por causa dos sapatos, e propalavam que 
o Olho de Vidro se deixara algum tempo fascinar 
dos áureos chapins da escalvada dama. Sabido isto, 
não ha já commentarios que aditar á poesia. 

Mulher, n'esse teu desgarro. 
Um Nabuco ás vessas és ; 
Porque, tendo d'ouro os pés. 
Tens a cabeça de barro. 

Se alguma pedra traveça 
Te quizesse derrubar 
Era precico acertar 
Mais que nos pés na cabeça. 



o olho de vidro 87 

Por que, se pelo mais fraco 

Estalla a corda mais grossa, 

Quem quizer que estalles, moça, ^ 

Ha de cascar-te no caco. 

Mais flammantes do que um ouro, 
Mais liza do que uma ostra, 
A cabeça a coura mostra, 
Os pés vão mostrando o couro. 

Dize-me com que destino. 
Mesclas n'essa estatua van 
Entre afíectos de christan 
Heresias de Calvino? 

Sem monho, e com cara alva 
Sahes a toda a occasião ; 
E vejo que tens rasão. 
Porque a occasião é calva. 

Sendo mal encabellada, 
Para que andas, dizè, á pella. 
Se ninguém por ti se pella 
Por mais que venhas pellada ? 

Vae-te, e pede a Deus, ó louca, 
Que te dê com toda a pressa, 
Cabellos para a cabeça 
Em vez de pão para a boca. 

Ao padre nosso á porfia 
Pede que te encabellise ; 
E em vez de pão nosso, dize : 
Cabellos de cada dia ^ 

Multiplicaram-se as copias e as gargalhadas ; não 



* Veja Portugal Medico, pag. 690-691. 



88 O olho de vidro 

tardou, porém, que sobreviessem os despeitos, por 
que muitas famílias, que tinham rido, estavam apa- 
rentadas com D. Claudia. Chegou á noticia da dama 
a zombaria. Foi tanto mais funda a punhalada quan- 
to ella amava ainda o doutor. Odiou-o de morte ; 
não relevava, porém, a soberba da fidalga que ella 
se desse por ultrajada. 

Conjuraram, de repente as familias de melhor 
lote contra Braz Luiz. Os amigos evitavam-no com 
subterfúgios. Os inimigos, collegas d'elle, deplora- 
vam que um seu consócio no sagrado mister da 
medicina os desdourasse. A tempo conheceu o dou- 
tor que tinha cai do em descrédito : e medo também 
de cair trespassado por algum fidalgo estoque não 
lhe faltou. 

Fez logo conta de sair de Lisboa, cortando por 
fibras muito sensíveis do peito. Do plano á execu- 
ção mediou algum pouco tempo, em que Braz Luiz, 
recolhendo alta noite, esteve a pique de ser assas- 
sinado por uma arcabuzada, cujos pelouros lhe 
crestaram os bofes da camisa. 

Desappareceu o Olho de Vidro de Lisboa, e es- 
tanceou alguma temporada por Coimbra, onde as- 
sistiu á impressão de um seu livro em castelhano, 
intitulado Aguilas hijas dei sol, que buelan sobre la 
luna. Representacion cómica, trágica, triwnphal 
de la inmorable vicíoria gloriosamente alcançada 
por las aguilas impiriales contra las nocturnas aves 
ottomanas en el campo de Peter-Varadin, dia 5 de 
agosto ano jyi6 *, 



' E' impresso em 17 17, por Bento Secco Ferreira. 



o olho de vidro 8g 

A mim contentou-me a leitura do titulo, e dis- 
pensei me de ver o restante para ir jurar que deve 
ser sobre -excellente um livro que se chama Águias 
filhas do sol, que voam sobre a lua, E, como se 
isto não fosse já recommendaçao á obra, acresce-lhe 
o merecimento de ser representação cómica, trágica 
e triumphante. Um livro assim, e os applausos com 
que a península provavelmente o victoriou, deviam 
ser para o doutor larga compensação dos dissabores 
com que sairá de Lisboa. Não ha ahi chaga em 
peito de homem illustrado que resista ao bálsamo 
do talento. 

Passou Braz Luiz de Abreu ao Porto, fazendo 
tenção de estabelecer- se na segunda cidade do reino. 
Deteve se em Aveiro alguns dias; e passeando scien- 
tificamente pelos arrabaldes da villa, descobriu a 
planta do chá, nascida em barda por aquelles ma- 
ninhos. Consta-me que os aveirenses, de certo igno- 
rantes do descobrimento do medico, ainda agora 
compram para seu uso o chá da china, como se 
não tivessem alli á mão a erva de que elle se faz. 
Aqui lhe transcrevo as palavras de Braz Luiz, e 
muito faço em prova do meu desprendimento de 
bens de fortuna, se não iria eu propriamente colher 
a erva, comprar os maninhos, e senhorear-me de 
Aveiro em poucos annos. Aqui está a noticia : «Na 
villa de Aveiro, e em todas as suas visinhanças 
nasce uma erva, a que os naturaes chamam erva 
formigueira, porque pisada tem o cheiro como de 
formigas pisadas; e a ha em tanta quantidade que 
podem carregar-se navios d'ella. Esta tal (ao meu 
entender) é o verdadeiro chá qat vem da China e 



go O olho de vidro 

do Japão; não só porque a experiência descobre 
n'ella as mesmas virtudes do chã; mas também 
porque mandando-se da índia a Gonçalo de Sousa 
de Menezes, morador na sua quinta de Salreo, a 
semente do legitimo chá, elle a mandou semear com 
todo o cuidado, e nasceu a mesma erva de que aqui 
se acham revestidos os campos e os comaros *.» 

Não ha duvida nenhuma: o chá da índia é a ei^va 
formigueira de Aveiro. E dizem que nós, os por- 
tuguezes, não somos gente para descobrimentos ! 
O que nós somos é uns pródigos e despreciadores 
dos mananciaes de riqueza que a Providencia nos 
offerece como a filhos seus dilectissimos. Se al- 
guma companhia entrasse em exploração d'aquella 
mina, quem sabe se, fechados os portos á erva in- 
diatica, poderiamos ainda com o nosso chá amor- 
tisar a divida externa, e metter a Europa n'uma in- 
fusão de erva formigueira ? Razão tinha o patriota 
doutor Olho de Vidro, quando em seguida á noti- 
cia, que os coevos menosprezaram, ajuntou : «Quem 
quizer indagar-lhe os préstimos, com facilidade o 
pôde fazer, se acaso não for do génio d'aquelles que 
fazem eterno capricho de preferir sempre as coisas 
estrangeiras ás nacionaes e domesticas.» 

Tranferiuse Braz Luiz para o Porto, ao come- 
çar o anno de 1718. Estreiou-se auspiciosamente. 
Açambarcou a clinica dos mais acreditados, e man- 
teve-se com recato e honra no tocante ás veniali- 
dades do coração, tomando em conta o muito que 



Portugal Medico, pag. Soy. 



o olho de vidro gj 

lhe importava desmentir a má fama grangeada em 
Lisboa. 

No fim de seis mezes, oíFereciam-se-lhe vantajo- 
sos enlaces com raparigas bonitas de sua pessoa, 
rubras e sadias d'aquelle antigo sangue e pojante 
saúde do Porto, e demais a mais, ricas, das mais 
ricas das ruas dos Pellames, Congostas e Merca- 
dores. 

Não se atrigou com a felicidade das propostas. 
Sobrava-lhe dinheiro, estipendio das suas curas es- 
tupendas com inxundia de pata, olhos de minhocas, 
agua benedicta de Rulando, olhos de caranguejo e 
esterco de rato fresco *. O coração cedia á freima 
com que elle trazia empunhada a cabeça em estudos 
médicos, estudos poéticos, toda a casta de sciencia, 
como sujeito que tinha em vista a immortalidade, 
de que a sua memoria se está gosando e gosará, 
emquanto o seu Portugal Medico, e a sua Vida de 
Santo António e este meu romance forem livros 
conspicuos. 

Em outubro de 1718, chegou ao Porto uma se- 
nhora da Beira Alta, muito adoentada, trazendo em 
sua companhia uma filha. A enferma, desenganada 
pelos médicos na sua terra, ia procurar, como em 
ultima estancia, a sua cura na milagrosa reputação 
de Braz Luiz de Abreu. 

Chamava-se a doente D. Antónia da Piedade, e 
a filha D. Josepha Maria de Castro. Aquella senhora 
tinha visto muito mundo, queria contar ao seu me- 



* Vej. Port. Med. pag. 209 



g2 O olho de vidro 

dico extraordinários lances da sua vida ; mas as do- 
res incessantes apenas lhe davam tempo para ge- 
mer, não obstante os esmerados disvelos do dou- 
tor. Os padecimentos recrudeciam, quando á pobre 
senhora lhe acudia a lembrança de que deixava 
n'este mundo sua filha desamparada, sem parentes, 
bem que ella os tivesse ricos. Bem quizera Braz 
Luiz, com a alma poética e aflectuosa que tinha, 
entrar no segredo d'aquellas duas vidas; mas as 
reservas das senhoras impunham respeito e cala- 
vam-lhe de prompto as investigações indelicadas. 
D. Josepha Maria tinha vinte e três annos •, era for- 
mosa, extraordinariamente instruida, fallava a muito 
custo a língua portugueza, e com sua mãe expres- 
sava-se sempre na lingua franceza. Braz Luiz de 
Abreu não se deteve a perguntar ao seu espirito se 
lhe convinha amal-a ; amou-a impetuosamente, des- 
de que a viu ; amou-a perdidamente desde que a 
ouviu. 

D. Antónia falleceu no principio de novembro. 
As suas ultimas palavras á filha foram estas : «Per- 
doa-me ter-te eu dado o nascimento, desgraçada 
menina. Agora, que vae morrer a mulher maldita 
dos seus, vae tu procurar os teus parentes, e diz- 
Ihes que não és culpada dos delictos de tua mãe.» 
Braz ouvira estas palavras, e disse, ajoelhando ao 
pé da filha : 

— Abençoae a nossa união. 

— Eu vos abençoo, meus filhos — murmurou a 
moribunda. 



IX 



Poeta e moralista 



Casaram. 

As delicias do noivado agoiravam santos praze- 
res de toda a vida. 

O esposo entrou nos segredos d'aquella familia, 
imperfeitamente referidos por sua mulher, que os 
não sabia bem contar. O essencial da historia era 
ter ella sangue judaico, e ter nascido no desterro, 
onde se finou seu pae. Lances d'estes eram vulga- 
rissimos n'aquelle tempo. Declarou ella que sua mãe 
não se chamava Antónia, nem o seu appelido era 
Castro. O mysterio, a perseguição, a formosura, a 
Índole meiga, tudo cooperou a robustecer o amor de 
Braz Luiz, que, desde a hora de marido, começou 
a contar os seus dias de vida. 

Tinha vinte e seis annos elle. Mais que nunca lhe 
inundaram alma enchentes de poesia. Os sonetos 
rompiam como lavas e aos pares. Um conservou 



g4 O olho de vidro 

elle no seu livro de medicina. E que engenhosa ma- 
neira de mandal-o á posteridade ! Como não era 
coisa bem cabida um soneto de amores conjugaes 
entre duas receitas para conservar os cabellos, at- 
tribuiu como feito aos cabellos de Maria Santissi- 
ma o soneto com que eternisára as madeixas de sua 
mulher. Vejam como elle o diz, querendo encare- 
cer a formosura de um opulento cabello: cTemos 
um heróico exemplo na Magdalena, que ainda dos 
mesmos cabellos, que lhe cresciam, formou toalha 
para enxugar os pés de Ghristo lavados com suas 
lagrimas... Veneremos a profunda humildade de 
Maria Santissima mysticamente figurada n^aquelle 
cabello admirável, em o humilde discurso doeste 

SONETO 

«Teus cabellos, teus olhos basta vel-os, 
«Compondo o rosto teu, que ao sol prefere, 
«O' minha esposa, porque afé venere 
«A amorosa ambição de pretendel-os. 

oNem porque muitos são chego a querel-os, 
«Antes por qualquer um amor requere, 
«Um dos olhos o coração me fere, 
«Prende-me a alma um só d'esses cabellos. 

«N*'um dos olhos por pura te comprehendes, 
«N'um cabello a humildade sem refolhos, 
«Dás a entender em symbolos bemquistos : 

«Por isso humilde e pura tu me prendes ; 
«Que se um dos olhos me entra pelos olhos 
«Um dos cabellos me ata a olhos vistos.» » 



1 Portugal Medico^ pag. 741 e 742. 



o olho de vidro gS 

O soneto, para ser feito a Nossa Senhora, não é 
bom modelo para mysticos ; porém, como brinde á 
estremecida Josepha, é o melhor de que eu tenho 
noticia, e ella, a meu ver, devia lisongear-se nota- 
velmente. 

O que ella lhe deu melhor ainda do que o soneto 
foi uma filhinha, que chamaram A.nna Maria, e no 
anno seguinte outra filhinha, que chamaram Maria 
da Natividade, e depois outra que se chamou The- 
reza de Jesus, e depois Antónia Maria, e depois 
Sebastiana Ignacia, e depois Agostinho Luiz, e de- 
pois Pedro José, e ultimamente Raphael, que mor- 
reu ao segundo mez de nascido. Ora aqui tem, lei- 
tor sensivel, um quadro perfeito de felicidade ter- 
real : cinco filhas e dois filhos, vivos e robustos, em 
nove annos. Dito isto, por mais que me eu apri- 
morasse em recamos do estylo e maviosidades de 
sentimento no descrever as venturas d'aquella famí- 
lia, tudo me sairia froixo e muito em sombra. As 
creancinhas são os anjos que pintam os quadros da 
vida intima com cores e instincto do céo. Quem 
quer dizer «suprema e indisivel felicidade» não tem 
mais que pôr: «eram dois pães amando-se muito 
com sete filhinhos entre elles a beijarem-n'os, a bei- 
jarem-se, e a chilrearem como avesinhas implumes 
em volta do ninho que lhes dá o aconchego da plu- 
magem e do cibo.» 

Sem impedimento de sete filhos, fartos e aceia- 
dos, o doutor ia enriquecendo, e repartia seu tem- 
po, roubado ás caricias da familia, entre os traba- 
lhos de gabinete e visitas ás pessoas mais illustres 
e pecuniosas da terra. A fama dos seus bons cos^ 



gõ O olho de vidro 

tumes e religiosidade fallou por elle nó tribunal da 
inquisição, quando lá chegou o requerimento docu- 
mentado pedindo as honras de familiar do santo 
officio. Concederam-lh'as sem hesitação, porque os 
médicos, como senhores do arcano intimo das fa- 
mílias, eram os mais importantes sentinellas da pu- 
reza da fé. Não só os sãos costumes, que também 
um livro de summa piedade e vasta erudição, lhe 
ganharam as honras e privilégios de familiar. Este 
livro, publicado em 1726, e ainda hoje relido com 
devotos fervores por quem sabe gastar com acerto 
e bom juro o seu tempo, intitula-se «Sol nascido no 
occidente e posto ao nascer do sol. Santo António 
portuguez. Epitome histórico e panegyrico da sua 
admirável vida e prodigiosas acções.» N'aquellé tem- 
po, não houve livro que ousasse medir-se com as 
elegâncias e pompas d^aquelle in'folio, para o qual 
devera inventar-se a eternidade, se ella não andasse 
já pôr ahi á disposição das obras inúteis. 

D. Josepha, posto que viesse de Paris quasi nada 
disposta a crer nos milagres de Santo António^ de- 
pois que leu a obra de seu marido, reduziu-se á pu- 
reza da fé catholica, e revalidou as ceremonia» do 
baptismo, para se limpar de escrúpulos. Não seria 
esta a razão efficiente ; mas parecia ser. 

No anno seguinte, Braz Luiz saiu com outro vo- 
lume de egual tamanho, bem que menos impor- 
tante á salvação da alma. Todavia, choviam bên- 
çãos sobre o sábio que primeiro curava almas acha- 
cadas de vicios, e depois dava á humanidade enfer- 
ma, como coisa secundaria, um livro que olhava a 
minorar-lhe os flagellos corporaes. Eis aqui o ti- 



• o olho de vidro gj 

tulo d'este padrão da medicina portugueza : «Portu- 
gal medico, ou monarchia medico- lusitana. Histó- 
rica, pratica, symbolica, ethica e politica. Fundada 
e comprehendida no dilatado âmbito dos dois mun- 
dos creados, macrocosmo e microcosmo.» Estes di- 
zeres podem chamar-se o cabeçalho do titulo, que 
se continua em vinte linhas. Assim o declaro para 
que se não julgue da superficialidade da obra pela 
pequenez d*aquelle rotulo. Braz Luiz de Abreu de- 
dica o seu livro ao príncipe do Brazil D. José Fran- 
cisco, e assigna-se medico portuense e familiar do 
santo officio, assentando n'estas qualidades dois tí- 
tulos á consideração publica. 

Este livro, a meu ver, é a mais pittoresca histo- 
ria dos costumes d'aquelle século. .Ninguém lê p 
Portugal Medico, e poucos sabem que desprezado 
thesouro alli está. Como author de livros de medi- 
cina é vilipendio nosso que Braz Luiz seja contado 
na lista dos escriptores médicos, de par com os 
Zacutos, com os Veigas, e com Jacob de Castro Sar- 
mento; como relação das usanças do século xviii, 
não ha novella nem poema satyrico em portuguez 
que lhe chegue á barba. 

Onde me dá o leitor a conhecer o que eram os 
médicos estrangeiros em Portugal? Quaes gazetas 
do tempo ou quaes poetas mordentes nos deixaram 
traços da chusma de charlatães, naturaçs e peregri- 
nos, que se loclupetaram entre nós, favorecidos 
pela crassa bruteza a que tinha descido a faculdade 
medica em Portugal ! Nenhum livro de prosa ou ver- 
so, nenhuma publicação coeva nol-o diz, exceptuado 
o livro obscuro ou escarnecido do Olho de Vidro. 

7 



g8 O olho de vidro • 

Para mim é de fé que o leitor, nem ainda peita- 
do por estes encómios, vae folhear o Portugal Me- 
dico, Pois eu, mas que me alcunhem de imperti- 
nente, vou dar-lhe em traslado coisa pouca d*este 
curioso livro, que é mais historia que as chronicas 
dos Azuraras e Pinas, e mais comedia humana que 
as comedias de Gil Vicente e do Judeu. 

Acerca dos médicos estrangeiros: 

cEnfada-se de ser soldado na Itália um romano; 
passa a Portugal, e constitue-se um famoso espagy- 
rico florentino. Foge da sua religião feito apóstata 
um francez; aporta em Lisboa, e inculca-se por um 
insigne medico portuguez. Quebra em Hollanda um 
mercador; busca o nosso reino, e vende-se por um 
peritissimo physico hamburguez. E até entre os nos- 
sos o que é alveitar no Minho passa a ser medico 
no Algarve ; o que é cirurgião na Extremadura vae 
buscar o gráo de doutor ao Alemtejo; e de boticá- 
rio da Beira, se converte em Galeno de Traz-os-Mon- 
tes; e d'esta sorte espalhados e desconhecidos, mor- 
rendo por viver da sua necessidade, vivem de ma- 
tar com a sua medicina, e atormentando a todos 
sem piedade, ferem sem pena e matam sem castigo. . . 

«Desembarca em Lisboa, no Porto, ou em outra 
qualquer barra doeste reino um medico estrangeiro, 
não disse bem, um estrangeiro metido a medico; 
antes que ponha o pé em terra, já o bom do ho- 
mem tem mandado encher as esquinas de editaes 
em que publica remédios infalliveis para todos os 
achaques. . . Entra-se um doestes por casa de um il- 
lustre, de um nobre, de um ecclesiastico; mas nunca 
de um pobre ; e se ha achaque na casa, começa logo 



o olho de vidro gg 

o parabolano a desenrolar promettimentos, e que foi 
fortuna chegar elle a tempo em que podesse emen- 
dar o que os médicos tinham errado: porque a 
queixa só elle a conhecia, por ter já feito similhante 
cura na pessoa do delfim de França, e vencido o 
mesmo achaque no principe Eugénio, ou em outro 
qualquer personagem doeste calibre ; por que simi- 
ihantes physicos nunca se fazem médicos ahi de 
qualquer tudesco de má morte \ mas as suas expe- 
riências sempre tem sido observadas, ou nos palá- 
cios dos principe s, ou no serralho do grão turco. 

«Começa um d'estes alchimistas a prometter e o 
pobre doente a pasmar. Se o achaque é uma ethica 
marasmada, diz-lhe : senhor, eu faço uma agua tão 
portentosa e de tão infallivel virtude, para esta sua 
queixa, que não só é capaz de restauricar ethicos, 
mas de resuscitar mortos. O cardeal de Rouen 
em Paris estava já mais magro do que um pisco em 
janeiro; tomou a mesma agua, e logo se poz mais 
gordo que um taralhao por agosto . . . E' verdade 
que lhe custou do seu porque este remédio para se 
compor leva duzentas moedas de ingredientes. Se 
vossemecê quer que eu lh'o faça venham as moedas ; 
e, se não se achar bom, não me dará nada pela 
cura. A isto responde o doente que é muito di- 
nheiro. — Bom remédio (torna o estrangeiro) faremos 
por ora só metade da cura, e não vem vossemecê 
a gastar mais do que cem moedas. Ainda é muito ? 
Pois venham cincoenta. Assim vae duvidando um 
e outro, e abatendo, até que o alchimista para não 
ir de todo em todo sem dinheiro, para comprar as 
drogas se resolve a fazer a cura por duas moedas ; 



joo o olho de vidro 

mas pede segredo ao doente, porque não quer 
fazer o seu remédio mal reputado. Vae para casa ; 
põe a ferver dois almudes d' agua da fonte com um 
selamin de cevada, deita-lhe umas poucas de flores 
de papoulas, para tomar outra cor, e um arrátel de 
assucar mascavado ; compõe uma agua adocicada 
côr de fogo; enche quatro garrafões bem tapados 
com cortiça e lacre, e pilha duas moedas.» 

Prosegue Braz Luiz em muitas paginas em prosa 
e verso a critica zombeteira dos médicos mesinhei- 
ros, dos pseudo-medicos, dos barbeiros, das benze- 
deiras. 

Concluo o extracto com uma amostra da prosa, 
e outra da poesia. Qualquer das coisas denota o 
entranhado fervor com que o medico portuense saía 
de frente contra os charlatães em favor da huma- 
nidade. 

«Oh ! — exclama elle — quantos e quantos médicos, 
lobos na condição, estou eu vendo espalhados pelos 
reinos da nossa monarchia, que não sabem mais 
que roubar e matar!. . . São estes ladrões e mata- 
dores públicos todos aquelles que sem o serem se 
fingem médicos. Oh ! miserável e desgraçada me- 
dicina! Gomo vejo trocados hoje os teus predica- 
dos nobilíssimos! Já não és arte de curar, és ata- 
lho de morrer; já não emendas os vicios do corpo, 
extingues as virtudes da alma; já não és triumpho 
das queixas, és flagello das vidas ; já não és sciencia, 
és ignorância; já não és arte preclarissima, és cla- 
ro e claríssimo latrocínio. Os teus methodos de cu- 
rar são modos de viver; os teus aphorismos são gy- 
rias; os teus textos são roubos; os teus remédios 



o olho de vidro lOi 

são mortes, e os teus brazões são sepulturas. Mas 
como não ha de ser assim, se são homens ignoran- 
tes e perdidos os teus professores? Fingem-se mé- 
dicos os idiotas, os vagabundos, os judeus, os bar- 
beiros, os soldados, os feiticeiros, os benzedores...» 

E' christãmente louvável o aífoutamento e despre- 
zo com que elle entala os judeus entre os vagabun- 
dos e barbeiros ; faz, porém, tristeza ver n'isto a 
ingratidão com que elle malsina a raça d'aquelle 
Heitor Dias da Paz, que vinte annos antes lhe es- 
tabelecera a pensão no real collegio de S. Paulo. 
Entristece ainda mais que elle se não condoa do pae 
de sua mulher, do avô de seus sete filhos, o he- 
breu desterrado, que, no dizer de D. Josepha, ex- 
pirara exclamando : 

cDêem-me um pouquinho de ar da minha terra, 
que eu não morrerei ainda !» 

Desculpe-se o ingrato aos israelitas, e lembre-se 
a gente do muito que elle devia á inquisição, que 
o fizera seu familiar, sem lhe averiguar a raça, até 
á quarta geração, condicional indispensável na in- 
vestidura d'aquella honra, honra n'este mundo, e 
segurança na conquista do outro, vista a somma de 
indulgências com que os papas alimpavam a cons- 
ciência d'estes esbirros do santo officio. 

Desculpe-se-lhe ainda a feia culpa, em desconto 
da malquerença e ódio com que os seus collegas 
leram o seguinte soneto: 

«Um, dois, trez, vinte, trinta, oitenta, cem, 
«Mil, dez mil, vinte mil, seiscentos mil, 
«Milhares de milhares (São frei Gil !) 
«Quem poderá contar quantos cá vem ? 



102 O olho de vidro 

«Tanta gente sem conhecer ninguém ! * 
«Más caras ! ruins aspectos ! forma vil ! 
«Nunca elles são de génio mais subtil, 
«Se a cara testemunha o que ellas tem. 

«Ah ! sim ; já sei ; uns mata-sanos são 
«D'aquelles asneiroens que por hi ha, 
«Que não sabem escolher o mal do bom. 

«Ah ! quantos burros ha ! (mais de um milhão ?) 

«Que sem saberem ler o b a — Bá, 

«Curam e matam por hi sem tom nem som ?» 

Agora, vamos, por algum tempo, deixar Braz 
Luiz de Abreu com as suas prosas, com os seus poe- 
mas, e com o locupletar-se, por justo effeito da sua 
grande nomeada. Não cuidem que elle, á similhan- 
ça dos poetas, de seu natural perdulários e desin- 
teresseiros, tem em conta de pouco a paga das suas 
visitas. No tocante a estipendio de médicos, vejam 
como elle se declara : «Não faltam médicos na mo- 
narchia medica-lusitana, que por este modo vivam 
apostolicamente. Em muitas cidades, villas notáveis 
e povoações grandes doeste reino, é para os seus 
médicos muito pouco o sustento e immenso o tra- 
balho. Na arithmetica medicinal d'esta monarchia, 
multiplicam-se as visitas, mas nunca se accrescen- 
tam as pagas : poucas vezes os médicos cuidam em 
sommar, porque nunca os doentes chegam a repar- 
tir. Trabalhar todos os dias, levantar-se a qualquer 



* Os versos errados é necessário desculpal-os também á 
santa indignação. 



o olho de vidro io3 

hora da noite, subir e descer escadas, ouvir quei- 
xas, soíFrer impertinências, examinar cloacas, recei- 
tar remédios, e revolver livros, isto sim; que para 
isso é burro: receber pagas, cobrar partidos, reco- 
lher avenças, e embolçar estipêndios, isso não, que 
por isso é asno.» 

Engenhoso modo este de avisar os seus doentes 
remissos na paga, não por attenciosas cartas no fim 
do anno, mas por três paginas de um livro in folio, 
das quaes trasladei algumas linhas, em obsequio 
aos médicos do tempo d'agora, e censura aos doen- 
tes que não pagam. 



Os expatriados 



Trinta e quatro annos antes, se o leitor se lem- 
bra, tinham fugido para a índia, em uma náo mer- 
cantil, o doutor Francisco Luiz de Abreu e sua mu- 
lher, disfarçados em mercadores de drogas indos- 
tanicas. 

. Assim que aportaram a Goa, antes que os qua- 
drilheiros da inquisição os farejassem com aquelle 
olfacto d'elles, subtilissimo em esquadrinhar sangue 
judaico, apressaram-se em fugir do território por- 
tuguez. No primeiro navio britannico aproado á costa 
do Malabar, conseguiram os incógnitos embarcar-se, 
e saltaram em Gochim, na cidade querida do gran- 
de Affonso de Albuquerque, a qual, desde i663, 
pertencia aos hollandezes. Estavam salvos. 

O doutor Abreu começou exercitando a medicina 
e o commercio, e auferindo mais ganância da cam- 
phora, do beijoim e do chumbo, que da sciencia 



o olho de vidro io5 

das drogas salutiferas. Corridos dois annos, como 
os bens de fortuna lhe sobrassem, visto que já de 
Portugal sairá com sobejos para viver meãmente, 
passou á Europa e estatabeleceu-se em Hollanda. 

Aqui, recebido nos braços de centenares de por- 
tuguezes, voltou á profissão de medico, e poz os 
seus cabedaes a logro, com prósperos resultados. 
Hollanda era o paraizo terreal dos perseguidos he- 
breus. «Em parte nenhuma do mundo, — escrevia 
Daniel Levi de Barros — gosam maior segurança 
que em Amsterdão, tanto pela liberdade de cons- 
ciência nas sete províncias unidas, como pela bon- 
dade de seus engenhosos habitantes.» * 

Hebreus portuguezes e Hespanhoes tinham allí 
sua synagoga, independente dos israelitas de proce- 
dência allemã. Foi a primeira edificada em Amster- 
dão, consoante o affirma António Alvares Soares 
na sua Sylva : 

La primera Synagoga Amstelodama 
Fundada fué dei grand Jacob Tirado 
Que por su nombre Bet Jahacob la 11 ama 
1 por el pueblo de Jacob sagrado. 

Tanto crescera a opulência dos hebreus da pe- 
ninsula hispânica, desde que a lerda piedade dos 
reis os expulsaram, que, em menos de quatro annos, 
levantaram e consagraram, em 1673, o mais soberbo 
edifício que ainda hoje sobreleva a todos de Ams- 
terdão. No crer dos hebreus, aquelle templo era o 



1 Cap. II, V. II 



io6 O olho de vidro 

milagre que Deus lhes havia promettido por Eze- 
quiel: «Porque os puz longe entre as gentes, e 
porque os lancei dispersos por vários paizes, eu se 
rei para elles um pequeno sanctuario dos paizes 
para onde forem.» * 

Francisco Luiz de Abreu, assim que se viu de 
assento e pouco menos de esquecido da pátria, logo 
que a occasião se lhe amoldou, sem risco do seu 
amigo Moraes de Villa Flor, escreveu-lhe, pedindo- 
Ihe a ida do filho de António de Sá Mourão para 
HoUanda. O pae de Heitor Dias da Paz, respondendo 
á carta, pedia-lhe com lagrimas que lhe não tirasse 
o pequeno, porque, além de magoar penetrante- 
mente seu filho, que o estremecia como irmão, po- 
dia ser que lhe tolhesse o futuro, ou, com a ida, 
suggerisse á inquisição suspeitas e apparelhasse des- 
graças para os que lhe estavam debaixo da vista 
fulminante. 

Relatava-lhe a perseguição que os Oliveiras de 
Ourem estavam soffrendo, desde a fuga na náo da 
carreira da índia, e o certo perigo que corria a 
creança, selevissimas suspeitas o indigitassem como 
filho de Francisco de Abreu. 

O medico desvaneceu as esperanças da sua mu- 
lher, que era a mais fervorosa em pedir o seu filho 
adoptivo. D'esta correspondência nem palavra Fran- 
cisco de Moraes revelava á creança, por medo que 
a indiscrição própria dos annos acareasse descon- 
fianças da espionagem, que sem tréguas espreitava 



* Casa de Jacob, pag. 24. 



o olho de vidro loj 

os actos dos judeus abastados. Moraes pedia ao 
seu amigo que lhe escrevesse pouco e com muita 
segurança, para que as suas cartas não tivessem 
destino egual ás de Pedro Lopes, residente em Da- 
masco. 

Senhor do seu tempo e hberdade, o doutor Fran< 
cisco Luiz foi a França inquirir de novo informa- 
ções de António de Sá. Nada adiantou ás colhidas 
pelo joalheiro de Villa Flor. O navio, que navegava 
para o Canadá, parecia que as ondas o tinham en- 
gulido e pulverisado nas profundezas dos seus abys- 
mos, nem a mais ligeira suspeita de que existisse 
um fôlego vivo d'aquella náo, a não ser que as duas 
galeotas de flibusteiros, então ancoradas na costa 
de S. Domingos, podessem dar noticia do naufrá- 
gio. 

Recolheu o doutor a Amsterdão com as esperan- 
ças de todo perdidas. 

Seis annos decorridos, chegou á família dos Mo- 
raes, residente em Hollanda, a nova de estar nos 
cárceres da inquisição de Lisboa Heitor Dias da 
Paz. Foi grande lucto e choro nas familias portu- 
guezas de Amsterdão, entre as quaes tinha sido 
creado e educado o mocinho. Abriram- se as syna- 
gogas, e prostraram-se os de Israel, pedindo ao seu 
Deus que lhes redimisse da morte affrontosa do gar- 
rote e do fogo o mancebo, cuja genealogia proma- 
nava já da tribu de Levi. Bem sabiam elles que Hei- 
tor Dias da Paz havia de morrer profitente da lei 
de Moysés, e somente por milagre do Senhor po- 
deria salvar-se de morrer queimado. 

Quando chegou a Hollanda a noticia do suicidio 



io8 O olho de vidro 

de Francisco Moraes Taveira e da imperterrita morte 
de seu filho, estes nomes gloriosos nas dypticas da 
nação fiel foram inscriptos no martyriologio hebreu. 
Assim o tinha sido o do medico Silva, que, apoz 
treze annos de cárcere, fora queimado em Lima, no 
anno de lôgS, e, ao tempo que o fogo o devorava, 
um pegão de vento esboroou o tribunal onde ellc 
havia sido condemnado. * Assim fora '^>antificado um 
judeu portuguez, o qual, apenas a fumarada da fo- 
gueira lhe lev^ou aos pulmões- as primeiras agonias, 
desataram-se-lhe os ferros, e foi arrebatado por um 
anjo, a tempo que os algozes exclamavam que o diabo 
o transportava em corpo e alma. Deus, para salvar 
o seu servo das angustias do supplicio horrendo, o 
arrancara d'entre as chammas, segundo o assevera- 
do nas actas dos martyres. Não menos illustres em 
santidade eram para os hebreus o religioso da As- 
senção, queimado em Lisboa no anno de i6o3, e o 
medico Sobremont, suppliciado em Lima depois de 
vinte e dois annos de masmorra. Na Sylva^ de An- 
tónio Alvares, vem commemorada assim a cruci- 
ficada vida d'aquelle martyr: 

Veinte y dos annos in prision penosa 
Por defender de Dios la verdad pura,, 
Termino arrastra la cadena dura 
Que le da el ser la sacra ley su esposa. 

Heitor Dias da Paz foi comparado na coragem 
da morte ao hespanhol Lopo de Vca, filho de pães 



* Cardoso. Las excellencias, lo Exp. p. 322. 



o olho de vidro log 

christãos velhos, o qual se fizera judeu, e se cir- 
cumcidára no cárcere. A constância de sua morte 
obrigou o inquisidor geral a dizer que nunca vira 
tão ardente desejo de morrer^ nem tamanha confian- 
ça de salvação, nem tão completa firmesa, como a 
d'aquelle moço na flor da edade, * 

O medico Abreu, para não arriscar a segurança 
dos seus parentes e amigos de Portugal, absteve-se 
de pedir informações de Braz, nos primeiros annos 
seguidos á morte dos judeus de Villa Flor. Corria 
o anno de 17 lo quando elle se animou a indagar 
com a máxima cautela. Algumas pessoas foram 
disfarçadas a Coimbra, averiguaram com todo o 
resguardo, e nenhum esclarecimanto alcançaram. 
Ninguém dava novas nem rastreava o destino do 
moço. Eram obvias as razões d'esta ignorância: 
Braz Luiz nunca em Coimbra estivera na companhia 
de Heitor Dias da Paz, nem o collegial de S. Paulo 
ousava dizel-o, admoestado pelos frades, os quaes, 
por sua parte, movidos de compaixão do estudan- 
tinho, cuidavam em salval-o da nota infame de 
amizade com taes protectores. 

O medico Francisco Luiz, se não esqueceu o filho 
de António de Sá, desistiu de perguntar, como di- 
ligencia inútil, a paragem d^elle. Facilmente acre- 
ditaram que tivesse morrido, ou caísse em obscura 
indigência, depois do auto de fé de 1706. 

Em 1718 appareceu em Amsterdão a obra de 



* Foi queimado em Valladolid em 1644. As expressões es- 
tão na Carta dei Inquisidor Moscoso a la condesa de Mon- 
terrey. 



Jio o olho de vidro 

Braz Luiz d' Abreu, publicada em 17 17, com o ti- 
tulo: «Águias filhas do sol que voam sobre a lua.» 
O nome do author produziu estranho reparo em 
Francisco Luiz d' Abreu. Bra:{ era o nome da crean- 
cinha, que elle entregara a Francisco de Moraes ; 
o sobrenome e o appellido eram os d'elle. 

— Quem sabe! — dizia elle á esposa — Cuidaria 
o filho de António de Sá que era nosso filho ? ! 
Dir lh'o-hia alguém, depois da morte de Heitor Dias 
da Paz ? Porque ha de ter este homem o nome que 
lhe deixámos, e o appellido que eu tenho?.. . 

— Pergunta a alguém de Portugal onde reside o 
author d'esse livro — lembrou Francisca. 

De Portugal disseram ao israelita que Braz Luiz 
de Abreu era um medico residente no Porto. 

Sem medeação de alguém, Francisco Luiz escre- 
veu directamente ao medico do Porto estas pala- 
vras: «Pessoa interessada em querer saber quaes 
foram ou são os pães de vossemecê, pede-lhe que 
os indique, se os conheceu. Responda para Ams- 
terdão.» 

E deu o pseudónimo Elias Sarmento^ a quem 
devia ser dirigida a resposta. 

Braz Luiz de Abreu entendeu que a pergunta era 
um escarneo a elle desgraçado, que não tinha co- 
nhecido seus pães, e que, na maledicência de ini- 
migos, passava como exposto na roda de Villa Flor. 
AíFrontado por tão certeira azagaia á sua immensa 
dor e pejo de não poder dizer cujo filho era, res- 
pondeu n'estes termos: «Braz Luiz de Abreu res- 
ponderia com um tagante ao judeu ou burro que 
lhe faz a pergunta, se não tivesse dç ir longe pro- 



o olho de vidro iii 

curai -o a chatinar no templo, como Jesus Ghristo 
nosso Senhor fez aos avós de quem se esconde na 
terra dos Ímpios, dos hereges, e dos crucificadores 
do Messias para o insultar, jo N'um homem, chama- 
do EliaSy a allusão insultante devia de acertar in- 
fallivelmente. 

Francisco Luiz de Abreu, lida a resposta, riu-se 
da sua illusão e da catholica ira do medico por- 
tuense. N'esse mesmo correio, foi-lhe de Portugal 
uma carta do amigo a quem elle perguntara onde 
residia o medico. A carta dava sobre o sujeito os 
seguintes esclarecimentos: Tinha sido creado com 
írades, á custa d'elles se licenceára, e era familiar 
do santo officio, e denominado o Olho de Vidro, 
porque, tendo perdido um olho em desordem, o 
substituirá por outro artificial. Accrescentava mais 
que, na opinião de algumas pessoas, o tal Olho de 
Vidro era filho de um frade, se não fosse filho de 
três frades. 

Á vista d'isto e da resposta do author das Águias, 
o hebreu acreditou evidentemente que este Braz não 
tinha de commum com o outro senão o nome. 



XI 



Treze annos depois 



Francisca de Oliveira morreu no anno de 1730 
em Itália, para onde seu marido se transferira, por 
1724, a procurar-lhe ares restauradores da saúde 
que ella a pouco e pouco perdera em Amsterdão. 

O medico, perdido o arrimo da alma aos cincoen- 
ta e cinco annos de edade, sentiu gravame e tédio 
da vida. Os bens da fortuna eram muitos; mas o 
veneno da saudade e da solidão, por ser bebido em 
taça de oiro, não lhe era menos lethal. Se elle fosse 
pobre, trabalharia, quebraria na canceira da lida 
suada para ganhar pão alguns espinhos da sua co- 
roa de órfão de todos os affectos puros e sagrados, 
na edade, em que somente esposa e filhos podem 
adoçar o amargo da velhice. Não tinha ninguém lá 
fora. E em Portugal se tinha parentes nem os co- 
nhecia, nem amava, nem já esperava, nem queria 
ser estimado d'elles. 



o olho de vidro ii3 

Vagamundeou de reino em reino, repartindo al- 
guma parte dos muitos haveres por hebreus neces- 
sitados, e reservando para si a quantia que compu- 
tou necessária para passadio abundante de quinze 
annos. 

Passados dois, estanceava por Marselha, quando 
um navio mercante estava carregado com destino a 
um porto de Hespanha. Quasi sem consultar os 
perigos da sua temeridade, como quem nenhuns 
vinculos já tinha que desprender dolorosamente das 
coisas boas d'este mundo, embarcou como hollan- 
dez, com passaporte que o abonava mercador de 
Amsterdão, e desembarcou na Corunha. D'aqui 
passou a Portugal, em navio hespanhol, e viveu al- 
guns dias em Lisboa, separado de toda a convivên- 
cia, e encontrando a miúdo pessoas de Hollanda, 
que deviam conhecel-o, se elle em três annos não 
tivesse encanecido, e oito annos antes se não reti- 
rasse d'entre os portuguezes para os pontos mais 
soUtarios e pittorescos da Itália. 

Foi o doutor a Ourem, com ares de forasteiro 
que vê pelo miúdo as mais e menos notáveis terras 
dos paizes. A casa onde elle nascera havia sido 
vendida pela coroa, para a qual tinha sido confisca- 
da, depois que o dono fora queimado em estatua. 
Estava sendo estalagem. Pernoitou n'ella ; dormiu 
no quarto de sua mãe . . . não dormiu : chorou por 
todo o correr da noite vagarosa. Antes que a pri- 
meira luz do seguinte dia apontasse, saiu do quarto 
onde nascera e morrera sua mãe, viu de passagem 
o quarto que fôra^^^o seu, e d'onde agora sahia ou- 
tro viageiro madrugador. 



114 O o//i^ de vidro 

D'aqui se foi caminho de Coimbra, abafando os 
soluços para que o arrieiro e outro viajante que ca- 
valgava e o seguia silencioso Ih'os não ouvissem. 

Andando um quarto de légua, perguntou-lhe o 
companheiro : 

— Vae para Coimbra, camarada? 

Francisco Luiz, fingindo uma pronuncia de hol- 
landez que sabe algum pouco de hespanhol, disse 
que sim, ia ver Coimbra, porque andava exami- 
nando os monumentos celebres de Portugal. 

O colluctor era homem já de annos adiantados : 
orçaria também por perto dos sessenta. 

— Aquillo já foi Coimbra! disse elle. Quando eu 
por alli andei estudando, grandes homens liam na 
universidade ; hoje, nem já parece Coimbra, nem 
cidade das letras. A vossemecê, que é estrangeiro, 
posso-lh'o dizer : os jesuítas deram cabo dos bons 
estudos. 

— Ha quantos annos andou vossemecê estudan- 
do na universidade ? 

— Ha bons quarenta. Matriculei-me no primeiro 
anno de medicina em 1693. 

— Noventa e três? — perguntou Abreu com re- 
paravel interesse ; mas o ar de espanto passou, na 
mente do outro, como pergunta admirativa do muito 
longe que já ia a vida estudiosa do interrogado. 

— E' verdade. Ha que tempos isto vae !. . . Dos 
meus condiscipulos, que eu saiba, já não vive ne- 
nhum. 

— Seria d'esse tempo — tornou Abreu — um por- 
tuguez medico que eu conheci em Hollanda ? 

— Como se chamava ? 



o olho de vidro ij5 

O doutor quedou-se a scismar largo tempo, e 
disse : 

— Ghamava-se Francisco... Francisco... Luiz... 

— De Abreu ? — accudiu o interlocutor — Ora se 
conheci I . . Não era meu condiscípulo ; era mais 
novo do que eu na universidade ura anno; mas ha- 
via de regular pela minha edade. Fui amicissimo 
d'elle, e elle meu. Queimaram-no em estatua e mais 
a mulher, no auto da fé de Coimbra, em 1699, se 
bem me lembro. Ora se conheci ! Ainda será vivo ? 

— Não lhe sei dizer. Ha muitos annos que viajo, 
e não voltei ao meu paiz. Tem familia em Portu- 
gal ? 

— Não lhe posso dizer; mas a mim lembra-me 
que elle tinha um filhito natural, posto que outros 
diziam que o pequeno era filho de outro hebreu, 
que andava desterrado. Esse filho desappareceu; 
não sei se elle o levou, se morreu por cá em com- 
panhia de parentes. 

— Também a mim me está lembrando que esse 
medico me fallava muitas vezes n'outro hebreu con- 
discípulo d'elle . . . ora que me não accode o no- 
me ! . . . Um hebreu que fugiu de Portugal com a 
filha de um fidalgo, christão velho. .. 

— Ah ! já sei de quem vossemecê me quer fal- 
lar. . . Ha de ser António de Sá Mourão. 

— Parece-me que sim. . . 

— Não podia ser outro. Conheci-o perfeitamente. 
Era o melhor estudante da faculdade medica. Sei a 
historia d'esse desgraçado, perfeitamente... 

— Então sabe que fim elle teve ? — atalhou Fran- 
cisco Luiz. 



ii6 O olho de vidro 

— Morreu, o que eu sei é que o pobre homem 
morreu lá íóra e por pouco lhe não matavam os 
pães cá demro. A minha casa dista da casa dos 
Cabraes, senhores de Carrazedo, meia légua. Veja 
se eu não estarei lembrado de tudo isso, conhe- 
cendo a morgadinha como as minhas mãos. Imagine 
vossemecê qual seria o meu espanto, quando, faz 
agora quatorze annos, a vi. 

— A viu?! —exclamou Abreu — viu? quem?! 

— A morgada de Carrazedo, . . 

E, como soffreando a expansão, o viajante disse : 

— Conto estas coisas a vossemecê porque é es- 
trangeiro, e por que ella já morreu, e não tem que 
temer da inquisição. Que ella andou em Portugal 
incógnita . . . 

— Mas vossemecê viu D. Maria Cabral ? ! — tor- 
nou Francisco Luiz. 

— Justamente, D. Maria era o nome d'ella. Vejo 
que sabe também algumas miudezas da tragedia !... 
Pois vi-a com estes olhos ; e vossemecê poderia 
vel-a também, se ella não tivesse morrido em 1718. 

— Conte-me o que souber d'essa senhora, que 
tenho ardentissima curiosidade de saber os succes- 
sos da vida de tamanhos infelizes... 

— Olhe, o modo como o marido lá morreu por 
fora, não:m'o disse ella... mas, o melhor é con- 
tar-lhe desde o principio. Appareceu aquella se- 
nhora em Bragança com uma menina de vinte e 
dois annos. 

— Menina! filha d'ella ? 

— Sim, filha d'ella e do judeu Sá Mourão. 
Francisco Luiz de Abreu arquejava, e parecia te- 



o olho de vidro Jij 

mer que a vida se lhe acabasse antes de ouvir o 
remate da historia. Mortificavao, a vontade de in- 
granzar perguntas em tropel ; sustinha-o, porém, já 
o receio de se privar das miudezas que o pachor- 
rento narrar do homem promettia, já também o re- 
ceio de se fazer suspeito pela demasia do interesse, 
bem que o sujeito se lhe afigurasse bom homem, e 
incapaz de o denunciar. 

— Então ella tinha uma filha? — insistiu Abreu. 

— E' verdade. Linda como a mais linda estrella; 
mas a mãe, d'aquilIo que tinha sido, não lhe restava 
sombra nem vestigio. Era uma sexagenária, não po- 
dendo ter então mais de quarenta e quatro annos, 
cá pelas minhas contas, porque ella tinha dezeseis 
quando fugiu com o judeu da Guarda . . . Não me 
lembra o que eu ia dizendo. . . 

— Que appareceu em Bragança D. Maria Cabral 
com uma menina. . . 

— É verdade. Chegou a Bragança, e fallava muito 
confusamente o portuguez, e a filha pouco ou nada 
dizia. Tomou de renda uma casinha e para alli se 
metteu com duas criadas, que lhe chamavam D. An- 
tónia da Piedade. 

Depois de por lá estar alguns mezes, dando muito 
que pensar á curiosidade da terra, começou a sair 
com um aspecto muito doentio, e a dar passeios a 
cavallo pelos arredores. Chegou á casa de Carraze- 
do, onde ella tinha nascido, e mandou pedir aos 
moradores d'ella licença para lá passar as horas da 
calma. Foi recebida por pessoas que ella nunca ti- 
nha visto; mas que eram seus primos e sobrinhos, 
que tinham ido de Chaves tomar conta da herança 



n8 O olho de vidro 

de Fernão Cabral. Este fidalgo desherdára a filha, 
porque as leis lh*o facultavam, e nomeara herdei- 
ros os filhos de uma sua irmã, que elle odiava, por 
se ter casado com um capitão de cavallos menos 
fidalgo do que ella. Mas o ódio á filha avantajou-se 
tanto ao ódio da irmã, que, em artigos de morte, 
receiando que os descendentes d'elle ainda viessem 
perturbar-lhe o somno eterno, desherdou a e nomeou 
seus herdeiros os sobrinhos *. D. Maria sofifeu vo- 
luntariamente algumas horas de martyrio n'aquella 
casa, e ouviu com enchutos olhos contar a uma de 
suas primas a historia da morgada de Carrazedo, 
mulher perdida por amor de um judeu da Guarda 
com quem casara. Soube como tinha sido desher- 
dada e amaldiçoada pelo pae á hora ultima ; agra- 
deceu as sopas que lhe deram os possuidores do 
seu grande património, e seguiu seu caminho. Ao 
escurecer chegou ao portão da minha casa, e per- 
guntou se alli morava ainda, ou se já tinha morrido 
o doutor José de Barredo. 

— José de Barredo! disse Abreu, sem ter mão 
da impetuosa reminiscência que lhe acudiu. 

— Sou eu. Parece-me dar vossemecê a entender 
que já ouviu o meu nome ? ! 

^ As leis do reino davam razão de sobra a Fernão Cabral 
para desherdar a filha, e transferir os vínculos a parentes. Os 
interesses da religião sobrelevavam aos mais sagrados vinculos 
do sangue e da piedade paternal. O pae, que quizesse perdoar 
as injurias recebidas do filho, poderia fazel-o ; mas o desa- 
cato ás coisas e prescripções das Decretaes não estava em 
seu poder perdoal-o, concedendo o pão da vida a seus filhos. 
Veja a nota final sobre as leis facultativas do desherdamento. 



o olho de vidro iig 

— Não me é novo... tartamudeou Francisco Luiz. 

— Pôde ser que Francisco Luiz de Abreu lhe 
failasse alguma vez em mim, quando lhe referiu a 
historia de António de Sá, porque eu, não sei por- 
que fatal compaixão de D. Maria, alguma parte tive 
nos amores funestos d*elles, prestando-me a rece- 
ber da Guarda as cartas que clle escrevia á mor- 
gada. 

— Naturalmente é de Francisco Luiz que eu co- 
nheço o nome de vossemecê, disse o doutor Abreu, 
olhando muito em fito as feições d'aquelle velho, 
que tinha sido em Coimbra um dos seus mais affe- 
ctos contemporâneos. — Deixe-me apertar a mão de 
um amigo de Francisco Luiz — tornou Abreu, aper- 
tando- lh'a com estremecido enthusiasmo. — Se elle o 
podesse encontrar, senhor Barredo, estou que cho- 
raria, estreitando ao coração o homem talvez único 
n'este mundo que lhe resta dos que na mocidade o 
prezaram . . . 

— Certamente — disse José de Barredo enterne- 
cido a lagrimas. — Se elle vivesse, seria o meu 
mais velho amigo . . . que todos os outros morre- 
ram. . . A opinião que elle e António de Sá tinham 
do meu natural, sendo elles judeus e eu christão 
velho, bem se deixa ver no procedimento de D. Ma- 
ria comigo ; pois, escondendo ella o seu nome e 
nascimento de todos, procurou-me a mim com o 
propósito de se declarar. E assim o fez. 

Logo que me avisaram de estarem alli duas da- 
mas, uma das quaes tinha cara de doente, fui re- 
cebel-as ao pateo, cuidando que era consulta de me- 
dico. Conduzi-as á sala, e ahi D. Maria, com os 



120 O olho de vidro 

olhos desfeitos em lagrimas, e muito embaciados, 
entrou a olhar-me, e a tremer, até que, expedindo 
um grande ai, se lançou nos meus braços, claman- 
do : «eu sou a sua amiga da infância, sou Maria 
Cabral, morgada de Carrazedo!» 

N'este ponto da narrativa, pararam os arreeiros 
á porta da estalagem de Thomar. Os cavalleiros 
apearam, subiram ao sobrado da estalagem e pedi- 
ram almoço. 

José de Barredo proseguiu, atando o fio com as 
palavras de D. Maria. 

— Eu sou a sua amiga da infância ! — clamou ella 
— Sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo ! Faça 
idéa, e continuou Barredo — faça idéa do meu as- 
sombro, senhor... senhor... pôde dizer-me a sua 
graça?. . . Um amigo do meu amigo da mocidade, 
não deve hesitar em querer a amizade que lhe oflPe- 
reço, e dizer-me o seu nome ... 

— Direi — balbuciou commovido o outro no mais 
correcto portuguez: — mas ha de ser com o coração 
bem perto do teu, José; abraça-me, e ouve-me 
muito baixinho esta revelação feita á tua alma : Eu 
sou Francisco Luiz de Abreu. 

José de Barredo abriu a boca até onde lh*o per- 
mettiam as articulações das mandibulas. A expressão 
d'aquelle seu grandissimo espanto foi um som rou- 
co, similhante a um brado de terror. Em seguida, 
rebentaram-lhe súbitas as lagrimas, e então somente 
pôde o velho atirar-se todo aos braços do amigo, e 
exclamar : 

— Ó Francisco ! . . . se a inquisição te conhece ! 

— Tu somente me conheces em Portugal — disse 



o olho de vidro 121 

o doutor Abreu — E não temas por mim, que, se 
eu cair nas garras do santo officio, pouco mais se 
doera do fogo d'elle este corpo empedrenido do que 
ha trinta e sete annos a minha estatua. Morto estou 
eu já, meu amigo. Que me faz a mim agonisar so- 
bre as brazas da minha tristeza irremediável, ou 
expirar mais depressa nas torturas da polé ou nas 
do garrote ? Como quizerem. . . 

José de Barredo quiz suspender a narrativa do 
tocante á viuva de António de Sá Mourão para ou- 
vir a dos successos de Francisco Luiz. Não lh'o per- 
mittiu a anciedade do amigo. Gonformou-se o con- 
fidente de D. Maria, e continuou, ordenando aos 
arrieiros que fossem adiante e os esperassem no 
Arneiro, onde haviam de jantar, cinco léguas adian- 
te na estrada de Coimbra. Continuou o doutor Bar- 
redo : 

— O alvoroço que me fez o apparecimento d'a- 
quella senhora alquebrada e de todo desfigurada, 
dizendo-me que era a formosa morgada de Carra- 
zedo, só t'o posso comparar com aquelle que, ha 
pouco tu me causaste, Francisco. São dois lances 
da minha vida que já não podem repetir-se. Não te- 
nho mais ninguém que esperar da minha mocidade. 
Era ella e tu; por que António de Sá, esse não 
pôde mais voltar. . . 

— Creio que seria o mais ditoso dos teus ami- 
gos. . . — balbuciou Francisco Luiz. 

— Oh ! não !... pois tu desconheces a doçura d'cs- 
tas nossas lagrimas ? Dois velhos, que se amaram 
moços, e se encontram nos umbraes de outro mundo 
para se despedirem ! Que é isto, senão o derradeiro 



122 O olho de vidro 

calor da vida que ainda nos aquece os corações ?... 
Demos graças ao nosso Deus^ que é o mesmo Deus, 
ou elle se chame Jesus de Nazareth, ou Messias, ou 
simplesmente creador do céo e da terra. Supplique- 
mos-lhe que nos deixe já agora acabar estes últimos 
dias um á beira do outro.. . Tu vaes para minha 
casa, não é verdade, Francisco? 

— Irei a tua casa, irei, José ; mas . . . estou a re- 
ceiar que te esqueças da nossa pobre senhora... 
— dissse Abreu, sorrindo, e enchugando as lagri- 
mas. 

— Tens razáo ; mas deixa-me ser feliz um pou- 
cachinho. . . Temos tanto tempo em que fallar dos 
outros desgraçados. . . 

— Oh ! se tu podesses dizer-me que ella ainda 
vive. . . 

— Não posso, e pouco tenho que te contar antes 
da morte d'ella... Ahi vae, mais que sei. D. Maria 
perguntou-me se devia considerar perdido o seu pa- 
trimónio ; e eu respondi-lhe que sim ; e pedi-lhe que 
nem fallasse em tal pretensão, se a trazia, porque os 
individuos possuidores d'elle seriam capazes de a 
denunciar ao santo officio, e de lançarem rezina aos 
páos da fogueira com as próprias mãos. Então me 
relatou ella a desgraçada vida que tivera por espaço 
de quinze annos, captiva de corsários e mais o ma- 
ndo e a filhinha : é uma historia longa, que eu te hei 
de mostrar escripta, em minha casa. Não t'a sei dizer 
de memoria porque ha quatorze annos que fechei e 
mais não vi os taes papeis, e já era minha tenção quei- 
mai -os para que por elles se não venha a descobrir 
quem é D. Josepha, a filha do judeu António de Sá. 



o olho de vidro 12 J 

Esteve D. Maria alguns poucos mezes em minha 
casa, soffrendo, sem tréguas, moléstia incurável : es- 
tava ethica. Lembrou-se de ir consultar médicos fa- 
mosos : bem sabia eu a inutilidade do passo ; mas 
deixeia a ir ao Porto, a consultar um famoso me- 
dico chamado o Olho de Vidro. 

— Braz Luiz de Abreu — atalhou Francisco Luiz. 

— Esse mesmo, cujo nome tantas vezes me fez 
lembrar o teu, que cheguei a perguntar se elle se- 
ria teu parente ; mas logo me disseram que não : e, 
para prova de que não era, bastou-me saber que o 
Olho de Vidro era familiar do santo officio. 

Francisco Luiz interrompeu a narração para re- 
ferir a correspondência que tivera com o tal medi- 
co portuense, imaginando que elle, por um acaso 
maravilhoso, poderia ser o filho de António de Sá, 
uma creança que . . . 

— Muita gente — accudiu José de Barredo — e eu 
mesmo pensei que fosse teu filho . . 

— E admiro que não soubesses que era filho de 
António de Sá! 

— Não sabia ; porque, desde a fuga da morgada, 
nunca mais tive novas d'algum d'elles, e bem sei 
eu por que : fiz repugnância ao desvariado proce- 
dimento d'ella; cheguei a fazer lhe ameaças de a 
denunciar ao pae, a ver se a dissuadia. Tu mesmo, 
se bem me lembro, ignoravas onde estivessem ala- 
pados, e cuidavas comigo que se tinham embarcado 
para a índia. Depois desappareceste de Coimbra, e 
quando voltaste nada me disseste, nem eu t'o levo 
a mal, porque sei quão perigosa era a tua situação, 
e a dos pães de António de Sá que o santo officio 



124 o olho de vidro 

prendera na Guarda. Sabia eu que uma mulher 
creava em Coimbra uma creancinha que tu algumas 
vezes visitavas. Suppuz, como quasi toda a gente, 
que era teu filho... Morreu esse menino? 

— Não sei. Presumo que sim. Ninguém me pôde 
informar, e bastas vezes pedi novas d'elle. Acaso 
te lembras da morte de Heitor Dias da Paz, de Villa 
Flor? 

— Lembro, foi em 1707. 

— Nunca ouviste dizer que em poder d'esse he- 
breu estivesse um moço, que então devia ter entre 
quatorze e quinze annos ? 

— Não ouvi dizer nada. 

— Pois era elle, se existisse. Vamos ao fim da 
historia de D. Maria. Valeu- lhe alguma coisa a me- 
dicina do tal Olho de Vidro ? 

— Nada. Passados trinta e tantos dias, chegou a 
Bragança a nova de que ella tinha morrido, com o 
nome de D. Antónia da Piedade, e que sua filha D. 
Josepha tinha casado com o medico Braz Luiz de 
Abreu. Aqui tens o que sei. Haverá cinco annos que 
eu fui ao Porto e procurei o Olho de Vidro, no in- 
tento de ver D. Josepha. Disseram-me que elle, em 
resultado de inimigos seus collegas, que assanhara 
com a publicação d'um livro chamado Portugal 
Medico, tivera de afastar-se do Porto, e fora esta- 
belecer-se em Aveiro, onde tinha comprado muitos 
bens de raiz e vivia abastadamente. As minhas oc- 
cupaçÕes não me deixaram ir a Aveiro, e já agora 
morrerei sem ver D. Josepha, que deve estar perto 
dos quarenta, ou quem sabe se já estará na eterni- 
dade ! 



o olho de vidro I25 

— Irás agora a Aveiro comigo — disse Francisco 
Luiz. — Quero vel-a, sem que ella saiba que eu fui 
o maior amigo de seu pae. E' preciso temer-lhe o 
marido, visto que elle tanta familiaridade tem com 
o santo ofíicio. Tu a procurarás, e darás azo a que 
eu a veja e lhe falle como desconhecido. Uma boa 
lembrança... Irei consultar-lhe o marido, fingindo 
de doente estrangeiro, a quem chegou a nomeada de 
tão abahsado medico. Contar-lhe-hei muitissimos 
padecimentos que elle ha de classificar de muitissi- 
mas maneiras, e assim estarei mais ao alcance de 
ouvir D. Josepha dizer-me alguma coisa de seu pae. 
Ora, dize-me tu : Nunca D. Maria te disse que dei 
xára um filho em Portugal, quando fugiu para Hes- 
panha ? 

— Disse que esse menino o considerava morto : 
uma só vez me fallou d'elle ; mas as lagrimas eram 
tantas que eu me esquivei a pedir-lhe pormenores 
da creança, de modo que nem soube que o menino 
ficara em tua companhia, nem depois passara á dos 
Moraes de Villa Flor. Eu não te disse ainda que 
D. Maria, ás temporadas, parecia cair em modorra 
e paralysia de entendimento. Esquecia-se e queda- 
va -se n'umas cogitações taciturnas ; e, se lhe tiravam 
muito pela fala, respondia disparates. De sorte que 
eu, a respeito do filho, que ella dizia ter deixado 
em Portugal, não cheguei a fazer perfeito juizo, nem 
a mesma filha estava convencida de que elle tivesse 
existido ; a prova era que ella ouvira com certa es- 
tranheza as revelações confusas que a mãe me fazia 
sobre as desgraças do seu longo desterro e capti- 
veiro. Pôde ser que tu, Francisco, se te deres a 



J26 o olho de vidro 

conhecer a D. Josepha, venhas a obter muitos es- 
clarecimentos, que eu mal posso dar-te porque 
sinto enfraquecida a memoria, e preciso espertal-a 
com a leitura dos meus apontamentos. Quem me- 
lhor te poderá referir a vida de António de Sá, a 
meu ver, é o marido da filha ; mas quererá elle — 
o familiar do santo officio e author da vida de 
Santo António — que tu saibas a procedência he- 
braica de sua mulher, embora possa ufanaf-se de 
serem netos de Fernão Cabral os seus filhos? Não 
terá elle medo de que o santo officio lhe saia ainda 
a pedir contas á mulher dos delictos do pae e da 
mãe ? 

— Isso é claro — observou Abreu. — Nem eu lh'o 
perguntaria, nem elle me contaria coisa alguma al- 
lusiva á filha de António de Sá. De mais a mais, já 
eu te disse que resposta me elle deu para Amster- 
dão. Devemos ir prevenidos contra o génio irritável 
do homem; é preciso muitissimo cuidado, que não 
vamosindiscretamente perguntar-lhe de quem é filho. 

No dia seguinte ao meio dia, os dois velhos che- 
garam a Coimbra, e andaram procurando as diffe- 
rentes casas em que tinham morado. 

Ao segundo dia de repouso, cuidaram em jorna- 
dear para Aveiro. Pouco antes da partida, chegou 
a Coimbra um próprio enviado da casa de José de 
Barredo, noticiando-lhe que sua mulher estava em 
perigo de vida. Desfez-se o plano de irem juntos a 
Aveiro, e foram juntos para Bragança. Francisco 
Luiz de Abreu quiz acompanhar o velho amigo, no 
propósito de lhe desacerbar as lagrimas da viuvez, 
se a desgraça fosse inevitável. 



o olho de vidro I2j 

Era. Francisco Luiz assistiu aos funeraes da es- 
posa de José de Barredo. E quando o velho parecia 
conformar e esquecer-se entre as caricias de muitos 
filhos, despediu-se por alguns dias, e saiu sósinho 
de Bragança em direitura a Aveiro. 



XII 



Historia de António de Sá 



Recebeu Braz Luiz de Abreu aviso para ir ver 
um hespanhol que pousara enfermo na estalagem. 

Francisco Luiz queixou-se de varias moléstias, ou- 
viu o parecer do medico, pagou-lhe generosamente 
e pediu-lhe que o visitasse todos os dias. 

Dos remédios receitados não se aproveitou, por- 
que os achaques eram phantasticos, e bem sabia o 
doutor Abreu como era fácil enganar outro doutor 
Abreu. 

No dia seguinte, o Olho de Vidro encontrou me- 
lhorado o seu doente, e sentiu-se ufano do acerto 
com que cortara pela raiz uma doença, com a qual 
se tinham enganado os principaes médicos de Hes- 
panha, segundo a confissão do doente. 

Já o 'doutor Braz queria espacejar as visitas: o 
hespanhol, porém, instava, pagando-as a brio, que 
não lhe faltasse diaríamente com ellas. 



o olho de vidro i2g 

Estava sendo celebrado em Aveiro este triumpho 
recente do Olho de Vidro. 

Já o convalescente se julgava restaurado, e o 
doutor como tal o dera; o forasteiro, porém, affei- 
coado á terra onde se recobrara, determinou passar 
n'ella a primavera de 1732, e voltar nutrido a Cas- 
tella, de modo que os médicos madrilenses se co- 
messem de inveja dos seus collegas portuguezes. 

O doutor Braz, como visse no seu enfermo D. Jo- 
sé Aristizaval (assim era conhecido em Aveiro) ex- 
cellentes qualidades, contando n^estas a bizarria 
indicativa de riqueza, convidou-o a servir-se de sua 
casa e da convivência de sua esposa e filhos, os 
quaes, dizia Braz Luiz, são tantos que bastam a for- 
mar uma assembléa em Aveiro ou saráo d'aldeia, 
que monta o mesmo. 

Agradeceu e aceitou o convidado o oíFerecimen- 
to; e, logo á primeira visita, brindou a esposa do 
seu medico e as cinco meninas, formosuras muito 
de se verem, cada uma com sua jóia de preço. Re- 
parou logo e de relance em D. Josepha, e recordou 
uma por uma as feições de D. Maria Cabral. 

Ficaram as meninas contentissimas dos presen- 
tes, que eram braceletes de oiro, mandados com- 
prar ao Porto, com o designio já posto no destino 
que tiveram. Entretido n'estas coisas, mistura de 
puerilidade e bons sentimentos, o espirito de Fran- 
cisco Luiz ia cobrando alento e certa energia. Gran- 
de parte n'esta sua insólita actividade era por certo 
a esperança de saber pelo miúdo a vida trágica do 
seu amigo António de Sá. 

Seguiram-se as visitas e foi-se apertando a intimi- 

9 



7 3o o olho de vidro 

dade. As meninas e os rapazes folgavam muito de 
ouvir o velho D. José contar historias curiosas das 
suas navegações. Um dia, veio ao ponto uma bata- 
lha de corsários com uma náo hollandeza, em que 
elle viajava nas costas de S. Domingos. 

— De S. Domingos!? — exclamou D. Josepha. — 
Já esteve n^esses sitios vossemecê? 

— Avistei-os — disse o hospede. 

E inventou uma rija peleja entre hollandezes e 
piratas, descripção temerosa que tinha os ouvintes 
espavorecidos. 

Terminou o saráo d'aquella noite; e, na seguin- 
te, Braz Luiz de Abreu, cada vez mais entrado de 
affecto ao hespanhol, lhe disse : 

— D. José Aristazaval, hoje sou eu o narrador 
de desventuras de navegantes. A historia que eu 
vou referir só a sabe em Portugal minha mulher e 
eu: de hoje avante ficam-na sabendo o meu honra- 
do hospede, que a não ha de repetir a portuguezes, 
e os meus filhos, que por interesse seu, hão de ca- 
lal-a. 

— Honrado sou eu por benevolência do doutor 
— se vossemecê me considera egual com seus filhos 
no merecimento de entrar no segredo de seus pães, 
respondeu Francisco Luiz. 

— E* segredo de tanto porte — accrescentou o 
medico, abaixando a voz — que não sei d'outro em 
minha vida com que possa mostrar-lhe a confiança 
que me merece, senhor D. José. 

E, passados alguns segundos, Braz Luiz de Abreu, 
silenciosos profundamente os ouvintes, principiou 
assim : 



o olho de vidro i3i 

— Minha sogra era filha de um dos primeiros fi- 
dalgos de Traz-os-Montes. O solar dos Cabraes de 
Carrazedo é um dos mais antigos de Portugal. Meu 
sogro era hebreu, e chamava-se António de Sá 
Mourão, natural da Guarda. 

Fugiram de Portugal com admirável tortuna, e 
casaram-se segundo o ritual hebraico, presumo eu. 
Meu sogro, ao tempo da fuga, estudava medicina, 
e tomou gráo em uma das universidades estrangei- 
ras. Esteve alguns annos na Europa; e, como o do- 
minava a paixão de ser rico, aceitou partido muito 
vantajoso que os francezes lhe oíFereciam no Cana- 
dá, e embarcou em Marselha, quando minha mulher 
era creancinha. 

Na altura da costa de S. Domingos, a náo em que 
elle se embarcara perdeu o rumo, e foi levado con- 
tra a costa, por não ter tempo de fazer-se ao mar 
quando a tormenta se levantou. Antes que o navio 
se despedaçasse, alguns passageiros aventuraram-se 
n'uma lancha a ganharem a praia por entre as fau- 
ces da morte. Com os aventureiros ia meu sogro, 
e a esposa com a filhinha nos braços, dispostos a 
descerem ao abysmo abraçados. 

Já perto de terra, onde levavam postos os olhos, 
avistaram dois navios de pequeno lote, e chusmas 
de tripulantes vestidos de trajos extravagantes. Um 
conhecedor d'aquelles mares reparou nos homens 
da pátria, que se moviam vertiginosamente, e ex- 
clamou : 

— São os demónios do mar ! São flibusteiros * ! 



i Não se liquidou ainda a etimologia de /7i^M5ídro5, palavra 



j32 o olho de vidro 

Vejam lá o que querem: morrer no mar ou no ca- 
ptiveiro d'aquellas bestas-feras ? 

Ninguém optou por morrer no mar. Os passa- 
geiros da lancha, bebendo a morte a cada instante, 
conclamaram que antes queriam o captiveiro do que 
a morte horrivel de afogados. 

Antes de chegarmos a terra, ouviu-se uma grande 
celeuma do mar a dentro. Olhamos todos para a 
náo, e vimol-a sossobrar, e uma montanha de va- 
gas abater-se sobre ella. Soltámos um grito unisono 
de consternação ! Alguns dos aventureiros gritavam 
por esposas, por pães e filhos ! . . . Que situação, 
senhor D. José! D'um lado, aquelle naufrágio hor- 
roroso, do outro os flibusteiros, que esperavam an- 
ciosos a presa, que se lhe ia entregar aos ferros. 
Assim que a lancha bateu em terra, os bandidos 
rodearam a presa, e mal ouviram não sei que pala- 
vras ditas por meu sogro a sua mulher, bradaram 
todos : «Cá temos um cão de hespanhol U K a um 
tempo se lançaram todos a elle, como se entre si 
disputassem com especial ódio a posse d'aquella 
victima distincta das outras. Como se explicava 
o particular rancor que os flibusteiros tinham aos 
hespanhoes ? 

— Se eu não receasse interromper a sua interes- 
sante historia — disse Francisco Luiz — lhe daria a 
razão d'esse ódio, se é que sua esposa não quer ex- 



que aportuguezamos por lhe não conhecermos a correspon- 
dente, se a ha. Vem de flyboat em inglez, ou áejlibot em 
francez, ou ainda do bretão free booter ? 



o olho de vidro i33 

plicar-lh'o melhor do que eu sei, por m'o haverem 
contado e não por experiência. 

— Minha mulher, disse Abreu, ignora-o, porque 
muitos annos viveu longe do trato de tal gente, e 
não sabe explicar-m'o. 

— Em poucas palavras o farei — tornou o hos- 
pede. — Os pontos essenciaes da ilha e costa de S. 
Domingos pertenceram aos hespanhoes. Um dia, 
chegaram á costa septentrional d'aquellas posses- 
sões algumas galeotas de aventureiros francezes, 
mesclados com malfeitores foragidos de todas as 
nações, homens sem pátria, escapados ao cadafalso, 
feras tremendas, que precisavam embriagar-se de 
sangue para gosarem algum prazer n'este mundo. 
A estas escorias sociaes congregaram-se outras da 
mesma Índole saidas de Guadelupe, de Granada e 
da Martinica. N'aquellas vastas florestas acharam 
que farte sustento, na abundância de manadas de 
toiros bravos, de javalis, e vaccas mansas, que os 
hespanhoes por lá deixaram medrar e multiplicar. 
A riqueza de cada um de estes bandidos compunha- 
se de uma boa matilha de rafeiros, d'uma enorme 
espingarda, duas camisas, uma jaleca, um chapéo 
de feltro, um calção, e uma grossa correia á cinta 
com uma espada curta e três facas de matto pen- 
dentes. As casas d'elles, durante as sortidas á rapi- 
na, eram barracas de fina lona, com a qual se de- 
fendiam das ferroadas dos moscardos e das geadas 
homicidas. Viviam aos dois, antes que a França 
lhes mandasse mulheres, e, por morte de um, era 
herdeiro o outro. Raras vezes se desavinham, e 
quando se desafiavam matavam se a tiro de espin- 



1Ò4 O olho de vidro 

garda. Se o morto não recebesse os pelouros pela 
frente, o assassino era logo degolado como trai- 
çoeiro. 

O principal commercio d'elles era carnes seccas 
e pelles, que iam vender ás enseadas da costa, me- 
diante uns assalariados, que tratavam entre elles e 
os compradores, na esperança de voltarem ricos da 
America, onde se lhes ia a vida em durissimo ca- 
ptiveiro. 

Quando os hespanhoes da ilha de S. Domingos 
deram tento dos salteadores nas visinhanças das 
ilhas, tiraram-se da lethargia de suas riquezas, pe- 
diram tropas ao. rei de Hespanha e fizeram guerra 
implacável aos flibusteiros, matando-lhes muitos dos 
mais audazes. D'este começo de exterminio se ge- 
rou o ódio dos bandidos á Hespanha, e mais ainda 
por causa do golpe mortal que soffreram, quando 
as tropas entraram ás mattas, e mataram os reba- 
nhos mansos e bravos, que o mesmo foi seccar as 
fontes de subsistência d'aquellas hordas. Eis aqui, 
a meu ver, a origem do inquebrantável rancor dos 
chamados demónios do mai\ 

Agora, vamos á historia do senhor António de 
Sá, seu sogro. 

— Meu sogro, minha mulher e filho — continuou 
Braz de Abreu — foram remettidos á Martinica 
n'uma galé, que vogava com mais de cem homens. 
O capitão dos flibusteiros residia alli, como gover- 
nador, e chamava- se Duparquet. , . 

— Devia ser filho — at.alhou Francisco Luiz — de 
um francez também chamado Duparquet, levado ás 
honras de governador em 1637 por Luiz xiii de 



o olho de vidro i35 

França, a quem convinha aliançar-se com tão hon- 
rados vassallos. 

— Duparquet, sabendo que o hespanhol captivo 
era medico, tratou-o com alguma affabilidade, e 
encarregou- o de lhe curar de cameras uma filha. 
Meu sogro saiu felizmente do encargo, e foi consi- 
derado por isso medico da casa do governador. 
N'aquelle anno, que me parece seria o de 1697 ou 
98, segundo as confusas lembranças de minha so- 
gra, meu sogro foi mandado embarcar n'uma náo 
de quatro peças, da qual se arvorara almirante um 
francez chamado Legrand, o mais temivel flibus- 
teiro d'aquelles mares. António de Sá curou muitos 
mutilados n'uma abordagem aos galeões de Hespa- 
nha, e, pela pericia com que o fez n'um grave feri- 
mento de Legrand, ficou desde logo nomeado es- 
cravo e medico do almirante. Meu sogro assistiu ao 
assalto de Maracaibo, riquissima cidade e bem 
guarnecida, que se deixou entrar e saquear por 
quatrocentos salteadores. 

Também assistiu á tomada de Garthagena pela 
esquadra franceza, auxiliada por flibusteiros, que 
lhe deram a victoria. 

No afogo d'esta peleja, António de Sá, quando 
estava pençando as feridas de seu senhor, foi gra- 
vemente ferido de bala. A convalescença foi longa. 
N'este intervallo, em que elle se tornara inútil, pe- 
diu licença para ir ver á Martinica sua mulher e fi- 
lha. Negaram-lh'a ; mas concederam-lhe que a fa- 
milia o fosse visitar nos arraiaes movediços de so- 
bre as ondas. 

Legrand tinha residência em S. Domingos, onde 



i36 O olho de vidro 

se desfadigava das batalhas navaes, exercitando os 
seus leões do mar. Obrigou, portanto, o prezadis- 
simo escravo a viver com elle. D. Maria, minha so- 
gra, passou á companhia do marido, e minha mu- 
lher que tinha então seis annos, ficou em casa do 
governador da Martinica, por que a filha predilecta 
de Duparquet se habituara a consideral-a a sua es- 
crava loura. 

Por muitas vezes, António de Sá Mourão suppli- 
cou a Legrand, que, em paga de seus serviços, o 
deixasse passar com sua familia á Europa. O fran- 
cez, importunado pela teimosia de taes rogos, amea- 
cou-o de o mandar matar, se elle tentasse fugir f 
E' onde podia chegar a gratidão do flibusteiro al- 
mirante. 

Minha sogra me disse que, decorridos cinco an- 
nos, o marido escrevera desde S. Domingos a um 
amigo muito querido, que tinha em Portugal. A 
carta, porém, foi devolvida passados dias a António 
de Sá, com a seguinte reflexão do governador-al- 
mirante : «Os escravos dos flibusteiros, se teimam 
em escrever cartas para Hespanha, correm o perigo 
de não poderem já ler as respostas, quando ellas 
voltarem.» 

Nunca mais António de Sá escreveu ou tentou 
escrever para Portugal. 

O medico ia enriquecendo com as liberalidades 
dos flibusteiros ; porém, um dia, achou-se roubado, 
não obstante ser pouquissimo vulgar o latrocinio 
entre elles. 

Seria porque ao portuguez ou hespanhol o con- 
sideravam estranho á sua tríbu, e como tal indigno 



o olho de vidro iSj 

de se gosar dos foros de lealdade, que uns com ou- 
tros guardavam. 

Minha mulher corria por este tempo nos seus dez 
annos. O pae consternava- se de a ver crear-se en- 
tre gente brutal, e rodeada de creaturas ignóbeis 
do seu sexo, recenseadas nos lupanares de Paris e 
de Marselha, enviadas como presas ás colónias. 

António de Sá, aproveitando o lanço de ter cap- 
tivo o animo do governador, depois da cura de 
doença grave, pediu-lhe licença para enviar a filha 
a educar-se n'uma casa de religiosas francezas. O 
governador condescendeu, e enviou duas netas ao 
mesmo collegio, na primeira náo que sahiu para 
França. 

Meus sogros presumiam que lhe seria menos em- 
baraçada a fuga podendo passar a filha á Europa. 
Enganaram-se ; por que Duparquet, arrependido da 
concessão, redobrou de vigilância sobre os menores 
passos do seu medico. 



XIII 



Seguimento da Ustoria 



— António de Sá — proseguiu Braz Luiz — foi cha- 
mado a curar de febres um judeu rico da Norman- 
dia, que passara com grande companhia de he- 
breus pobres a fundar uma colónia na costa de S. 
Domingos, com licença do rei de França e bene- 
plácito do governador. Meu sogro, cumulado de li- 
beralidades do seu restabelecido enfermo, deu-se 
por bem pago da amizade do hebreu, a quem se 
revelou proscripto da nação fiel, e evidenciou sua 
origem, praticando com elle as cerimonias judai- 
cas. 

O colonisador estimava-o muitissimo. Animou-o 
a declarar-lhe o seu intento e pedir- lhe coadjuvação 
para a fuga. Não lhe encareceu o hebreu grandes 
dificuldades á boa saida do plano \ assegurau-lh'a 
fácil, logo que, fundada e solidificada a colónia, elle 
se fizesse na volta de França. 



o olho de vidro i3g 

O medico, alentado de esperanças, aguardou an- 
no e meio a almejada hora ; todavia minguou-lhe a 
necessária prudência, porque, sem grande recato, 
começou de longe a simplificar os valores que tinha, 
trocando-os por pedras preciosas e coisas de fácil 
transporte. 

Chegado o tempo da saida do opulento hebreu, 
conforme ao plano gizado pelos dois, inventaram 
uma epidemia na colónia, e pediu-se ao governador 
a assistência do medico hespanhol. Duparquet man- 
dou conhecer da epidemia clandestinamente por um 
cirurgião francez, fugido das galés de Marselha, e 
foi certificado de que era imaginaria a contagião. 
Foi o hebreu normando chamado á Martinica, quan 
do já António de Sá se desconfiava de certos tre- 
geitos que vira na má cara do governador. O judeu, 
porém, mais desconfiado ainda que o seu protegido, 
respondeu afirmativamente ao commissario de Du- 
parquet, e em vez de velejar para Martinica, man- 
dou aproar ás ribas normandas e accender os mor- 
rões para incutir respeito ás galés de flibusteiros 
ancoradas na costa. 

António de Sá foi o bode expiatório da afifronta, 
se mais bodes não foram os judeus da colónia que 
o governador mandou passar á espada, sem per- 
doar sequer a mulheres e crianças. Meu sogro te- 
ria sido espingardeado, se a esposa se não lançasse 
em joelhos aos pés da filha de Duparquet, a quem o 
marido por duas vezes arrancara ás presas da morte. 

Depois de preso alguns mezes, António de Sá foi 
chamado á presença do governador e perdoado. 
Pregou lhe o francez um demorado sermão, rechea- 



140 O olho de vidro 

do de censuras contra o feio crime de ingratos da 
laia d'elle medico, o mais venturoso homem que 
ainda tinha caído em unhas de flibusteiros, e ho- 
mem de mais a mais filho das Hespanhas. Lembrou- 
Ihe os benefícios desusados com que lhe galardoara 
os seus bons serviços como medico, e os conselhos 
que lhe dera sobre o modo de enriquecer-se e cons- 
tituir-se um dos mais ricos proprietários das coló- 
nias de S. Domingos. Lembrou-lhe o resgate que 
lhe dera da filha, tendo-a aliás destinada, como 
formosissima que era, a casar com um seu neto. 

António de Sá respondeu com muitas lagrimas,^ 
talvez suggeridas pelo recordar-se da filha, e deses- 
perança de tornar a vela. Est&s lagrimas compade- 
ceram o governador, que o abraçou estreitamente^ 
e lhe pediu que se deixasse estar até que um dia 
passassem ambos a França. 

O medico resignou-se e esperou. 

Entretanto, senhoreou-se d'elle pesadissima tris- 
teza, que a pobre esposa não sabia nem podia con- 
solar. Esquartejava-lhe o coração aquelle espectá- 
culo de incessante latrocínio e sórdido desavergo- 
nhamento de costumes. Olhava contra o mar, e 
perdia a vista afogada nas lagrimas, exclamando : 
«Não hei de mais ver-te, ó minha filha. . . não hei 
de mais ver- vos, meus filhos. . .» 

— Pois elle tinha mais que uma filha ? — pergun- 
tou Francisco Luiz de Abreu. 

— Essa mesma pergunta fiz a minha sogra — dis- 
se Braz — ; mas a resposta era um silencio indeci- 
frável, um esquisito amuar, que nem eu nem minha 
mulher ainda agora podemos atinar o que fosse... 



o olho de vidro 141 

A meu juizo, minha sogra padecia umas turvaçÕes, 
a revezes, durante as quaes era preciso que a gente 
se não demorasse a querer entendel-a ou interro- 
gai- a, que então rompia em alto choro ou carrega- 
va iradamente a sobrancelha. 

Meu sogro foi um dia com sua mulher supplicar 
ao governador que os deixasse sair, ou os mandas- 
se matar. 

O francez condoeu-se, e mandou-os retirar beni- 
gnamente, e esperar resposta em occasião oppor- 
tuna. A opportunidade chegou tarde. 

Tinham já decorrido doze annos n'aquelle viver, 
em que outro qualquer homem acharia distracção, 
enriquecendo-se, e sabendo aproveitar-se d'esse lado 
único, e todavia o mais bello para muita gente. 

Enfermou gravemente o medico: quem sabe se 
elle a si mesmo ministrou o veneno, que o ia cor- 
roendo vagarosamente ? A sua máxima aííiicção era 
antever a morte da esposa antes da sua. Isto attri- 
bulava-o, como se já a estivesse vendo sobre terra, 
la-se a ella debulhado em lagrimas, e rogava-lhe 
de mãos postas que tivesse mais força d^alma, mais 
coragem do que elle tinha para arrastar aquellas 
cadeias. 

Pôde ser que afinal se lhe espessassem sombras 
de demência na grande luz de razão com que en- 
tendera os arcanos da sciencia, quando a estudava 
em Coimbra ... 

— Fallou vossemecê com alguém que o houves- 
se conhecido em Coimbra ? — perguntou Francisco 
Luiz. 

— Paliei com os meus lentes, que todos tinham 



7^2 O olho de vidro 

sido condiscípulos e contemporâneos d'elle, e lhe 
perdoavam o crime do rapto e do hebraísmo em 
desconto de sua aha capacidade para as divinas 
sciencías medicas . . . Em que ponto estávamos ? 

— Na doença do pae. . . — disse D. Josepha. 

— E' verdade ... na doença do meu sogro que 
foi a primeira e ultima da sua vida. Minha sogra, 
quando chegava a esta final jornada da sua trage- 
dia, parece que se lhe apagava o entendimento. So- 
luçava, com os braços cruzados sobre o seio, e os 
olhos cravados no alto ponto onde ella imaginava 
por ventura entrever o espirito de seu marido. O 
certo é que elle morreu em 1716, consoante o cal- 
culo de minha mulher, que então já contava os seus 
vinte e um annos, dez dos quaes tinham sido vivi- 
dos n'um convento. 

A compaixão franqueou a minha sogra a saída da 
colónia. Apossou-se da herança do marido que de- 
via ser grande. Embarcou em um navio marselhez, 
que voltava do Canadá; antes, porém, de saltar de 
um barco de flibusteiro ao navio francez, já estava 
roubada do mais precioso da sua fazenda. 

A pobrinha não se queixou, nem de ver-se pobre 
cobrou grande angustia. Lembrou-se de que tinha 
uma filha, uma pátria, e n'ella os haveres de seu 
pae, que deviam ser a riqueza de sua filha. 

Procurou em França o convento de sua filha, a 
qual duvidou reconhecer a mãe. Saiu minha mulher 
da casa religiosa, e assim se viram duas senhoras 
desamparadas em meio da França, entregues á pró- 
pria deliberação. Alguém as enviou ao ministro por- 
tuguez em Paris, que lhes ouviu a historia com 



o olho de vidro 14B 

sentimento, e caridosamente aconselhou a minha 
sogra que se houvesse muito prudente com o santo 
officio de Portugal, em cujos archivos o nome d'el- 
la devia estar escripto para eterna memoria. Po- 
rém, como quer que D. Maria teimasse em sair para 
a pátria, o ministro advertiu- lhe que mudasse de 
nome, e se valesse das cartas que lhe deu, caso a 
inquisição a perseguisse, por effeito de alguma ir- 
reflexão d'ella, quanto á exigência dos haveres de 
seus pães. 

Proseguiu Braz Luiz de Abreu, relatando o que 
já é notório ao leitor, até ao seu casamento com a 
filha de D. Maria Cabral, fallecida no Porto. 

— Crucificada existência foi pois a de António de 
Sá Mourão! — murmurou muito recolhido Francis- 
co de Abreu, e assim se esteve cogitativo por largo 
espaço. 

— Vejo que lhe fez commoção esta fúnebre his- 
toria ! — disse D. Josepha. 

— Muitissima dor! — murmurou o hospede, lim- 
pando o rosto coberto de lagrimas. — Pobre ho- 
mem ! . . . que destino ! . . . que vida ! . . . Como o 
mundo debaixo do céo está infamado de tamanhas 
desgraças!... E vale a pena o viver!... E não 
morrem afogadas as creancinhas ás mãos de seus 
pães!. . . 

Braz de Abreu, esposa e filhos todos tinham os 
olhos amarados de pranto. 

Francisco Luiz levantou-se, beijou as meninas 
mais novas, . apertou a mão de D. Josepha, e des- 
pediu-se ©ffegante de soluços. 

— Que sensibilissimo homem !... — disse o medico. 



XIV 



o segredo horríFel 



Ao outro dia, Francisco Luiz foi convidado a jan- 
tar com o seu medico. A condolência a que o mo- 
vera a infelicidade do hebreu Sá Mourão atou mais 
n'alma os liames de sympathia com que o Olho de 
Vidro o entranhara na intimidade dos seus. 

O israelita de Ourem ia triste. Dir-se-hia que 
nunca elle, até á véspera d'aquelle dia, deveras se 
convencera da morte do seu António de Sá. Tan- 
tos annos idos, e elle ainda a querer-lhe e como 
que a esperal-o ! Já o seu contemporâneo Barredo 
lhe havia dito na summa o que Braz de Abreu lhe 
dissera, e todavia o convencimento da morte do ma- 
rido de D. Maria não o tinha ainda penetrado, ao 
que parecia. 

Durante o jantar, como nenhum estranho assis- 
tisse, a fora o hespanhol — que nunca se esquecera 
de o ser na linguagem — praticaram largamente 



o olho de vidro 145 

acerca dos actos do santo officio na Península. O 
hespanhol relatou a sorte dos judeus em diversas 
partes do mundo, para concluir que em Portugal e 
Castella eram elles mais perseguidos do que pode- 
riam selo no inferno se, como piamente cria, Deus 
os tinha castigado com fogo infinito. 

Braz de Abreu, posto que familiar do santo offi- 
cio, recebeu de boa sombra aquella um tanto iró- 
nica reflexão do commensal, attribuindo a génio hes- 
panholado a comparação faceta. 

Voltando á conversação da noite anterior, refle- 
xionou Francisco Luiz que, tendo estudado algum 
tanto os factos da inquisição de Portugal, notara 
que a santa bandeira de S. Domingos de Gusmão 
era pouquissimo misericordiosa com os hebreus mé- 
dicos ou estudantes de medicina. E ajuntou: 

— E* sabido segundo me fizeram crer alguns fo- 
ragidos de Portugal, que os estudantes de medi- 
cina apenas licenciados, ou se acreditavam como fa- 
miliares do santo officio, ou se expatriavam antes 
que a inquisição os desterrasse d'este mundo. Dou 
como exemplo Henrique de Castro Sarmento. . . 

— Foi meu condiscípulo — atalhou Braz de Abreu. 

— Pois então sabe vossemecê que elle está em 
Londres, com o nome de Jacob de Castro Sarmen- 
to, em tanto credito e dignidade que, pouco ha, foi 
elevado á cathegoria de membro do collegio real 
dos médicos, e sócio da sociedade real de Londres ? 
Este grande sábio, e co-reformador da sciencia, que 
seria hoje em Portugal, se não se evadisse d'aqui 
uns quatro annos depois de licenciado ? Seria por- 
ção d'essa vasa do Tejo por onde se misturam as 

10 



14^ O olho de vidro 

cinzas de muitíssimos da sua raça e do seu alto en- 
tendimento. Outro medico houve ahi em Coimbra, 
segundo me disseram, que chegou a pertencer ao 
corpo cathedratico, e teve de fugir com sua mulher 
para a índia hollandeza. 

— Quem era ? perguntou o doutor. 

— Se bem me lembro, tinha elle um nome assaz 
parecido com o de vossemecê. Ghamava-se Fran- 
cisco Luiz de Abreu. 

— E' verdade I — accudiu D. Josepha — que no- 
me tão similhante ! . . . 

— E não sei — disse meditativo Braz Luiz — 
como esse nome me desperta coisas da minha pri- 
meira mocidade ! 

— Pôde ser — tornou o hospede — que, no tempo 
em que vossemecê estudou, se fallasse ainda no 
lente fugitivo. 

— Creio que sim : ha de ser d'esse tempo que 
me vem estas vagas memorias — redarguiu o Olho 
de Vidro. — Creio até que elle teria sido contempo- 
râneo de meu sogro. 

— Provavelmente seria — obtemperou Francisco 
Luiz. 

— E a mim me está parecendo — acrescentou D. 
Josepha — que alguma vez ouvi meu pae proferir 
esse nome. 

— Ouviu ? — perguntou o hospede com o coração 
sobre saltado. 

— Ouvi, sem duvida. . . Francisco Lui^ de Abreu.,, 
Pois não ouvi ? quantas e quantas vezes ! . . . Que 
fim teria esse homem ? 

— Provavelmente morreu, senhora — respondeu 



o olho de vidro 14^ 

o hebreu; e proseguiu sem sensível mudança de 
rosto: — Pois ahi tem, senhor doutor Braz, outro 
exemplo de perseguição á medicina. Ainda bem que 
vossemecê não teve de provar que o seu apellido 
nada tinha que ver com o do medico fugitivo. 

— Nada — balbuciou Braz Luiz, receando que, 
depôs isto, disparasse a aíFrontosa pergunta de quem 
era filho. 

Francisco Luiz, n'este lance, lembrou-se da res- 
posta que o Olho de Vidro lhe mandara bastantes 
annos antes, e sorriu-se interiormente do dito d'a- 
quelle hebreu, que ao mesmo lhe escrevia presu- 
mindo que Braz Luiz de Abreu era filho sacrílego 
de um frade, senão fosse filho de três frades ao 
mesmo tempo. 

A pratica ficou por aqui, visto que a physiono- 
mia do dono da casa expressava nenhuma satisfa- 
ção de que ella se proseguisse. 

Todavia, D. Josepha, quando já estavam senta- 
dos á lareira, porque a tarde era de março, disse : 

— Não me sae da lembrança o nome de Fran- 
cisco Luiz de Abreu ! . . . A gente, quando entra a 
envelhecer, recorda-se de coisas da infância, esque- 
cidas no correr de muitos annos . . . 

— A envelhecer! — disse risonho o hospede — 
vossemecê, minha senhora, está ainda muito no vi 
gor da vida. Terá quando muito . . . 

— Trinta e sete annos — concluiu D. Josepha. 

— Pois ahi tem : ainda não chegou a meio cami- 
nho. E quem ha de dizer que já aqui tem esta se- 
nhorita, que representa dezoito, e apenas terá... 

— Treze — disse a mãe, correndo a mão pelos 



14S o olho de vidro 

cabellos negros da sua primogénita Anna Maria. 

— E estes mocinhos, doutor? que destino ten- 
ciona dar-lhes ? — perguntou o hospede. 

— Se o meu plano for avante, irá um para a com- 
panhia de Jesus, e outro para medicina. 

— Cuidado com a medicina ! — observou jovial- 
mente Francisco Luiz — Faça-os ambos jesuitas, 
que. os fará ambos dois grandes homens. 

— Pois D. José receia — dizia Braz Luiz algum 
tanto acrimonioso — que um meu filho, se for me- 
dico, possa parecer judeu ? 

— Deus me livre de receiar similhante coisa í 
mas a mim quer-me parecer que a inquisição, quan- 
do não ha judeus, encarrega-se de os fazer, talvez 
por ter lido as santas palavras de Jesus que resam : 
é necessário que haja escândalos. 

— Como amigo — acudiu Braz Luiz — lhe peço 
que não falle assim diante de alguém. Lembre-se 
que está em Portugal, D. José !. . . 

— Bem sei, meu amigo; e, se outra vez me es- 
quecer, rogo-lhe que m'o lembre. Agora me estava 
eu imaginando entre pessoas que muito me estimam, 
por isso me deixei levar d'uma invencivel propen- 
são a estigmatisar as injustiças, ou ellas partam dos 
reis, ou dos ministros, dos papas ou dos inquisido- 
res. D'isto, d'esta perigosa exempção e rudeza de 
espirito, procede não ter eu paragem certa sobre 
este solo cavado de abysmos, e andar-me sem- 
pre perigrinando de solidão em solidão, para ser 
ouvido da minha consciência somente . . . 

— Em nossa casa pôde fallar — retorquiu o dou- 
tor — como falia a sós com a sua consciência, D. José 



o olho de vidro i4g 

Aristizaval. A observação peço-lhe que m*a receba de 
bom animo, porque entende com o seu socego e deve 
servir-lhe n*um paiz que vossemecê conhece pouco. 

— Mercês, meu amigo ! — tornou Francisco Luiz 
de Abreu. — O que eu sei de Portugal é verdadei- 
ramente a historia da sua inquisição, e pouco mais... 
Ha pouco lembrou-me o nome de um condemnado 
ao fogo... também medico ou estudante de medici- 
na... mas... passou-me... Deixe estar... Deixe ver... 
Ah ! recordo-me... Chamava-se elle Heitor Dias da 
Paz... Vossemecê havia de ouvir fallar de Heitor 
Dias da Paz, que, segundo me aííirmaram, andaria 
por Coimbra desde 1701 até 1704, uma coisa as- 
sim, pouco mais ou menos. 

Braz Luiz fitara os olhos n'um ponto da fogueira, 
como quem finge que se está recordando, e disse, 
corridos dois segundos, com profunda tristeza : 

— Conheci-o. 

— Pessoalmente ? 

— Pessoalmente. 

N'este comenos, Braz Luiz, filando o ouvido, co- 
mo se ouvisse voz no interior da casa a chamal-o, 
ergueu se. 

— Ninguém te chamou, Braz — disse D. Josepha. 

— Parece-me que sim... ouvi que me chama- 
vam. 

— Não serão familiares do santo officio, que me 
requeiram para maior gloria de Deus !. . . — obser- 
vou o hebreu com cómico tregeito de quem se es- 
conde. 

— Venha comigo á sala, D. José, se não tem 
muito frio — disse o Olho de Vidro. 



/5o O olho de vidro 

— Quem fallou na inquisição que sentisse frio ? 
Estas praticas são excellentes no inverno... — res- 
pondeu Francisco Luiz, cuidando que o seu hospe- 
deiro amigo lhe ia solemnisar com toda a gravidade 
possivel os sustos de o ver a braços com o santo 
officio. 

Braz Luiz, entrado á sala, deu alguns passeios 
meditativo, examinou as portas receiando a curio- 
sidade da familia, e disse a meia voz ao muito attento 
e como espantado hospede : 

— Conheci-o, e conheci-o muito. 

— A quem ? ! perguntou como já esquecido Fran- 
cisco Luiz. 

— A Heitor Dias da Paz. 

— Ah !... já me não lembrava que estávamos fal- 
lando n'esse infeliz mancebo, cujos parentes conhe> 
ci em Amsterdão... Devo dizer-lhe, meu amigo, que 
Heitor e o pae de Heitor, que se chamava... 

— Francisco de Moraes Taveira. . . 

— Justamente... são considerados santos no mar- 
tyrologio ou cathalogo dos martyres hebreus. Isto 
presenciei eu e li nas dypticas da synagoga hollan- 
deza chamada a Casa de Jacob,,, Com que então 
conheceu vossemecê mui de perto... 

— Conheci, como se conhece um irmão — acudiu 
Braz Luiz. — Não lh'o disse diante de meus filhos, 
porque é meu dever de pae e de christão esconder 
d'elles coisas tristes da minha mocidade, por isso 
que o mundo, se m'as soubesse, faria d'ellas espi- 
nhos, que me entrassem pela fronte dentro e me 
levassem a morte ao coração. Vou contar-lhe com 
egual sinceridade á da historia de meu sogro, o que 



o olho de vidro i5i 

eu sei de Heitor Dias da Paz e . . . de mim. As mais 
antigas reminiscências da minha infância prendem- 
se a Heitor Dias da Paz. 

Ditas estas palavras, Francisco Luiz de Abreu ou- 
viu o bate de uma forte pancada no coração. Braz 
devia ver-lhe a súbita alteração do aspecto, se ti- 
vesse mais claridade a sala, e elles não estivessem 
sentados no recanto mais escuro d'ella. 

— Braz Luiz continuou : 

— Lembro-me de algumas coisas dos meus seis 
annos. Vejo uma mulher que me aperta ao cora- 
ção, e desapparece para nunca mais ser vista. Nem 
já sei que feições ella tinha, nem sei onde a vi. E' 
a recordação de um sonho isto, e pouco juais. Per- 
guntei depois quem era aquella mulher, e respon-; 
deram-me que fora uma visão ; e, se não era visão, 
mais tarde eu o saberia. Ora, as pessoas que po- 
diam dizer-m'o, porque assim m'o tinham promet- 
tido, morreram. Uma era Francisco de Moraes, e 
outra era o filho, o suppliciado Heitor. 

Francisco Luiz arfava ancioso : ia-lhe no intimo 
coisa mais attribuladora que o susto da morte. Braz 
deu conta do que havia indissimulavel em tamanha 
anciedade ; mas attribuiu tal inquietação ao natural 
condoimento do seu ouvinte. 

E, proseguindo, disse : 

— Heitor Dias chamava-me irmão ; e Francisco 
de Moraes abençoava-me como a filho. 

— Vossemecê vivia em casa d'elles ? 

— Vivia, desde os seis annos, como já lhe con- 
tei. Passados alguns, Heitor foi para Coimbra, e le- 
vou-me comsigo. Prestacionou-me para eu entrar 



j52 o olho de vidro 

no collegio de S. Paulo. No principio do anno de 
1704, Heitor Dias foi preso, e somente depois de 
1707 alguns mezes, soube que a inquisição o con- 
demnára a ser queimado vivo, e que o ancião — o 
desgraçado que não tinha outro filho, e chorava a 
mulher na sepultura ainda fresca — saindo ao en- 
contro da procissão do auto da fé, se suicidara em 
presença de Heitor. 

Francisco Luiz de Abreu levantou-se hirto, de gol- 
pe, tremente e pallido. 

Este movimento como que levantou o marido de 
D. Josepha pelos cabellos, semqueelle comprehen- 
desse a força mysteriosa que o repuchava. 

r— Que tem, D. José ? — perguntou o medico. 

— Eu nao comprehendo o horror da sua situação! 
—murmurou Francisco de Abreu em legitima lín- 
gua portugueza, tapando os olhos com as mãos con- 
vulsivas. 

— Não comprehende o que ? ! — interpellou Braz, 
estranhando grandemente a mutação de linguagem. 

— Como se chamava seu pae ? — perguntou com 
palavras intercortadas pela abafação o hospede. 

— Não sei. . . — tartamudeou o interrogado. 

— - Porque se chama Braz Lui^ de Abreu f Gomo 
ajuntou este sobrenome e appe Ilido ao seu nome 
baptismal ? 

-^Porque assim o achei escripto n'um abcedario 
da minha infância. 

— Que desgraça ! — exclamou Francisco Luiz, e 
começou passeando vertiginosamente na sala ! —Que 
desgraça. Deus do céo !. . . 

Braz encaraya-o com terrivel spasmo procurando 



o olho de vidro i53 

nos olhos do seu hospede algum symptoma de de- 
mência. 

N'isto, Francisco Luiz vae direito ao medico, 
como que o força a fazer pé atraz de espavorido, 
e diz-lhe : 

— Vossemecê ama muito sua mulher ? 

— Se amo muito minha mulher ? Como a Deus, 
mais do que a Deus ! mais do que aos meus fi- 
lhos!... 

— Fitou-o com os olhos cheios de lagrimas o 
hospede, e disse-lhe : 

— Não me falle por alguns minutos... não me 
falle... deixe-me pensar... mas o melhor é que 
eu me vá, e voltarei n'outro dia . . . 

— Não. . . ha de explicar-me o que é isto. . . A 
sua linguagem é outra ... Ha terrivel segredo aqui, 
ou o meu amigo enlouqueceu. - . Tire-me d'esta in- 
certeza, por quem é. . . 

Deteve-se silencioso largo espaço o hebreu. Es- 
tava aquelle afílictissimo homem perguntando á sua 
consciência, se não seria mais grato a Deus e á hu- 
manidade que um peregrino vindo d'além mar não 
entrasse um dia aos paços de Manuel de Sousa 
Coutinho a dizer a D. Magdalena de Vilhena que 
não podia ser mulher do homem que lhe chamava 
esposa ! Se não seria mais humano e santo que 
aquelle peregrino passasse por diante da casa dos 
felizes, e dissesse : «Deixae-vos viver e morrer di- 
tosos na vossa ignorância ! Não serei eu quem vá 
vestir- vos a mortalha, e dizer- vos : sepultae-vos!» 

Assim pensava Francisco Luiz, e curava já de 
remediar o alvoroço em que pozera o seu amigo, 



1^4 O olho de vidro 

quando este o abraçou com Ímpeto, e lhe disse em 
tom violento : 

— Quem é meu pae ? Quem sois vós. homem ! 
Respondei, que eu sinto o peito alanceado de mor- 
taes agonias! 

— Falle baixo, senhor Braz Luiz de Abreu — disse 
moderada e placidamente o hospede — Falle baixo,, 
que está alli dentro a mãe com sete filhos. 

E desapertou-se dos braços d'elle para fugir. 

— Não í — exclamou o medico— não irá de minha 
casa, sem me dizer o que sabe do meu nascimento. 
Que importa que me diga que sou filho de um he- 
breu? que meu pae morreu queimado? que Heitor 
Dias era meu irmão? que o meu appellido é o de 
algum facinora ? Diga, diga tudo, que a mim basta- 
me a consciência da minha vida honrada para me 
acobertar dos insultos do mundo! Farto d'elles es- 
tou eu, por que me chamam engeitado! Diga-me 
seja o que for, que eu lh'o peço com as mãos er- 
guidas ! Por Deus não minta, senhor! Conheceu 
meu pae ? conheceu minha mãe ? 

— Conheci. 

— Jura-m'o pelos Santos Evangelhos? 

— Eu não reconheço a santidade dos Evangelhos. 
Juro-lh'o pela honra d'este homem, d'este hebreu 
queimado em estatua, d'este homem sem terra nem 
familia, chamado Francisco Luiz de Abreu. Juralh'o 
o homem que recebeu nos braços ha quarenta annos 
uma creancinha, que depois se chamou Braz Luiz 
de Abreu. Jura-lh'o o homem que depositou essa 
creancinha, quando os esbirros da inquisição o per- 
seguiam, nos braços de Francisco de Moraes Ta- 



o olho de vidro i5í> 

veira, de Villa Flor. Jura-Ih'o o maior amigo de seu 
pae ! Jura lh'o o homem que enchugou no seu rosto 
as ultimas lagrimas de sua mãe. . . 

— Mas o nome de meu pae — atalhou Braz de 
joelhos, com as mãos erguidas e trementes. — O no- 
me de meu pae, senhor Francisco Luiz de Abreu. 

— Dir-lh'o hei ao ouvido — disse o hebreu, incli- 
nando-se á orelha do medico. 

Braz expediu um brado estridente, ergueu-se de 
salto, e clamou : 

— E o nome de minha mãe ? 

— Pergunte a sua irmã, á mãe dos seus sete fi- 
lhos, como se chamava a mãe d'ella. 

— Como é, meu Deus ? ! como é ? í por caridade, 
salve-me d*esta duvida atroz... Minha irmã!... 
quem é minha irmã, senhor ? 

É a filha de sua mãe. 

Abriram-se os batentes de uma das portas da 
sala. A mulher que entrou, fechando a porta para 
que os sete filhos a não seguissem, impetuosa, co- 
mo cega de fúria, ou impulsada de um grande ter- 
ror, terror como de incêndio que ameaçava devo- 
rar-lhe as creanças, ia lançar-se nos braços do ma- 
rido ; e, como lhe faltasse o amparo d'elles, caiu de 
rosto no pavimento, e soltou do peito uma soada rou- 
ca, similhante ao estallido de todas as fibras da vida. 

O quadro era de mais pavor que pôde exprimir 
lingua humana. 

Francisco Luizpoz a mão na fronte glacial e disse 
entre si : 

— Maldito eu seja, que trouxe a desgraça e a 
vergonha a esta família ! 



i56 O olho de vidro 

Braz Luiz inclinou-se a levantar a mãe de seus fi- 
lhos nos braços que a não podiam suster. Chamou 
as filhas mais velhas, e mandou-lhes que levassem 
sua mãe ao leito. Acercou-se de Francisco de Abreu 
que estava chorando com a face encostada ao alisar 
de uma porta, e diçse-lhe brandamente: 

— Senhor Abreu, não se arrependa ; foi Deus que 
o enviou. Não chore, que as minhas lagrimas ama- 
nhã estão enchutas : ha de seccar-m'as o fogo sa- 
grado da minha religião. Tenho Jesus Christo na 
minha alma. Agora comprehendo que milagres se 
operam nas maiores angustias do homem. Os meus 
filhinhos serão sempre os bens que Deus nosso Se- 
nhor me confiou. Minha irmã está debaixo da mes- 
ma divina mão. Ha de resignar-se, ha de santifi- 
cal-a a saudade, incenso de lagrimas que o Senhor 
lhe ha de aceitar e retribuir em consolações. . . 

Susteve-se n'esta exclamação arrobada e ungida 
de santa resignação. Momentos passaram silencio- 
sos. . . Depois, levando frenéticas as mãos á cabe- 
ça, exclamou : 

— Mas eu hei de separar-me para sempre de mi- 
nha esposa... do anjo bemdito de toda a minha 
vida!. .. 

E atirou-se ao peito soluçante do homem que, 
quarenta annos antes, o aquecera ao calor de suas 
faces, creança de vinte e cinco dias. 



XV 



Angustias que existiram 



Por volta das dez horas d*aquella noite Braz Luiz 
de Abreu saiu de casa do vigário capitular, e re- 
colheu-se ao convento de frades antoninos, convi- 
sinho da egreja da ordem terceira de S. Francisco, 
na qual o familiar do santo officio era irmão profes- 
so. Que noite aquella, que lagrimas choradas aos 
pés da cruz, e no seio do venerando prior da casa 
hospitaleira do maior infeliz que se alli albergara ! 

Ao aclarar-se a manhã, o prior e dois frades de 
Santo António, varões de grandes annos e virtudes, 
chegaram á porta de D. Josepha de Abreu. Abriu- 
se-lhes a casa, em cujo recesso tinha ido um cho- 
rar soluçante, e passado horas infernadas, sem mais 
desafogo que o atirarem-se por terra aquella mulher 
e sete filhos, ignorantes da angustia de sua mãe, 
pedindo misericórdia, diante de um santuário. 

De joelhos se quedaram, quando os três frades. 



i58 O olho de vidro 

sublimes de religioso terror, appareceram no limiar 
da casa da oração. 

— Irmã, disse o prior, erguei-vos e mais as vos- 
sas cinco filhas, e vinde. 

— Para onde, senhor? — murmurou ella com os 
olhos no pavimento e as mãos sobre o seio. 

— Estão dadas ordens para serdes recebidas no 
conservatório de S. Bernardino, Recolhimento de 
Terceiras de S. Francisco. 

— E eu não hei de ver mais. . . — exclamou ella, e 
retraiu-se como aterrada do delicto de tal pergunta. 

— Vinde, senhora e meninas. Emquanto a vós, 
moços, esperae que vos digam o vosso destino. 

Era na madrugada de 25 de março de 1732. 

Regorgeavam os festeiros da primavera, os pas- 
sarinhos emboscados no arvoredo dos quintaes. A 
geada branquejava as ruas, e do lado da rua asso- 
prava frigidissimo vento. As meninas aconchegavam 
das faces escarlates os capuzes das mantilhas. A mãe 
ia esquecida no banho ardente das lagrimas. 

Os antoninos caminhavam mesuradamente abeira 
d'ellas, com as mãos enfiadas nas mangas dos há- 
bitos. O prior ia ciciando quaesquer palavras, que 
deviam de ser as suas orações da manhã, ou ro- 
gava ao Senhor dos afflictos que esteiasse o animo 
d'aquella mulher singularmente desgraçada. 

Abriu-se a portaria do conservatório de S. Ber- 
nardino. Os frades ficaram áquem da porta, que 
rouquejara nos gonzos com o quer que fosse de 
muitos gemidos unisonos de fundissimos cárceres, 
soados por abobadas subterrâneas. 

D. Josepha quando encarou no interior do recinto 



o olho de vidro j5g 

lobrego da entrada, deixou- se rasgar desde o inti- 
mo d'alma por um grito, mais desesperado, mais 
blasphemo que invocativo da divina graça para tão 
acerbo cálix. 

— Haja-se com paciência, senhora! — disse o prior 
— Olhe que desde este momento o Altissimo a está 
vendo e sondando-lhe o coração. A ignorância não 
podia ser culpada até hoje; mas d'hora em diante, 
a reluctancia com os deveres que lhe impõe a jus- 
tiça do céo e a justiça da terra é crime mais que 
muitissimo grande . . . Entendeu-me, senhora ? 

— Entendi, senhor padre-mestre prior — respon- 
deu a confessada do prelado dos antoninos. 

Fecharâm-se as portas. 

A directora do Recolhimento, silenciosa como um 
phantasma, conduziu D. Josepha e as cinco meni- 
nas ao longo de um pequeno corredor, com cubi- 
culos lateraes, e mal alumiados da luz do dia ainda 
froixa. No extremo do corredor abriu-se a portinha 
de uma cella espaçosa. 

— Aqui está, senhora — disse a directora, e au- 
sentou- se. 

As meninas romperam em grande choro, assim 
que a livida directora saiu ; logo, porém, lhe asso- 
mou a mulher de macerado aspecto, no limiar da 
porta, e disse : 

— Aqui n'esta casa são permittidos os prantos da 
penitencia, e só esses, senhoras ! 

Retrocedeu, a tempo que D. Josepha se abraçava 
de um amplexo em todas as cinco filhas, e lhes dizia : 

— Choremos baixinho. 

Meia hora depois d'este lance, os dois meninos 



i6o O olho de vidro 

de Braz Luiz de Abreu, um de dez, outro de nove 
annos, eram conduzidos ao convento de Santo An- 
tónio, onde encontraram seu pae vestido com o 
habito de irmão professo da ordem terceira. Esta- 
caram defronte d'elle n'um glacial spasmo. O me- 
dico tomou-os ambos, com as faces aconchegadas 
um do outro, e disse-lhes : 

— Não haveis de chorar, não, meninos ? Ficareis 
aqui por algum tempo. Aqui vos deixo com amigos e 
mestres. Fazei muito por aproveitar o tempo, e tra- 
balhae por ganhar o coração doestes santos homens. 

Nem uma lagrima exsudou aos olhos d'aquelle 
pae! O fogo da divina graça seccara^lhe as fontes 
da alma. Era já o ser humano mutilado dos órgãos 
da vida de relação. Era o homem sobre-natural, 
aquella coisa inexprimivel de que se formam o anjo 
ou o demónio, as visões beatificas ou o revolutear 
escandecente da legião. 

Os frades entraram a tomar conta dos meninos. 
O prior, ao pegar das mãos d'elles, disse : 

— E' tempo. Vá á sua vida, senhor Braz de Abreu. 

— Adeus, filhos. Abençoe-me, reverendo padre í... 
— disse o irmão professo da ordem terceira de S. 
Francisco, e saiu. 

Sobre-humana coragem ! Entrar na casa, onde, 
vinte e quatro horas antes tinha almoçado com sua 
mulher e filhos ! Entrou. Foi ao oratório de sua mu- 
lher. Se reparasse, poderia ainda ver signaes húmi- 
dos de lagrimas no genuflexório e na peanha do 
Christo de marfim. Estava orando, quando ouviu 
passos na escada. Levantou-se para fechar a porta, e 
furtar-se a dar explicação d'aquelle habito, d^aquella 



o olho de vidro i6i 

soledade. Não foi a tempo. Era Francisco Luiz de 
Abreu. Caminhou para elle com firmeza e risonho 
semblante : 

— Meu bemfeitor, disse elle, aqui me tem. Faço 
grande diíFerença do que era ha quarenta annos. 
Então, viu-me nas faixas infantis, e teve-me junto do 
seu coração. Abrace-me agora vestido na mortalha. 

O hebreu apertou-o com vehemencia. As palavras 
não podiam sair do peito anciado e da garganta afo- 
gada por suspiros. Passado tempo, disse : 

— E era preciso isto ? A conformidade com a von- 
tade de Deus exprime-se com vestir esta túnica, e 
apertar este cordão? Não é o homem tão grande 
na dôr, sem a celebrar com à magestade fúnebre 
doestes hábitos ? 

— O homem é um verme, e mais nada, murmu- 
rou Braz Luiz. — Se a religião me não soldar os 
pedaços da vida, se me ella não tirar d'este tumulo 
em que estou caido, que hei de eu lazer tão esma- 
gado até á medula dos ossos ? 

— Pois os seus filhos ? que é dos seus filhos, Braz 
Luiz ? 

— As minhas filhas assistem, as innocentinhas, á 
penitencia de sua mãe. 

— Penitencia de quaes peccados ? 

— Oh! calle-se.!. . . por Deus, calle-se, diante do 
filho de António de Sá ! Se não era crime o meu 
viver para que me avisou ? . . . 

— Diz bem. . . Perdôe-me. 

— Não só lhe perdoo... que lhe agradeço... 
Agora é que eu me gelo de horror do meu passa- 
do!. . . Nunca tive um abalo que me dissesse: «por- 



102 . O olho de vidro 

que lhe queres tu assim tanto, tanto, que em quin- 
ze annos teus olhos não viram outra mulher sobre 
a terra!» As irmãs não se amam assim. . . Ai!. . . 
e eu que assisti á morte de minha mãe, ainda lhe 
beijei as mãos... Alli sim, então senti convulsões 
de espirito extraordinárias, das quaes não podiam 
ser, motivo o amor que eu tinha á filha. . . Não; era 
Deus que me avisava. . . Quinze annos, quinze an- 
nos de felicidade sem sombra... os meus filhinhos, 
os meus sete anjos. . . ahi me 6cam. . . 

— Onde vae ?. . . 

— Onde vou ? ! 

E chorava com tamanho afogo que lhe vieram 
umas anciãs mortaes. 

— Deus me mate já, já! — vociferou por entre o 
repuchar dos gritos abafados. — Sou fraco, sou mi- 
serável lodo! Dê-me animo, salve o filho do seu 
desventurado amigo. Creia no Deus dos martyres, 
para que a sua voz me alente, e eu não seja con- 
fundido pelo escarneo da multidão. 

— Creio no Deus de todos os martyres, senhor 
Abreu. Creio — atalhou Francisco Luiz. — Soffra, 
chore, despedace-se sem amaldiçoar, e verá que 
está comsigo o Deus de Sócrates, o Deus de Saulo, 
o Deus de António de Sá, o Deus de Heitor Dias 
da Paz, o meu Deus, o creador .de todos os mar- 
tyres e algozes, de todas as cruzes e de todos os 
postes levantados sobre a lenha que vae abrasar 
um corpo. E' Jesus de Nazareth o seu Deus ? Sir- 
va-o, tome-lhe dos lábios a esponja e sorva- lhe o 
fel, ame os inimigos, valha aos desvalidos, acolha 
os orphãos á alma que os aconselha, dê-lhes tecto 



o olho de vidro i63 

que os cubra, e olhos que os chorem. Assim faziam 
os justos segundo Platão, os justos segundo Boud- 
dha, os justos segundo Philon, os justos segundo 
Jesus, os justos segundo Luthero. Ame, condoa-se, 
e ampare como elles, e será salvo para melhor 
mundo, e sentirá n'este as supremas alegrias da 
consciência... 

— Oh ! não é isso — atalhou Braz Luiz — ha uma 
só religião, e uma só salvação. 

— Pois bem: haja uma só, e seja a sua. Todas 
ellas dão as suas melhores coroas aos seus marty- 
res, coroas tecidas dos mesmos espinhos, e aben- 
çoados da mesma benção; mas é preciso soíFrer, 
soffrer sem infligir tortura, sem retalhar o peito de 
outra fé para lhe ir lá dentro remoer com ponta de 
ferro em brasa a consciência. Braz Luiz de Abreu, 
respeito grandemente a sua angustia, e dou graças 
ao Senhor do céo e terra que lhe está vertendo 
bálsamos no roer do cancro que lá deve ir n'essa 
pobre alma. Siga a sua religião, eu lhe seguirei os 
passos n'ella, e ajoelharei ao seu lado, sem receio 
de que estejamos cada um de nós orando a diíFe- 
rentes creadores. E seus filhos? E seus filhos? — 
proseguiu Francisco Luiz — quer que eu vele pelo 
seu futuro d'elles? 

— Mercês, meu amigo. Meus filhos hão de ter 
pão e futuro. Trabalhei ; tenho ahi uns bens. Con- 
tinuarei a trabalhar para augmental-os. Minhas cin- 
co filhas hão de ser freiras ; meus filhos seguirão o 
sacerdócio. 

— Qual é o seu destino, Braz ? 

— Tomar ordens clericaes. Hoje mesmo vou ca- 



164 o olho de vidro 

minho de Lisboa. E vossemecê deixa Portugal ? 

— Ainda não. 

— Adeus, pois, até quando ? . . . Até á eternidade ? 

— Ainda não. Ver-nos hemos antes. Não se mor- 
re assim depressa. . . Os desgraçados são de bron- 
ze. Quer Deus que elles vivam muito para serem 
muito vistos como pompas do mal necessário. 



XVI 



o padre Braz 



o famigerado author do Portugal Medico appa- 
receu em Lisboa, cingido pelo cordão franciscano, 
sobraçando o manto pardo^ fronte abatida, faces 
sulcadas e desfeitas, a luz dos olhos amortiçada, 
e um amarellido de rosto accusando tanta afflic- 
ção interior, que não havia olhos enchutos que o 
vissem. 

Por casas de bispos e mais jerarchias da egreja 
andava o irmão professo da ordem terceira, solici- 
tando a sua ordenação de missa, e a concessão de 
recursos que o ajudassem a converter em convento 
o conservatório de S. Bernardino, onde tinham sido 
recolhidas D. Josepha e suas filhas. 

D. João V, informado da resolução mysteriosa do 
celebre Olho de Vidro, cujas facécias o tinham muito 
alegrado, quando sua magestade, em hora de pa- 
chorra, consentia que o seu medico lh'as lesse, de- 



j66 o olho de vidro 

sejou ouvir da bocca do famoso Braz Luiz uma his- 
toria escassamente conhecida dos altos dignitários 
da egreja. 

Braz Luiz foi levado ao paço pelo doutor José 
Rodrigues de Abreu, medico de el-rei. O filho de 
Pedro II revelou o desejo que tinha de saber que 
fundo reviramento se operara no espirito de um 
pae de sete filhos, para, no vigor dos annos, se pri- 
var das caricias da fainilia, e defraudar a esposa de 
marido e os filhos de pae. 

O medico referiu a sua historia, a sós com o 
curioso monarcha, depondo na consciência e religio- 
sidade de el-rei os pontos melindrosos e secretos 
da sua vida. Sènsibilisou-se o soberano, e em paga 
da confidencia lhe fez mercê das rendas do real 
d' agua para que as elle applicasse á fundação do con- 
vento de D. Josepha. Ordenou mais el-rei, de har- 
monia com o núncio, que se não delongassem a Braz 
Luiz de Abreu as ordens solicitadas, de modo que 
entre umas e outras não interferisse mais tempo 
que o necessário, em conformidade com o máximo 
gráo da dispensação em taes casos usada. Por ma- 
neira que Braz Luiz, ao cabo de seis mezes, estava 
clérigo de missa. O concilio tridentino permittia e 
explicava santissimamente todas estas coisas, que 
hoje se nos affiguram monstruosas irregularidades. 
N'este anno da graça de 1866, pôde qualquer no- 
velleiro citar o concilio tridentino, por que é presu- 
mivel senão certo, que por amor do casamento civil 
toda a gente de alguma curiosidade reveza a leitura 
das decretaes com a dos concilios. 

Pois o logar do concilio tridentino que permittia 



o olho de vidro 16 j 

desatarem-se esposos, e vestirem hábitos, e profes- 
sarem, e deixarem os filhos sem pães, é a Sess, 24 
de Matrimonio y Can, g. 

Ao mesmo tempo, o padre Braz Luiz de Abreu 
foi nomeado syndico do convento permittido, e, por 
um breve, também nomeado medico d'elle. 

Tornou-se o padre de Lisboa para Aveiro, e en- 
tendeu logo nas obras do convento novo. Podia, se 
quizesse, dizer logo missa nova, mas reservou-a 
para o dia em que sua mulher e filhas professas- 
sem. 

A edificação do convento fez-se n'um anno. So- 
bravam os recursos, além do subsidio real. Os ca- 
valheiros da terra concorriam com grandiosos dona- 
tivos, e muitas esmolas de procedência desconhecida 
iam dar ás mãos do syndico. O hebreu Francisco 
Luiz observou que o seu dinheiro maldito não quei- 
mava as mãos ungidas do sacerdote. 

Algumas vezes o padre Braz Luiz de Abreu en- 
trou ao locutório ou grade para se entender com a 
mãe de seus filhos sobre coisas attinentes á profis- 
são. Dizem as memorias que nunca jamais lhe elle 
vira o rosto, porque D. Josepha o velava com um 
espesso véo negro. * 

Aos vinte e quatro de dezembro de 1784, passa- 
dos trinta e três mezes de noviciado, de cruelissi- 
mas dores, de inenarráveis desmaios, as cinco filhas 
de D. Josepha, trajadas para a festa do martyrio 



1 Diccionario bibliog. do sr. I. F. da Silva. Art. Bra^ Lui^ 
de Abrei4^ 



i68 O olho de pídro 

como sua mãe, ajoelharam ao lado d'ella, e abdica- 
ram nas mãos da prioresa tudo que podesse pare- 
cer ao mundo coisa melhor do que o escuro abys- 
mo em que de repente se viram despenhadas. 

Aquelle acto era uma crucificação atrocissima 
para a filha de António de Sá, porque ella tinha 
perdido a fé. Nunca se lhe haviam entranhado mui- 
to as crenças na religião do Calvário, porque da in- 
differença religiosa, em que lhe correra a infância, 
passara a ser educada em convento francez, onde a 
piedade sincera de alguma peccadora eontricta era 
mettida a riso por alegres peccadoras, de quem po- 
deria ser que os próprios anjos andassem namo- 
rados. 

Sua mãe tinha vivido uniforme com a religiosi- 
dade do marido; e, por fins de vida, rejeitara e 
apagara da alma os vislumbres da piedade, porque, 
dizia ella; «Ha certas lagrimas, que apagam toda a 
luz de religião, seja ella qual fôr.» 

A religião de Braz Luiz pareceu-lhe a ella muitas 
vezes ostentosa, pouco menos de hypocrita, e sus- 
tentada á custa da razão. Todavia, como discreta e 
amantíssima d'elle, não lh'a impugnava, nem se es- 
quivava a seguil-o nas publicas demonstrações de 
sua piedade. 

Quando ella, desde os recôncavos d'alma, caiu 
aos pés de Christo, foi na hora tremenda em que 
se ouviu nomear filha do pae e mãe de seu ma- 
rido. Orou então, para não morrer, ou pôde ser 
que orasse para ser arrebatada á sua angustia pela 
mão de Deus, ou fulminada por poder satânico. 
N*aquellas orações ninguém sabe o que a alma pensa. 



o olho de vidro 16 g 

Encerrada n'um convento, com cinco formosas 
meninas, que se encostavam ás rexas de ferro a 
olhar cheias de saudade por esse céo fora, e se- 
guiam as avesinhas de arvore para arvore, de monte 
para monte, a infeliz mãe adivinhava os colloquios 
das pobrinhas com o céo impassível, e fugia-se d'el- 
las, para que a não vissem chorar. Voltava a vêl-as, 
e trazia ainda vidrados na face os prantos. Elias 
aqueciam-os com beijos, e, em vez do fervor pie- 
doso e consolativo de sua mãe, ouviam-Ihe suppli- 
cas com que ella lhes pedia perdão de as ter ge- 
rado. As meninas perguntavam-lhe porque estavam 
assim captivas e desterradas da vida tão sem vonta- 
de, e a mãe não podia responder-lhcs : «E' porque 
sois filhas de meu irmão, e minhas filhas.» 

Que importava ? 

Tinham ajoelhado, tinham renunciado, tinham 
professado, tinham assistido á missa nova de seu 
pae, d'aquelle homem de faces lívidas, que as não 
apparentava mais translúcidas de uma alegre cons- 
ciência do que as teria um sacrílego, que houvesse 
cuspido no cibório e calcado aos pés a hóstia. E 
depois, viram-no assomar no púlpito, e pregar com 
elegâncias de primoroso lapidario de palavras o ser- 
mão da profissão, o sermão d'aquelle enterro de 
seis vidas, de seis corações apunhalados, mortos, 
com authoridade do concilio tridentino, e com mui- 
tos applausos dos prelados, do rei e dos edificados 
espectadores da tragedia. 

Estavam professas. A de trinta e nove annos, 
que representava vinte cinco formosas primaveras, 
ao entrar n'aquelle antro de S. Bernardino, a filha 



i']0 o olho de vidro 

de D. Maria Cabral estava desfigurada como na ul- 
tima velhice. Anna Maria, de dezeseis, e Sebastia- 
na Ignacia, a mais nova, de onze — onze annos e 
professa com um breve de Sua Santidade ! — todas 
cinco, seguindo sua mãe da egreja ao claustro, 
olhavam contra o chão como a procurarem a cova 
que se lhes abrira. 

E depois, se choravam, saía-lhes a prioresa e di- 
zia-lhes ; 

— Filhas, lagrimas de penitencia, de penitencia... 
E se, do interior do convento, ia ao padre Braz 

a noticia de que suas filhas estavam deperecendo e 
morrendo, o santo, calejado para uns dardos que 
varam e matam todo homem menos santo, respon- 
dia : 

— E' o Senhor que as chama . . . Deixal-as, dei- 
xalas ir para o coro das virgens. 

E, rodeado de muitos e piedosos livros, escrevia 
a Lusíada sacra, a origem ecclesiastica do império 
lusitano, e levava mão do trabalho para assistir aos 
seus doentes, que curava ou enviava a melhores 
mundos gratuitamente. 

Os moços Agostinho e Pedro lá estavam estu- 
dando latinidade no convento de Santo António. 
Ao principio perguntavam por sua mãe, por seu 
pae e por suas irmãs. Um doutissimo frade, lente 
jubilado, respondia-Ihes : 

— O melhor pae é Deus, a melhor mãe é Nossa 
Senhora, as melhores irmãs são as três pessoas da 
Santíssima Trindade. 

Sâ theologia ; mas os mocinhos queriam sabe 
de sua mãe, de seu pae e de suas irmãs. 



o olho de vidro iji 

Deram em não estudar, de tristes que viviam. 
Foram accusados ao padre Braz, que entrou a ad- 
moestal-os no convento. Os meninos abraçaram-se 
n*elle, e pareciam contentes. 

— E nossa mãe ? perguntava Agostinho. 

— E nossas irmasinhas ? perguntava Pedro. 

E Braz Luiz baixava os olhos sobre o seio, per- 
manecia n'um recolhimento angustiado, e saía com 
estas palavras : 

— E' verdade !. . . e vossa mãe f. . . e as vossas 
irmasinhas ? 

Mas, apenas as orelhas da sua alma escutavam 
estas lastimas do coração, o padre ajoelhava na 
postura de mentecapto, batia punhadas no peito, e 
clamava: 

— Pequei ! pequei ! perdão, meu Redemptor ! 



XVII 



o inferno, como elle épossiYel 



Eu negaria minha fé a quem me dissesse que a 
prece dos infelizes sem culpa não ha Deus que a 
ouça e attenda. Se ha I . . . 

N'um dia de junho de 1735, ao sexto mez de 
professa, soror Josepha da Cruz, depois de três se- 
manas de aturada hemoptyse, amanheceu com uns 
spasmos convulsos, chamando pelas filhas, que a 
rodeavam, e ella não via. Accudiram as freiras, e 
ordenou a prioreza que fosse chamado confessor e 
medico. Avisaram o padre Braz, syndico do con- 
vento. Estava elle resando as contas, e voltou o 
rosto da pessoa que lhe levou o aviso, para atar 
um pater noster interrompido no fiai voluntas tua. 
Três vezes repetiu com seraphico arrobamento o 
fiat voluntas tua — «faça-se a tua vontade» — e de 
si para si entendeu que aquelle seu despego em ta- 
manho transe, ao annunciarem-lhe que sua mulher 



o olho de vidro lyS 

estava em trabalhos de morte, era egual ao de 
muitos lances de natureza idêntica, e santo stoi- 
cismo, contados no Flos-Sanctorum, e Vita patrum. 

Concluído o ultimo mysterio do rosário, asper- 
giu-se de agua benta, e foi caminho do convento, 
resmuneando o psalmo:... Amplius lava me ah ini- 
quitate mea : et a peccato meo munda me, Quoniam 
iniquitatem meam ego agnosco . . . etc. 

Ao avisinhar-se da cella da enferma o syndico, 
disse a prelada : 

— Irmã Josepha, aqui está o nosso padre syndico 
Braz Luiz. 

Soror Josepha não vellou o rosto, porque já não 
entendera o aviso da prioreza. 

Braz Luiz deu de olhos fitos na sua companheira 
de quinze annos. Ressumou-lhe ao rosto um suor 
frio, cambaleou, e amparou-se á ombreira da porta. 

Depois, tornou em si, invocou a força dos san- 
tos, compoz o semblante, acercou-se do catre da 
moribunda, e balbuciou: 

— Soror Josepha da Cruz ! 

A enferma estremeceu, despregou as pálpebras, 
circumvagou as pupilas esgazeadas, e retrahiu-as 
logo, como se a face do padre lhe fulminasse faís- 
cas de raio aos olhos. 

— Os aprestos para a extrema-uncção — disse o 
syndico. 

— Venha o capellão ministrar-lh'a — ajuntou a 
prioreza. 

— Não, nossa madre: serei eu — disse o padre 
Braz. 

Accorreram os aprestos, emquanto Braz Luiz 



i']4 O olho de vidro 

desceu á egreja a envergar uma cotta com estola 
roxa. Deu signal o sino, ajuntaram-se as freiras aco- 
lytas, uma com a cruz, outra com velas, outra com 
a caldeirinha, e muitas cantando alternadamente os 
versos do psalmo Miserere mei Deus* Entrou á cella 
o padre, precedido da cruz e da caldeira. A prio- 
reza observou que as uncçôes deviam ser feitas 
com presteza, omittindo se as cerimonias usadas 
quando não ha receio de que o enfermo expire an- 
tes de ungir-se. Principiou o padre a ungir-lhe os 
olhos; e logo notaram que os dedos lhe tremiam 
convulsivamente. Esteve com a mão suspensa, es- 
perando que o tremor aquietasse. Desfitou os olhos 
da face da moribunda, e viu as cinco filhas ajoe- 
lhadas em carreira com os cirios empunhados, e os 
rostos caídos sobre os seios. Gontemplou-as com 
olhar embaciado de lagrimas, e na bocca um sor- 
riso triste, que poderia ser qualquer coisa do usual 
sorrir dos santos, e também poderia ser a expres- 
são vulgar da insânia. Esta equivoca expressão, po 
rém, sumiu se, e as lagrimas saltaram a quatro. De- 
pois, foi um conflicto aquelle para ser visto dos 
que apenas conhecem alguns milhares de flagellos 
n'esta vida ! Caiu em joelhos, pegou das mãos am- 
bas da enferma, e exclamou: 

— Leva-me comtigo, leva-me comtigo, ó santa, ó 
mai tyr ! 

As cinco meninas levantaram um alarido de ge- 
midos, e romperam por entre as freiras a cobrirem 
com os braços a moribunda. . . a morta. 

Braz Luiz arquejava encostado ao leito. Não ou- 
savam pôr-lhe as freiras as suas mãos para o re- 



o olho de vidro jjS 

trairem d'alli; mas, todas a um tempo, lhe pediam 
que offerecesse a Deus, em beneficio da alma de 
Soror Josepha, as angustias por que tão santa e 
heroicamente quizera passar e ser provado. 

O padre levantou-se de Ímpeto, olhou em torno 
de si, e disse: 

— E que me dá Deus ? Sim ! que me dá Deus ? 
As freiras contemplaram-se estarrecidas e frias 

de religioso medo. 

— Pois então! — proseguiu elle com tregeitos de 
louco e semblante descomposto — pois então, não 
houve um raio de graça para esta santa mulher! não 
seria divina justiça que ella achasse aqui as alegrias 
de uma consciência pura, de um coração sem man- 
cha ! Por fim . . . é certo que eu te matei minha in - 
nocente victima? 

E, dizendo, acurvou se sobre o cadáver, beijou- 
Ihe os olhos soffregamente e cobriu-lhe a testa de 
lagrimas. 

Era isto já uma vertigem, que terminou pelo de- 
liquio. 

Foi chamado o capellão e alguns frades visinhos 
de Santo António. Levaram d'alli o padre para ac- 
commodarem logo os escrúpulos das freiras escan- 
dalisadas. Ia sem accordo, nos braços dos antoni- 
nos. As filhas viram-no ir sem lastima. Estavam em 
volta da barra de sua mãe. Aquelle homem fazia- 
Ihes terror, senão ódio. Poderia ser que elle tivesse 
por si a corte celestial ; mas n'este mundo não havia 
alma que o pranteasse. Propriamente os frades in- 
criminavam-no de pusillanime e vacillante na refor- 
ma de vida. As freiras — santo nome de Deus ! — 



i']6 O olho de vidro 

davam como perdida a alma d'aquella que morrera 
sem confissão : e, porque eram santas, foram ern 
coro exorar ao Senhor que não pesasse na sua ba- 
lança sem o contrapeso da misericórdia, as palavras 
blasphemas do padre syndico. 

Braz Luiz, quando cobrou sentimento, achou-se 
na sua pobre alcova, com dois frades á cabeceira. 
Escutou-os. O que elles diziam eram coisas formi- 
dáveis sobre o inferno sem fim. Stygmatisavam-lhe 
a fraqueza, a impenitencia, a temeridade de se apro- 
ximar da religiosa moribunda, se não ia santamente 
disposto a dar um exemplo de desprendimento dos 
affectos que havia renunciado no acto da sua sagra- 
ção a Deus. 

O padre pediu perdão do escândalo, e rogou que 
o deixassem só para examinar sua consciência. 

Deixaram-n'o os frades e foram-se ao seu con- 
vento^ d'onde tinham saído em jejum. 

Braz Luiz de Abreu soffria tanto, que duvidava 
do poder da oração ou não sabia orar. Punha os 
olhos na face do Christo, e logo os descia como 
aterrado do pensamento sacrilego que a intercaden- 
cias lhe agonisava a alma. 

Aquella religiosidade, que, horas antes, parecia 
robusta e sentida como a dos martyres, estava a 
desfazer-se miseravelmente na incerteza, no despre- 
zo, na negação das mais santas coisas do christia- 
nismo ! Alli se estava vendo o que em verdade é o 
homem, e quanto são morredoiras as phantasias do 
espirito arrancado ás leis da humanidade, quando 
a mão da desgraça descarrega a maça de bronze no 
peito que tem dentro sangue e fibras. O grande edi- 



o olho de vidro ijj 

ficio d'aquelle selvagem ascetismo estava a derruir- 
se. O coração de quarenta e três annos dava pulos 
como para espedaçar o arnez apertado com arcos 
de ferro debaixo do habito franciscano. A imagem 
de Francisco Luiz perpassava- lhe execrandissima 
por diante dos olhos, cravados n'um revolutear de 
visões extravagantes que o assediavam, á volta do 
cadáver d'aquella mulher assassinada sem culpa 
nem fé para aceitar de boamente uma tão grande 
quanto immerecida penitencia. 

Fez-se em volta d'elle a solidão dos^grandes des- 
graçados, que já nem sequer podem captar a bene- 
volência dos grandes hypocritas, nem a estima dos 
ferventes devotos. Os mais virtuosos frades fugiam 
d'elle, desde que do convento de S. Bernardino sai- 
ram peioradas em blasphemia as phrases do syndico 
ao pé do corpo ainda quente de sua mulher. Além 
d'isto, entraram em averiguações os mais escrupu- 
losos sobre os factos antecedentes á resolução de 
entrar aquella mulher na religião e elle no sacerdó- 
cio. 

O prior dos antoninos esquadrinhou em Lisboa 
no secreto gabinete da nunciatura, e vingou desco- 
brir que o rompimento fora sequencia de um casa- 
mento incestuoso. 

Galou o frade a infanda noticia, por caridade ; 
apenas a revelou a metade dos seus conventuaes ; 
e estes, por caridade também, disseram-n'a á outra 
metade, sentindo não ter mais a quem a revelas- 
sem. 

Por isso, á volta d'elle se fez a solidão dos gran- 
des desgraçados. 



J'j8 O olho de vidro 

Entregaram-lhe os dois filhos, que estudavam hu- 
manidades no convento, para que elle lhes desse 
destino. O padre levou-os para si, e desde esse mo- 
mento principiou a sentir quebrarem se os aguilhóes 
que o cravejavam e atiravam impenitente á sepul- 
tura. 

Cogitou em mudar-se com elles para algum ermo, 
onde lhe ignorassem o nome e os infortúnios. Mas 
alli, ao pé da sepultura de Josepha, estavam as cinco 
filhas, que elle, se podesse, tiraria do convento. Era 
aloucada fantasia similhante intento. Aquellas me- 
ninas estavam perdidas para elle e para Deus ; por- 
que já não podiam amar o algoz de sua mãe ; e, 
diante do poder do Altissimo, apenas podiam tre- 
mer de medo, medo sem amor. Nem pae, nem 
Deus! 

E doeste modo, com a alma assim vasia, sem 
embrião de esperança n'algum recôncavo d'ella, não 
ha vida. 

A mais velha das meninas, Anna Maria, sobrevi- 
veu dois mezes a sua mãe, e acabou em phrenesis, 
não obstante os exorcismos com que valentes de- 
monifugos de todos os conventos de Aveiro lhe me- 
dicavam a alma. Expirou com reputação de precita 
aquella gentil creatura com dezoito annos incom- 
pletos, a mansissima menina que seus pães quatro 
annos antes denominavam, á conta da sua indole 
branda e sujeita, a pomba da familia, o exemplo 
angélico de suas irmãs. 

Quando o padre Braz recebeu a nova da morte 
de sua filha, quizera a Providencia que ao lado d'elle 
estivesse um peito que lhe desse amparo. 



o olho de vidro ijg 

Francisco Luiz de Abreu, n'aquelles dias, descera 
dos arrabaldes de Bragança, onde fora despedir se 
do seu amigo José de Barredo, e passara por Aveiro, 
onde conjecturava encontrar ditoso e embevecido 
nas delicias do céo o sacerdote de Jesus. 



XVIII 



Cãteqneze 



Francisco Luiz planeou mover o filho de António 
de Sá Mourão a sair de Aveiro, sob pretexto de 
fazer entrar na carreira das lettras ou das armas 
os dois moços, já habilitados para as começarem. 

O padre passou a consultar os filhos sobre a es- 
colha de seu futuro. Tinham-se os meninos habi- 
tuado a pensar no destino para que o pae os en- 
caminhara, desde que os entregou aos frades de 
Santo António. N'aquelles dias, as carreiras abertas 
aos espiritos mais arremessados em esperanças e 
cobiça de nomeada gloriosa, eram a milicia, já en- 
tão decadente, e a companhia de Jesus, ou a ordem 
de S. Domingos, as duas mais poderosas e floren- 
tes hostes evangélicas n'estes reinos, e as mais con- 
juradas em realisar o absolutismo theocratico. 

Os filhos de Braz não entendiam nada d'estes in- 
tentos; mas entreviam a grandiosa estatura do je- 



o olho de vidro 18 1 

suita e do dominicano, em cujas frontes se estavíim 
sempre cerzindo as mytras, e no interior d'essas 
frontes se elaborava o pensamento dos reis, a pa- 
lavra directora dos governos, o enlace mystico do 
céo com a absoluta soberania da terra. 

Portanto, os dois netos do hebreu da Guarda, 
respondendo á consulta de seu pae, disseram que 
entrariam em conventos. Agostinho escolheu a com- 
panhia de Jesus, e Pedro a ordem de S. Domingos. 

Francisco Luiz encarou n'elles com desprezo : 
não podia ser de piedade, nem de ódio aquelle sor- 
riso que entre-abriu os beiços do velho judeu de 
Ourem. 

Passados momentos, murmurou, sorrindo ainda : 

— Este Pedro já não virá a tempo de me quei- 
mar. . . nem eu lhe deixo filhos ou netos, cujos os- 
sos lhe sirvam de degráos para escalar a bem-aven- 
turança dos carnifices... Se o avô d'este menino 
se lembraria de que um seu neto seria frade domi- 
nicano!. . . 

E, voltado ao padre Braz, continuou com mal fin- 
gida serenidade : 

— Conjecturava eu, senhor Braz Luiz, que um 
homem de sua Índole e saber, vestido com as insí- 
gnias de uma religião qualquer, e mormente da 
christã, se empenharia em lavar-lhe com lagrimas 
as nódoas de sangue, e no amaciar -^Ihe as cruezas 
que ella trouxe das tradições pagãs. O homem de 
grande entendimento e muitas luzes devia ser lus- 
tre e honra de qualquer religião que elle assentasse 
de converter em policiamento e bem-fazer da hu- 
manidade. Não lhe perguntei ainda, meu amigo, se 



i82 o olho de vidro 

applaudia o proceder da christandade portugueza 
contra os pães de António de Sá, contra Maria Ca- 
bral, contra Heitor Dias da Paz. Pergunto Ih^o ago- 
ra, na occasião em que vossemecê manda um filho 
alistar-se nos aprendizes do santo officio, e estudar 
as physionomias das antigas rezes do açougue do- 
minicano penduradas na galilé da egreja de S. Do- 
mingos. Bem pôde ser que lá veja retratos de seus 
avós. 

— Basta! que me está mortificando, senhor! — 
atalhou o padre. — Sou um desgraçado, á volta de 
quem se assanham todas as tentações ! Quem vem 
contender em pontos de religião com um homem 
tão quebrado de espiritos ? Oh ! deixem-me como a 
um leproso, abandonado de Deus e dos homens . . . 

— Abandonado de Deus! como assini? — accudiu 
o israelita. — Pois as três divindades christãs, o Pa- 
dre, o Filho e o Espirito Santo assim abandonam 
quem tanto lhes sacrifica ! Onde está a corppensação 
das suas afflicções, meu amigo ? Que bem aventu- 
ranças infinitas são bastantes a galardoar uma só 
das suas torturadas noites ? Por minha fé ! Consterna 
ver o desamparo em que o Moloch d'estas voluntá- 
rias hóstias deixa affogar-se em lagrimas e derre- 
ter-se ao fogo da desesperação um homem que ti- 
nha direito a receber consolações análogas á devo- 
ção com que se deixa esmagar na carne e no espi- 
rito!... Ah! eu cuidei que, na minha retirada de 
Portugal, o deixaria enlevado na beatifica visão e 
antegosto da eterna e perennal mão direita do Deus- 
Padre ! E a minha consciência sabe que eu muitas 
vezes pensei em me converter ao christianismo, se 



o olho de vidro i83 

Braz Luiz de Abreu estivesse, a esta Jhora, confor- 
mado e alegre sobre o peso da sua cruz!. . . 

— E' que eu sou Iodo. . . atalhou o padre. 

— E' que eu não vi ainda bem remunerada a re- 
nunciação dos direitos do homem, em hecatomba 
de uma equidade convencional, chamada a justiça 
das religiões. São todas muito artificiaes para que 
alguma d'ellas possa ser verdadeira. As menos so- 
bre-humanas são as mais equitativas ; e estas mes- 
mas estão manchadas pela miséria do homem, que 
não comprehende a virtude aconselhada pela razão; 
carece de a ouvir trovejada no Sinay, legislada pelo 
alfange mahometano, ou introduzida no cérebro das 
nações selvagens com o gume da espada dos Ca- 
braes e dos Pizarros. Pois está Deus n'estas car- 
niçarias? O creador das florestas e dos mares, do 
oução e do elefante, se quizesse revelar-se mais sen- 
sivelmente ao homem, careceria de morrer n'uma 
cruz ignominiosa, ou permittiria que aos pobres ce- 
gos, que o não sabem ver, lhes queimassem os olhos 
nas lavaredas do santo officio?! 

— Jesus, soccorei-me! exclamou o padre, tapando 
com as mãos a fronte, em que as palavras d'aquelle 
homem coavam luz de infernal claridade. 

Depois, murmurou palavras inaudiveis que de- 
viam ser orações efficazes contra a tentação da he- 
resia, da philosophia, da razão indócil, do demónio, 
que é tudo um. 

O hebreu era pertinaz, porque o estimulo, a ra- 
zão nua, sem minima compostura de fé, lhe espi- 
caçava a consciência. O homem vinha dos focos da 
heresia. Gomprehendêra a loucura do hebraismo e 



1S4 o olho de vidro 

a loucura^dos heresiarcas. Reformara-se na philo- 
sophia de Spinosa, e facilmente derivara do pan- 
theismo á completa abstinência de deuses, coisas 
desnecessárias para explicar a ordem do universo, 
e inintelligiveis para as fazer presidir á creaçao. A 
causa das causas parecia-lhe sempre effeito dos ef- 
feitos. O atheismo, se o não consolava, também lhe 
não mettia em trabalhos as molas da imaginação. 

As expansivas demonstrações de sua incredujida- 
de eram todavia inefficazes para apagarem a luz do 
calvário no coração do padre. O dique do terror 
de Deus represava as torrentes de sabedoria rebel- 
de com que o hebreu pretendia levar de rojo o ami- 
go, cuja victoria estaria indecisa,*^se o christao con- 
victo aceitasse o cartel. Não. Braz Luiz vencia com 
o silencio. O argumento triumphal é o calar-se 
aquelle, cujo coração bafejou o Senhor. 

Não obstante, as asperezas da vida, os jejuns, as 
penitencias, as orações mentaes e exercicios fati« 
gantes de piedade foram diminuindo de dia para 
dia. No fim de três mezes, o padre fallava ainda 
três horas á milagrosa imagem de S. Francisco, e 
conversava seis horas com Francisco Luiz de Abreu. 

Estava, pois, reduzido á piedade rasoavel. Não 
mortificava a carne para manter o espirito na ener- 
gia que se lhe requer em meditação das coisas di- 
vinas. Tinha horas regulares de oração, de alimen- 
to, de visitar os seus enfermos, e de procurar no 
locutório de S. Bernardino as quatro freiras. 

Foi para Lisboa com o hebreu e com os filhos. 
Renovou a consulta sobre o destino d'elles. Perma- 
neciam constantes na sua resolução. Um entrou no 



o olho de vidro i85 

noviciado da ordem dominicana em Bemfica; e ou- 
tro no collegio de Santo Antão. 

O padre Braz foi beijar a mão de el-rei, que se 
compungiu da extemporânea velhice do celebre 
Olho de Vidro. Ouviu-lhe a historia pathetica da 
morte de soror Josepha e da filha, saudosa de sua 
mãe, e o definhar-se das quatro meninas para quem 
a vida claustral fora sempre incessante martyrio e 
desesperação de que a misericórdia divina talvez 
pedisse contas a elle pae. Observou-lhe D. João v 
que levasse para sua companhia as quatro meni- 
nas. 

— São freiras, são professas, real senhor ! . . . 
murmurou o padre. 

El rei mandou-o voltar no dia seguinte, e orde- 
nou que lhe entregassem provisão regia e breve do 
núncio para que as quatro freiras de S. Bernardino 
vivessem por tempo illimitado na companhia de seu 
pae. 

Voltou o padre a Aveiro, e Francisco Luiz de 
Abreu acompanhou-o. 

N'este homem andava encavalgado o Lúcifer da 
mais desenfreada philosophia que viu aquelle sé- 
culo. O pensamento que o esporeava era generoso ; 
mas no inferno iria um dia de festa se elle vin- 
gasse a idéa exeçravel. Venceram os anjos custó- 
dios, que faziam guarda ao espirito do padre e das 
quatro filhas, promettidas esposas de quatro sera- 
fins que as esperavam, posto que nem todas cor- 
respondessem ao convite amoroso dos serafins. 

Queria Francisco Luiz de Abreu restituir a feli- 
cidade áqtiellas meninas, a felicidade terreal, men- 



i86 O olho de vidro 

tira em que o hebreu ainda acreditava. Preparava 
o animo do filho de António de Sá, inoculando-Ihe 
a peçonha da duvida no dogma, e pelo conseguinte 
na moral. Discutia os chamados sacramentos da 
egreja. Dizia que o sacerdócio era a mais conven- 
cional e estúpida das instituições humanas, com 
grave ultrage de Deus, chamado a sanccional-a, se 
Deus por acaso podesse existir e ser ultrajado por 
affrontas do homem, chamado irrisoriamente o rei 
da creação, á mingua de besta-fera que se proclame 
com eguaes direitos á mesma realeza. Dizia que 
esta bestial instituição cedia a primasia a outra, que 
era a da profissão da mulher ; e que de estúpida 
passava a ferocíssima quando a professa era violen- 
tada a jurar a perdição das suas alegrias de moci- 
dade, e das suas esperanças de familia nas triste- 
zas da velhice. 

Amartelladas por largo tempo estas e similhan- 
tes idéas sobremodo Ímpias, o hebreu puzera a pon- 
taria em tirar de Portugal o padre e as freiras, le- 
val-os onde rasgassem os hábitos, e se vissem de 
repente restituídos á simpleza de creaturas forma- 
das á imagem e similhança do Creador, o qual, a 
ter existido, formara certamente homens e não pa- 
dres, mulheres e não freiras : gente, no dizer de 
Moysés, apta e escorreita para formar indivíduos, 
aldeias, cidades, reinos, mundos. 

Ouviu o padre as theses do seu amigo, defendi- 
das por longo tempo com erudição digna de melhor 
serventia. Prodigioso poder da fé, quanto eu te 
admiro e venero ! O padre resistiu nervosamente á 
seducção, e por pouco, no calor da refesta, não 



o olho de vidro i8j 

apresentou uma idéa que destruísse os preconceitos 
do judeu luciferino. Prodigioso poder da fé ! excla- 
mava também Francisco Luiz, quando, inventarian- 
do os argumentos do seu amigo, não topava um 
que merecesse redarguiçao grave. E perguntava 
elle a si mesmo como era que aquelle homem tão 
embotado em agudezas de dialéctica pudera es- 
crever as «Águias que voavam sobre a lua, e o 
sol nascido no occidente e posto ao nascer do 
solli 

Desistiu: mas já lhe foi grandissimo contenta- 
mento ver á beira de seu pae as quatro meni- 
nas, quatro exhumadas da lobrega crypta do con- 
vento, onde deixaram sem lagrimas as grammas 
que rastejavam na claustra sobre a campa de sua 
mãe. 

Dizia elle, todavia, ao pae : 

— Crê que as caras marmóreas doestas meninas 
tornem a reflorir? 

— Espero que sim. 

— Nunca mais. Estão mortas. Se as quer vivas, 
rasgue-lhes a mortalha, Braz Luiz ! — exclamou elle 
abraçando-as todas contra o seio. — Dê-me estas 
meninas, deixe-me salval-as, deixe-me fugir com 
ellas para o ar abençoado da liberdade ! Eu pro- 
metto aviventar-lhes o coração, e depois estão sal- 
vas. Dê-m'as que eu ainda sou bastante rico para 
deixal-as ricas. E, se eu fosse pobre, dar-lhe ia a 
cada uma um amor para o coração resuscitado, um 
esteio para a alma, um companheiro para toda a 
vida! 

O padre ergueu-se de repellão, travou das fi- 



i88 O olho de vidro 

lhas, arrancando-as aos braços do hebreu, e ex- 
clamou: 

— Que maldição traz comsigo este homem ! . . . 
Quer perder-me as minhas filhas ! . . . Ha infernal 
predestinação na sua mensagem ao seio da minha 
familia, homem da horrivel fatalidade ! 



XIX 



o yelbo da ermida 



Em uma aldeia, chamada Verdimilho, a uma lé- 
gua d' Aveiro, vivia em lySS um ancião, reputado 
justo porque á volta da sua casa, colmada e des- 
guarnecida da mais trivial mediania, se ajuntavam 
os pobres da freguezia, em dias determinados, e re- 
cebiam esmolas que lhes bastavam á alimentação 
parca da semana. Chamavam ao incógnito o «velho 
da ermida» porque, ao lado da choupana d'€lle, es- 
tava uma capella. Os pobres, favorecidos d'este ho- 
mem, paravam ao cair da tarde nas visinhanças da 
ermida, para o verem sentado no tezo de um oi- 
teirinho, com os olhos enlevados no transmontar 
do sol ; e, se o viam passar a mão por elles como 
quem enchuga lagrimas, diziam entre si: 

«Um homem que dá tanto aos pobres, e cho- 



ra ! 



Em 1739 saiu elle caminho d' Aveiro, pela pri- 



IÇO o olho de vidro 

meira vez. Os pobres seguiram n'o, e disseram-lhe : 

— Não voltaes mais aqui, nosso bemfeitor? 

— Voltarei, filhos. A noite serei comvosco. 

E caminhava a pé, abordoado d'um cajado que 
lhe dera um dos seus pobres. 

Chegado a Aveiro, entrou na egreja de S. Ber- 
nardino, acantoou-se no mais escuro d'ella, e assis- 
tiu aos responsorios da segunda filha de Braz Luiz 
de Abreu, a qual estava sobre a eça. 

Saiu, parou á porta do pae da defunta, subiu, 
entrou á saleta em que elle recebia os pêsames, aper- 
tou-o nos braços e disse- lhe : 

— Dá-me a vida das três filhas que te restam, e 
vem tu com ellas. 

O padre derramou copiosas lagrimas, e não res- 
pondeu. 

Voltou Francisco Luiz á sua cabana da ermida, 
e os pobres, ao outro dia, confluíram das suas al- 
deias a dar-lhe as boas vindas. 

Em 1740 fez o hebreu a mesma caminhada, en- 
trou na mesma egreja onde se resavam responsos, 
na mesma saleta onde chorava um velho, e disse- 
Ihe; 

— : Dá-me a vida das duas filhas que te restam, e 
vem tu com ellas. Rasga-lhe as mortalhas, antes que 
o coveiro as esconda, e o sino dobre por ellas. 

O padre chorou muito, inclinado ao peito do ve- 
lho, e não respondeu. 

Voltou o caminheiro á sua cabana, e os pobres 
olharam-n'o com muita amargura, porque a sombra 
d'elle era como de arejo vindo da região dos se- 
pulchros. 



o olho de vidro igi 

Uma tarde, não longe d'aqueile dia em que se 
finara a quarta professa de S. Bernardino, appare- 
ceu em Verdimilho o padre Braz Luiz, atirou-se es- 
bofado aos braços do hebreu, e disse-lhe : 

— Dê-me as minhas filhas ! 

— Pede-m'as a mim ? ! E' a Deus que as deve pe- 
dir. . . ao seu Deus, que resuscitou muitas. . . 

— Não peço as mortas ; quero as vivas. 

— Que sei eu das vivas ? Esperava que morresse 
uma para lhe ir pedir a ultima. 

— Pois minhas filhas não estão aqui ? exclamou 
Braz Luiz de Abreu. 

— Aqui?! não vê que toda a minha casa é esta 
cabana ? 

— Meu Deus! bradou o padre. 

— Que é de suas filhas? acudiu o hebreu. 

— Fugiram ! perderam-se ! . . . 

— Salvar-se-iam ? Encaminhal-as-ia qualquer pro- 
videncia que eu desconheço ?. . . 

— Roubaram-m'as ! 

E o padre, guardando silencio por alguns minu- 
tos, continuou com intermittentes de gemidos e an- 
ciãs offegantes : 

— Perdi-as . . . e perderam-se I . . . Pois que nome 
tem isto senão é prostituição ?. . . A justiça lançará 
mão d'ellas... e d'elles... 

— D'elles quem? — atalhou o israelita. 

— De relance os vi: eram militares, vinham |de 
Coimbra a Aveiro, hospedavam-se nas mais nobres 
casas, e minhas filhas sabiam da existência doestes 
homens. . . 

— E rasgaram as mortalhas — ajuntou o velho de 



Jtg2 O olho de vidro 

Verdimilho. — Pois deixal-as ir. A natureza as defen- 
da, se os aguasis da religião as perseguirem. Deixal-as 
ir em paz. Falleceram-lhe forças para a continuação 
do martyrio. Muitas das viuvas do Indostão já hoje 
se não queimam. E' necessário que os preconceitos 
sejam derrotados uma vez por outra, a ver se al- 
guma hora surge ahi d'este atascadeiro melhor ge- 
ração, que traga ao mundo a idéa de Deus com 
bondade. Coitadinhas! Possam ellas chegar onde 
lhes digam: tVivei, gosae sem remorsos. O que vos 
lá ensinaram a dizer na profissão caducou debaixo 
de outro céo. Pedi, meninas, o coração ás estrellas 
da noite, ao sol do dia, ás campinas que reflorecem, 
ás aves que senhoream os ares e pousam a cantar 
nas mais formosas frondes das arvores. Perguntae 
ás bellezas e júbilos da natureza, se quem os fez 
lhes pautou intercadencias de amargura. Vivei, cân- 
didas pombas, aquecei-vos ao calor que desentranha 
o gomo da arvore congelada, e aquece no seio da 
virgem o sangue palpitante que lhe purpureja as fa- 
ces. Ide, e escondei-vos no recôncavo das penedias, 
como as gazellas se escondem do pelouro do car- 
niceiro.» E tu choras? — disse elle com vehemen- 
cia, repuchando para si o corpo inerte de Braz Luiz 
— hei de fallar-te assim com este ar de pae, por- 
que estou a ver-te, creancinha, que, ha quarenta e 
oito annos, eu tirava dos braços da ama para sentir 
o goso de te embalar e ver adormecido nos meus. 
Chora por ti que és muitissimo desgraçado: por 
ellas não, que eu duvido que haja ahi maior horror 
que o morrer das outras. Porque não iria eu com 
tuas filhas á fonte da saúde, do bem do corpo e da 



o olho de vidro ig3 

alma? Porque m'as não deste? Davas dois anjos a 
este homem de setenta annos, que não tem ninguém 
que lhe feche os olhos. E, depois, extincta esta lu- 
zinha que vasqueja, as tuas filhas aprenderiam nas 
memorias da minha vida a viverem virtuosas sem 
religião revelada, a soccorrerem indigentes sem 
lerem os preceitos da caridade de Confúcio ou de 
Jesus. Mas se m'as não deste, nem por isso des- 
creias da felicidade d'ellas. O amor tem céos e res- 
plendores, que banham de luz as mais tristes almas. 
O crime d'ellas é coisa tão mal feita á superfície da 
razão degenerada, que lhes não ha de durar mais na 
consciência do que a sentença d^ellas escripta sobre 
areia. Verdadeiros crimes, diante do juiz incorru- 
ptível, são aquelles de que o senso interior nos con- 
demna. 

Prolongou-se a pratica do hebreu. O padre não 
o ouvia. O que elle parecia escutar era um cavo e 
muito intimo desfibrar-se-lhe o coração, este enve- 
lhecer e morrer que o homem está sentindo a bran- 
quear-lhe os cabellos e a ressumar-lhe á face cama- 
rinhas de suor de agonia. 

Depois despediu-se, e murmurou: 

— E adeus! que está consummado tudo! 

— Ainda não : viverás mais annos, porque se não 
é desgraçado como tu és senão em toda a plenitude. 
Eu é que vou sair d'aqui. E' noite fechada. Já não 
tenho n'este mundo sol que me derreta os gelos de 
setenta annos. 



!3 



XX 



Parecia cbristão na morte ! 



Vinte dias depois, correu nas aldeias circumpos- 
tas a Verdimilho, que o velho da ermida estava 
enfermo. 

Abalaram os pobres dos seus cardenhos, e en- 
traram quantos cabiam na cabana do ancião. Os 
ricos também foram com os seus capellães, com os 
seus padres adscriptos á gleba das missas de re- 
quiem, cpm que mercavam barato o paraiso aos 
seus ascendentes. 

O ancião viu uns e outros. Ergueu a cabeça e 
disse : 

— Que entrem somente os pobres. O espectá- 
culo de um moribundo não convida. 

Os pobres, pois, ajoelharam em duas alas, de- 
fronte da parede a que se encostava uma barra de 
bancos, e cada um dizia em silencio as suas ora- 
ções. 



o olho de vidro ig5 

A porta da cabana estava de par em par aberta. 
O sol da tarde doirava a poeira do interior. A fita 
luminosa, que ia inclinada em scintillas alumiar a 
fronte do enfermo, vinha com direcção obliqua e 
coada por uma abertura do colmo. Os pobres viam 
n'aquelle raio de pó lúcido coisa mysteriosa de bo- 
níssimo agouro para a alma do doente. 

Appareceu então no limiar da porta um sacer- 
dote, que a gente d*aquellas aldeias venerava como 
medico do corpo e do espirito. Era o padre Braz 
Luiz de Abreu. 

E como elle entrasse, o povo, que enchia a casinha, 
saiu, cuidando que o velho da ermida ia confessar-se. 

A só com o sacerdote, disse o hebreu com pe- 
nosa pronuncia : 

— Agora é que são as despedidas, amigo. Vieste 
a tempo, Braz, filho adoptivo de minha mulher, que 
ha vinte annos me espera. Debaixo do meu traves- 
seiro está um papel escripto de meu pulso ; na arca 
em que te sentas, está o que eu tenho de meu. 
Cumprirás as minhas disposições. . . 

— E a sua alma ? . . . — atalhou o padre. — E' tem- 
po ainda. Salve-se, homem de bem! salve-se... 

— Se sou homem de bem, estou salvo— murmu- 
rou o judeu. 

— Receba com fé os sacramentos da Santa Ma- 
dre Egreja. 

— Geremonias pagãs ... A vida do espirito vae 
começar. Receba a natureza em seu seio a porção 
immaterial do meu ser. Descance em perpetua paz 
este motor interno, que recebia as lançadas da adver- 
sidade, a influencia do mal, que os homens geraram. 



ig6 O olho de vidro 

Acabo sem remorsos, sem ódios e sem esperanças. 
Acabo, é o que eu sei deveras. Vou desenganar-me, 
se errei. Agora, filho, deixa entrar a minha família. 
São esses pobrinhos que saíram. Abre-lhes as por- 
tas : quero vel-os até á ultima. 

Braz abriu a porta, os pobres entraram e o pa- 
dre ficou entre elles. 

O vigário perguntou ao medico e supposto con- 
fessor se era tempo de virem os santos óleos. 

— Mais tarde, disse Braz Luiz, esperando que o 
moribundo, caído na apathia da extrema hora, in- 
sensivelmente recebesse as uncções e assim enga- 
nasse a devoção d'aquelle povo. Piedosa impostura, 
santa fraude, que levava em vista salvar os créditos 
do padre visitante, e abonar as virtudes do homem 
que os pobres começavam a beatificar. 

Por volta das onze horas, cresceram os trabalhos 
dos paroxismos. A' meia noite, descaiu o moribundo 
em lethargia. 

A respiração era quasi imperceptível. Saiu o sa- 
Cf^rdote a pedir a extrema-uncção, sem impedi- 
mento de saber que a boa e sã theologia não dava 
já nada por aquella alma, embora o agonisante fosse 
sacramentado. 

Quando o vigário, espertado do primeiro somno, 
chegou, estremunhado e carrancudo, com a ambula 
á porta da cabana, o padre Braz ajoelhara á cabe- 
ceira do moribundo, em adoração ao Santíssimo Sa- 
cramento. Sondou o pulso do velho da ermida, e 
disse : 

— Expirou agora. 

Os pobres cessaram de cantar o Bemdito, e le- 



o olho de vidro igj 

vantaram um grande choro, entrando todos a beijar 
a mão do cadáver. 

Se este acabamento de homem, transviado da re- 
Hgião verdadeira e das falsas, não fosse referido em 
romance, poderia alguém suppor que pôde uma pes- 
soa morrer como justo, sem ser absolutamente re- 
ligioso. Bom é que mortes assim se não divulguem 
em livros graves. 

As disposições do philosopho são fáceis de ante- 
ver. Os seus herdeiros eram aquelles pobres que 
choravam, e outros que pediam enxerga e remé- 
dios na santa casa da misericórdia de Aveiro, e tam- 
bém os peregrinos que se acolhiam á albergaria 
convisinha da egreja de S. Braz. 

Pois com tantos legados de espirito christianissi- 
mo ninguém acreditava que fosse sincero christão 
um sujeito que entre tantas disposições não appli- 
cou missas por sua alma, nem sequer trezentas ! O 
clero estava escandalisado! 

Folgavam tamsómente os pobres, — e tanto fol- 
gavam que nem já choravam a perda do bemfeitor. 



XXI 



Como se pôde mer ! 



De causas de todo em todo inversas e entre si 
repugnantes apparecem eíFeitos similhantissimos. 

O despejo, por exemplo, a coisa hedionda que 
por ahi se chama cynismo, caleja e abroquela tão 
rijamente o homem, que todas as setas da desgraça 
lhe resvalam do peito. Quando cuidamos vel-o sos- 
sobrado, eil-o se apruma a desafiar novas tempes- 
tades, e de tormenta em tormenta chega á derra- 
deira edade, e acaba de cachexia, porque as cache- 
xias não se curam com a valentia da alma. 

Vejamos agora o justo em tribulações, o christão 
de tempera pacientíssima e refractária ao desanimo 
que prostra e mata. As calamidades a choverem-lhe, 
as injustiças dos homens a pôrem-lhe em duvida a 
justiça divina — por se dizer que o homem tem for- 
ma e similhança de Deus; elle a abster-se, a am- 



o olho de vidro igg 

putar-se, a desaggregar-se do bom da vida, e a tem- 
perar com fel alguma coisa melhor para offerecer 
ao céo o amargor d'ella e a reluctação com que a 
toma, degenerando e estragando tudo que os outros 
saboream. Eis que umas pessoas queridas lhe mor- 
rem; e outras o deixam, quando elle a chorar lhes 
pedia amparo ; fogem-lhe e deshonram-n'o ; e o chris- 
tão atira-se aos pés da cruz, queixa-se, mostra as 
garrochas que o trespassam, os anjos como que 
baixam a descravar-lh'as ; fecham-se as feridas, ou- 
trás logo se abrem, e elle a exclamar: 

«Mais, mais, Senhor!» Amplius, amplius, domi- 
ne! Este é o christão, o penitente, o stoico setenta 
vezes santo. Eil-o ahi vae vida fora, caindo, erguen- 
do-se, pondo peito ao baque da legião que o tenta, 
esgrimindo a um e outro lado com a cruz, com o 
hyssope; ora magestoso, ora ridiculo; mas vivendo, 
vivendo, até aos sessenta, e avante ainda, n'um vi- 
ver que se nos figura a mais pavorosa das agonias! 

Tal foi Braz Luiz de Abreu. 

Quantas vezes o leitor, no decurso d'esta biogra- 
phia, terá dito: «o homem vae morrer agora!» 

Morrer ! quando será isso ? Ha de ainda viver, 
depois de tanto veneno que lhe imborcaram, ha 
de viver dezeseis annos. Dezeseís annos! sósinho! 
alli em Aveiro, não sei em que rua d'aquellas, em 
qualquer casa das mais desaconchegadas, a rever 
na tela da phantasia o rosto da mulher agonisante, 
das três filhas mortas, das duas fugitivas, sem que 
mais aos seus ouvidos soasse o nome d'ellas, nem 
dos sacrílegos raptores das divinas esposas ! E, co- 
mo elle pôde, em meio d'isto, escrever ainda dois 



200 O olho de pidro 

livros, dois grossos manuscriptos, que não sei onde 
param, um chamado Feni^ Lusa, referindo a vida e 
acções do sereníssimo infante o senhor D. Manuel, 
filho de D. Pedro ii; e outro intitulado: Vida e ac- 
ções do primeiro principe do Brasil para exemplar 
do nosso serenissimo principe D, José, * 

Querem revelação para maiores assombros ? 

Em 1755, foi aquelle memorando terramoto de 
Lisboa. O padre Agostinho de Abreu, da companhia 
de Jesus, ia de Santo Antão para S. Roque, ao co- 
meçar o tremor. Passava diante de uma casa que 
se estava derruindo, ouviu os clamores de dentro, 
entrou heroicamente para arrancar uma velha de- 
baixo da couçoeira de uma porta, e ficou esmagado 
debaixo do tecto abatido. Já sabem que este jesuíta 
era filho do padre Braz. Pois, quando a nova d'este 
desastre chegou ao pae, seis dias depois, o velho 
de sessenta e quatro annos ajoelhou, orou, levan- 
toU'Se, limpou as lagrimas que lhe tolhiam a leitu- 
ra do seu breviário, e leu o psalmo Miserere mei 
Deus, 

Que morte será pois a d'este homem para que 
se não diga que houve ahi angustia que podesse com 
elle? Ha de ser a morte designada pelos seus bio- 
graphos, a morte que o senhor Innocencio Fran- 
cisco da Silva lhe assigna: «apoplexia fulminante, 
a tempo que estava sentado sobre uma cadeira. t 

Eram corridos dez dias de agosto de 1756, quando 



* Veja Barbosa. Biblioth. Lusit 



o olho de vidro 201 

no convento de franciscanos de S. Bernardino se fe- 
chou em sepultura rasa o cadáver de Braz Luiz de 
Abreu. A memoria de suas mysteriosas desgraças 
será menos duradoura que o renome de medico 
abalisado que os contemporâneos lhe celebraram. 



CONCLUSÃO 



Que destino tiveram aquellas duas freiras que, 
no dizer do defunto hebreu, rasgaram as morta- 
lhas? 

Saibamos quem eram os raptores. Eram uns ca- 
detes de cavallaria, filhos de um Heitor Teixeira 
de Macedo, capitão-mór de Coimbra, e fidalgo so- 
larengo de Gondeixa-a-Nova, muito aparentado com 
os Chamorros, Marreiros e Matosos, nobilíssimos 
apellidos de familias aveirenses. Hospedados em 
casa d'estes Chamorros e Matosos é que os cade- 
tes puderam ver soror Antónia Maria e soror Se- 
bastiana Ignacia. Fazerem-se amados devia ser coisa 
de pequeno prologo, já porque as duas virgens não 
tinham das cousas d'este mundo mais experiência 
que os anjos, já porque almejavam ser amadas, já 
porque os dois cadetes eram bizarros moços, ga- 
lans palacianos, formosíssimos demónios, que fa- 
ziam tremer as calçadas e os corações das damas 
de Aveiro com a estrupiada dos seus alasÔes. 

O namorarem-se, convencionarem-se e fugirem 
foi n'um prompto. A justiça, quando tal soube, 



o olho de vidro 2o3 

quiz gritar ; mas os Chamorros, Matosos e Marrei- 
ros amordaçaram-n'a. Os rapazes já não tinham 
pae : tinham mãe, uma santa matrona, que era a 
imagem das virtudes christãs. Appareceram-lhe os 
filhos, e ajoelharam pedindo recursos para fugirem 
de Portugal. A tremula e espavorida senhora escu- 
tou a historia do criminoso passo. Não amaldiçoou 
os filhos. Chorou muito ; e os velhacos, nas costas 
d'ella, faziam esgares de grandes farcistas I 

A fidalga perguntou onde estavam as freiras. 
Soube que as tinham escondidas n'uma quinta dis- 
tante. Quiz vêl-as, porque sabia a tragedia singu- 
lar da familia do medico. 

Por noite alta, entraram as duas meninas á re- 
camara da viuva do capitão-mór de Coimbra. Fo- 
ram mui benignamente recebidas. Aquella senhora 
tinha facilidades incríveis ! Receber assim duas li- 
bertinas esposas do Espirito Santo ! 

Receiando que fossem presas, antes de irem onde 
a virtuosa senhora tencionava mandal-as, não as 
deixou mais sair da sua recamara. 

O capellão saiu para Lisboa ; e, oito dias depois, 
estava de volta com muitas cartas para cardeaes e 
ministros residentes em Roma. 

— Podeis amanhã partir, filhos — lhes disse ella. 
— Ide a Roma com estas cartas, entregae-as, e tor- 
nae com um bom despacho. De volta, podereis ser 
esposos doestas meninas, que ficam no quarto de 
vossa mãe até que volteis. 

Os moços olharam-se entre si, e ficaram como 
aparvados. Olharam para as freirinhas, e viram- 
n'as a chorar, fingindo que sorriam. 



204 ^ ^^^o ^^ vidro 

Não havia que replicar. Partiram para Roma. 

Estavam em Lisboa ainda, negociando ordens de 
dinheiro sobre banqueiros romanos, quando foram 
chamados á pressa por ordem da mãe. 

A fidalga adoecera com todos os symptomas de 
próxima morte. 

— Ghamei-vos, disse ella, para que me assistaes 
ao enterro. Depois, ireis. Agora, jurae sobre estas 
Horas que cumprireis a minha vontade quanto a 
estas meninas. Depois de me haverdes sepultado, 
ireis para Roma, e, obtida a annullação dos votos 
d'ellas, casareis. 

Juraram e cumpriram. A annullação dos votos 
foi prolongada com inquéritos de testemunhas no 
convento de S. Bernardino. O padre Braz não fa- 
voreceu nem contradictou a annullação. 

Ao cabo, porém, de três annos, Antónia e Sebas- 
tiana receberam as bênçãos nupciaes em Roma. 

Detiveram-se em Roma até 1760. Em lySi já 
estavam em Portugal. Não procuraram o pae, por- 
que lhes era odioso o homem, que as atirara com 
sua mãe e irmãs, vivas, novas e formosas, ao se- 
pulchro de um convento, e lhes dera como flagellos 
a convivência de freiras que enfeitavam a sua estu- 
pidez com as lantejoulas da hypocrisia, ou da refi- 
nàdissima protervia de intolerantes. Odiavam por 
isso o pae, e o lucto, que vestiram por elle, não 
tinha nódoa de uma lagrima. 

Morreram velhas, ignorando que motivo lançara 
um véo negro sobre o rosto de sua mãe, á hora 
em que o padre maldito lhe fallára. 

Fr. Pedro de Abreu, o frade dominicano, chegou 



o olho de vidro 2o5 

a ser qualificador do santo ofl&cio ; mas, como quer 
que o marquez de Pombal apagasse a ultima lava- 
reda do santo officio com o corpo de Gabriel Ma- 
lagrida, fr. Pedro acabou sem assistir a um auto de 
fé espectaculoso, como tinham sido os da triumphal 
egreja, quando os relaxados perfumavam a atmos- 
phera com os aromas dos ossos torrados. 



FIM 



NOTAS 



' (Pag. 23) 



Sobre os nomes referidos dos jastiçados 
pela inquisição 



Manuel Fernandes Villa Real, que defendeu contra os 
Filippes os direitos de D. João iv á coroa de Portugal, e o 
fez com tamanho engenho, que insinua a legalidade da sua 
argumentação no livro intitulado Anti- Car amuei ^ veio de 
Paris a Lisboa, foi logo preso, e em dezembro de 1652 
mandado á fogueira com a seguinte sentença, que é um 
testemunho da magnanimidade com que D. João de Bra- 
gança pagava aos defensores da sua legitimidade, perante 
os estados que o sustentavam no throno ganhado de as- 
salto : 

«Accordào os inquisidores, ordinário e deputados da 
santa inquisição que, vistos estes autos, libello e prova da 
justiça, author, confissões e defesa de Manuel Fernandes 
de Villa Real, x n. (christão novo) natural d'esta cidade de 
Lisboci, morador no reino de França, e residente n'esta 

i4 



210 O olho de vidro 

dita cidade, réo preso que presente está, porque se mostra 
que sendo christão baptisado, obrigado a ter e crer tudo o 
que tem, crê e ensina a santa madre egreja, e não ser fau- 
tor de heresias, e respeitar e venerar o tribunal do santo 
officio, e não detrair de seu justo, recto e livre procedi- 
mento, elle o fez pelo contrario, jactando-se, depois do 
ultimo perdão geral, de ser israelita e descendente de pro- 
phetas, e tratando com judeus públicos muito familiar- 
mente, e por cartas com um archisinagogo dos judeus de 
certa parte, tendo e lendo muitos livros prohibidos, e prin- 
cipalmente um de ceremonias e ritos judaicos, o qual deu 
a certa pessoa, fazendo jejuns judaicos, estando sem comer 
nem beber em certos dias senão á noite depois de saida a 
estrella, e fazendo um livro que imprimiu ' tratando n'elle 
vários assumptos; um dos quaes era favorecer os que 
commettem erros contra a fé, persuadindo ser bom meio 
para estabelecer a fé nos reinos e cidades controvérsias 
publicas, approvando por este modo em uma parte os er- 
ros públicos, e em outras os occultos, dizendo que os prín- 
cipes não podem impedir os que sem escândalo e máo 
exemplo vivem em suas seitas, e persuadindo outros que 
dissimulem os desacatos feitos á religião, reprovando que 
algum principe altere com rigores, querendo o réo que 



I Presumo que seria o livro intitulado El politico christia^ 
nissimo, e discursos políticos sobre algunas aciones de la vida 
dei em."" sr. Cardenal Duque de Richelieu. 1642-12.° Da 2.* edi- 
ção d'este livro diz o versadissimo bibliophilo I. Francisco da 
Silva «N'esta segunda edição se supprimiram depois de im- 
pressos vários trechos que desagradaram aos inquisidores, e 
que também foram na primeira riscados e illegiveis algumas 
passagens a pag. . . etc. Na edição de 1642 se acham as folhas 
respectivas suppridas com cartuns ou folhas intercalares. . .» 
Vej. Diccion. bibliog. pag. 422 e 428 do 5.° vol. 



o olho de vidro 211 

ainda que falsa se conserve, e mostrando ser da opinião 
que haja liberdade geral de consciência, pretendendo sem- 
pre que o politico de uma republica se conserve, vivendo 
cada um na religião que mais quizer, e tendo por escan- 
daloso não admittir aos officios públicos os de contraria 
religião; e querendo que em nenhum caso possa haver 
causa para que um príncipe catholico favoreça os súbditos 
catholicos contra seu rei hereje, nem que haja reparo em 
soccorrer herejes contra catholicos, e querendo outrosim 
que a palavra da . . i aos de contraria religião se observe 
ainda que seja contra os bons costumes, admittindo que 
Deus concede aos herejes victorias pela caridade e piedade 
que exercitam, como se n'elles houvera caridade ou pie- 
dade, ou virtude alguma, comparando nas insolências os 
catholicos na modéstia, admittindo que os de contraria re- 
ligião, quando se reduzem á catholica, se podem enganar 
eui cuidar que até então iam errados, approvando a con- 
demnação, e censura que em certa parte se deu a certo li- 
vro que tratava do poder do summo pontífice, sendo a dita 
censura errada, em que tira totalmente ao papa um poder 
em direito aos príncipes circa tempo^ ralia ainda quando o 
príncipe seja herético e scismatico e que nunca o summo 
pontífice possa sujeitar o príncipe a interdicto ecclesiastico, 
nem absolver os vassallos do juramento de fidelidade ; e 
que os príncipes temporaes totalmente são independentes, 
mostrando pouca affeição á egreja romana, fazendo dis- 
tincção d'ella á gaUcana, e preferindo a liberdade d'esta 
particular á authoridade d'aquella catholica e universal ; e 
sendo outro assumpto do dito livro reprovar o justo, recto 
e livre procedimento do santo officio, e os castigos e con- 
fissões dos culpados pelo crime de heresia, chamando-lhe 



I Não podemos decifrar os caracteres que o tempo desfez 
no manuscripto, d'onde vamos trasladando a sentença. 



212 O olho de vidro 

tyraiinico e bárbaro, e qualificando estes procedimentos 
por eífeitos do ódio, avareza e paixão, dizendo que de 
cúmplices faziam prophetas, e de delidos enigmas, e que 
por um erro de entendimento se castigava a fazenda, não 
só a própria, mas a alheia de mulher e filhos, e que fora 
melhor não querer dar luz a uma alma cega com processo 
ás escuras ; e que emquanto o ódio e ambição acompanhas- 
sem os ministros, nem os súbditos vi viriam seguros, nem as 
monarchias gosariam felicidade. E sendo estranhadas ao 
réo as ditas proposições antes de imprimir o dito livro, 
comtudo as não quiz emendar, antes ajudou a certa pessoa 
em outro livro que também imprimiu contra os procedi- 
mentos do santo officio, procurando introduzir pratica en- 
tre pessoas grandes, para que se tratasse de haver altera- 
ção e mudança nos estylos do santo officio. 

«Pelas quaes culpas sendo o réo preso nos cárceres do 
santo officio e com caridade admoestado as quizesse con- 
confessar, por ser o que lhe convinha para descargo de sua 
consciência, salvação de sua alma, e seu bom despacho, 
disse e confessou que do ultimo perdão geral a esta parte, 
persuadido com o ensino e falsa doutrina de certas pes- 
soas da sua nação, se apartara da nossa santa fé catholica, 
e passara á crença da lei de Moysés, tendo-a ainda por boa 
e esperando salvar-se n'ella, e não na fé de Christo Senhor 
nosso, em o qual não cria nem o tinha por verdadeiro Deus 
e Messias, antes esperava ainda por elle, por ouvir dizer 
que ainda havia de vir, e só cria em Deus do céo, que fez 
o céo e a terra, e a elle se encommendava com algumas 
orações judaicas, que recitava por um livro e por obser- 
vância da dita lei guardava os sabbados de trabalho, e a 
paschoa do mez de março, comendo por espaço de oito 
dias pão asmo e seladas, e fazia vários jejuns judaicos, 
como era o dia grande, estando n'elles sem comer nem be- 
ber senão á noite, em que comia gullinha, com tanto que 
fosse degolada ao modo judaico por mão de pessoa cir- 



o olho de vidro 21 3 

cumcidada, compondo-se no mesmo dia com os melhores 
vestidos e peças novas, ainda que para isso íosse necessá- 
rio buscal-as e fazel-as ; e outro jejum que caía em certo 
mez, estando por espaço de três semanas sem começar ne- 
gocio algum, posto que continuava os principiados, estando 
n'ellas dois dias sem comer nem beber senão á noite, como 
dito é ; e usando de particulares vocábulos e palavras para 
se entender com outras pessoas quando fazia ou havia de 
fazer os ditos jejuns, sem que fossem entendidos ordinaria- 
mente, por o sentido commum das ditas palavras ser mui 
differente, communicando estas coisas com pessoas da sua 
nação apartadas da fé, com as quaes se declarava por ju- 
deu, perseverando na dita crença até certo tempo, que de- 
clarou. 

«E que por andar apartado da fé, no dito Hvro que com- 
puzera, detrahira em alguns logares no procedimento do 
santo officio, e se accommodara com algumas opiniões po- 
liticas com que o via usar e praticar em certo reino ; e que 
também usava de livros prohibidos, e que de tudo estava 
muito arrependido e pedia perdão e misericórdia. E por o 
réo não satisfazer á informação da justiça nem declarar to- 
das as ceremonias e jejuns que havia feito por guarda da 
dita lei, sendo para o fazer por vezes admoestado, na for- 
ma do estylo do santo ofíicio, o promotor fiscal do santo 
officio veio com libello criminal e accusatorio contra elle, 
que lhe foi recebido, e o réo o contestou pela matéria de 
suas culpas e confissões, e não quiz usar de contrariedade. 
E sendo lançado da com que poderá vir, e sendo ratificadas 
as testemunhas da justiça na forma de direito, se lhe fez 
publicação de seus ditos, conforme o estylo do santo offi- 
cio. E veio com contraditas, que lhe foram recebidas e não 
provou coisa relevante ; e guardados os termos de direito, 
e feitas as diligencias necessárias, seu feito se processou 
até final conclusão, sendo o réo por muitas vezes advertido 
de suas diminuições e admoestado com muita caridade da 



2J4 o olho de vidro 

parte de Christo nosso Salvador as quizesse declarar, para 
se poder usar com elle de misericórdia, que a santa madre 
egreja manda conceder aos bons e verdadeiros confitentes 
sem o réo o querer fazer. E visto seu processo, na mesa do 
santo offlcio se assentou que pela prova da justiça e por 
sua confissão estava convencido no crime de heresia e que 
a dita sua confissão não estava em termos de ser recebida, 
e por hereje e apóstata da santa fé catholica, feito falso, 
simulado, confitente diminuto e impenitente foi julgado e 
pronunciado. 

«E para o réo cuidar em suas culpas e diminuições, e as 
poder confessar arrependendo-se d'ellas, lhe foi dada no- 
ticia do dito assento, e foi de novo admoestado para des- 
cargo de sua consciência, salvação de sua alma, e ser tra- 
tado com misericórdia, quizesse dizer toda a verdade. Ven- 
do o réo que estava convencido por diminuto em suas con- 
fissões, pediu audiência, e as continuou, dizendo que de- 
pois de fazer as primeiras confissões, ficara continuando 
até áquella hora na crença da lei de Moysés, e que por sua 
guarda fizera algumas cerimonias judaicas, e para que Deus 
lhe perdoasse seus peccados na observância da dita lei, 
fazia também algumas penitencias, como eram não dormir 
em cama senão em noite de sabbado resar algumas orações 
e psalmos sem Gloria Patri^ e repetir muitas vezes a con 
fissão geral, e communicava estas coisas com certa pessoa 
da sua nação, com a qual se declarava por judeu e ani- 
mava para continuar na dita crença : e que de tudo pedia 
perdão e misericórdia. E sendo visto outra vez seu pro- 
cesso em mesa, se determinou que o assento que n'elle se 
havia tomado não estava alterado, porque não declarava o 
réo todas as culpas que havia commettido segundo a in- 
formação da justiça, não se presumindo, conforme a direi- 
to, esquecimento. Alem de que não dava signaes de ver- 
dadeiro arrependimento antes os contrários, dizendo que 
confessava o que fizera exteriormente, e que o que ficava 



o olho de vidro 2i5 

em seu coração não era necessário dizel-o ; pelo que foi no^ 
tificado para ir ao auto da fé ouvir sua sentença, pela qual 
estava relaxado á justiça secular. E sendo trazido ao auto 
da fé, pediu n'elle audiência, e n'ella disse que a pedira 
para requerer ao santo officio, com intimo e verdadeiro ar- 
rependimento de suas culpas, se usasse com elle de miseri- 
córdia ; que a verdade era que elle permanecera até áquella 
hora em seus erros, dos quaes se apartava por meio das 
admoestações dos religiosos que lhe assistiam, e por ver a 
commiseração que seu estado causava a todo este povo e 
pessoas que o conheceram ; e que por guarda da lei de 
Moysés em que até então crera, fizera muitos mais jejuns 
judaicos dos que tinha declarado e muitas outras cerimo- 
nias ; e que de tal maneira estava na observância d*ella de- 
pois da sua prisão que determinara morrer por sua guar- 
da, com tal excesso que depois de lhe ser dada noticia do 
assento que se tinha tomado em sua causa, se tinha dis- 
posto para a morte, com aquellas cerimonias que sabia, la- 
vando-se e vestindo camisa nova, que tinha feito para este 
fim, e jejuando ainda como judeu ' . E sendo vista esta sua 
confissão na mesa do santo officio, se assentou que não es- 
tava em termos de ser recebida, e que era feita mais afim 
de escapar da morte, que pelo réo estar verdadeiramente 
arrependido de seus erros, como claramente se mostra do 
termo de que tinha usado nas mais confissões que fizera no 
discurso de sua causa : O que tudo visto e bem examinado, 
e como o réo sendo por tantas vezes admoestado nunca 
deu mostras de se tornar do coração á fé de Christo Nosso 
Senhor de que se apartou ; de que claramente se colhe que 
persevera ainda agora em seus erros e na damnada crença 



• Das três confissões augmentativas infere-se que Manuel 
Fernandes Villa Real foi, por três vezes, interrogado na tor- 
tura. 



2i6 o olho de pidro 

da lei de Moysés. Christi Jestvs nomine invocato, declaram 
ao réo Manuel Fernandes Villa Real por convicto e con- 
fesso no crime de heresia e apostasia, e que foi, e ao pre- 
sente é, hereje ap9stata da nossa santa fé, e que incorreu 
em sentença de excommunhão maior e em confiscação de 
todos os seus bens para o fisco e camará real, e nas mais 
penas em direito contra os similhantes estabelecidas ; e que 
como hereje apóstata, convicto, confesso, ficto, falso e im- 
penitente o condemnam e relaxam á justiça secular, a quem 
pedem com muita instancia se haja com elle benigna e pie- 
dosamente, e não proceda a pena de morte nem effusão de 
sangue. — Ltãz Alves da Rocha. — Pedro de Castilho. — 
Belchior Dias Preto.* 

E' escusado dizer que a justiça secular, comprehenden- 
do ao justo a benignidade e piedade recommendadas pelo 
santo officio, condemnou o réo a garrote e fogueira para 
que das cinzas do strenuo defensor de D. João de Bragan- 
ça não ficasse memoria, como se assim podessem diante da 
posteridade passar a esponja por sobre uma das mais es- 
quálidas manchas do reinado d'aquelle soberano. 

O bacharel Miguel Henriques da Fonseca, advogado em 
Lisboa, foi queimado vivo em lo de maio de 1682. Infe- 
re-se da leitura da sua sentença que este infeliz dez vezes 
foi posto a tormento, e com todas ellas foi aggravando a 
sua desgraça, revelando peccados novos, que o apertar 
das cordas e o queimar lento do fogo lhe ia arrancando. 
Afinal, já calejado e invulnerável ás torturas, manifestou- 
se profitente da lei de Moysés, affrontou no rosto os algo- 
zes, e subiu á fogueira com grande animo e anciedade do 
martyrio. 

Por occasiào do supplicio do doutor António Homem, 
lente da uuiversidade em 5 de maio de 1624, um enge- 



o olho de vidro 



21J 



nkoso poeta contemporâneo publicou, e fez correr, com 
grande applauso publico, o seguinte soneto em ecos ou de 
reflexo : 



«Quando um primário excellente 
contra a fé cáe em desconcerto 
está o que não é tão esperto 
de seguir o erro que de presente 



lente 
certo, 
perto 
sente. 



«Mas quem é da hebrea e negligente 

e vendo-se do bom respeito 

na fé segura do deserto 

nega a Jesus, que é tão clemente 



peito 
certo 
mente 



«Povo que elegeu uma bezerra 
deixae do vosso velho estudo 
segui a lei para ser guardada 



erra ; 
tudo ; 
dada ; 



«que quando em tal descuido 

que um bom lente, o melhor da terra 

mas sciencia sem Deus tornada 



cuido 
erra^ 
nada> 



Nunca a piedade inspirou coisa mais insulsa e soez ! 



III 

(Pag. 39) 

A expensas da casa, sem licença do reitor 



o Regimento dos médicos e boticários chrtstàos velhos^ 
adjunto aos Estatutos da UniverÁaade de Coimbra^ man- 
dados imprimir em 1653 por Manuel de Saldanha, ordena 
que haja trinta estudantes porcionistas e os dois logares de 
coUegiaes médicos que sempre houve no collegio real de S. 

Paulo. 

«Os que houverem de ser admittidos no partido da me- 
dicina (diz o Regimento) não hão de ter raça de judeu e 
christão novo, nem mouro, nem proceder de gente infame, 
nem ter doenças contagiosas . . . 

«Para constar que os pretendentes tem as partes sobre- 
ditas, farão petição ao reitor, em que declarem d'onde são 
naturaes, e cujos filhos; e elle por seu despacho mandará 
passar carta em meu nome para os corregedores e justiças 
fazerem as ditas informações com muito segredo, tirando-as 
das pessoas antigas, honradas, etc.» 



220 O olho de pidro 

Estas everiguações eram feitas tanto pelo miúdo, que 
seria impossivel escapar pela malha porcionista, que tives- 
se gota de sangue judeu. Braz Luiz não poderia certamente 
dizer cujo filho era, se pretendesse os vinte mil réis annuaeSy 
que tanto era a porção paga aos quartéis^ e tirada das ren- 
das dos concelhos de certas cidades e villas. 



XI 



(Pag. 112) 



Âs leis do reino davam rasão de sobra a Fernio Cabral, 
para desberdar a fllba... 



No tit. 88 do liv. 4.*' das Ordn. Filip § i.°, lê-se: 

«E se alguma filha, antes de ter vinte e cinco annos, 
dormir com algum homem, ou se casar sem mandado de 
seu pae, ou de sua mãe, não tendo pae, por esse mesmo 
feito será desherdada e excluida de todos os bens e fazen- 
da do pae ou mãe, posto que não seja por elles desherdada 
expressamente (!) » 

Eno§i7; 

«Item. poderá o pae ou mãe, que forem catholicos chris- 
tãos, desherdar livremente os filhos herejes, que perfeita- 
mente não crerem em nossa santa fé catholica, desviando- 
se do que tem e crê a santa madre egreja.» 

Convinha que, uma vez por outra, tirássemos o látego 
das costas dos frades e o sacudíssemos nas costas dos le- 
gisladores. Corriam parelhas na perversidade. A deprava- 
ção moral era tão cerrada e tamanha que havemos de re- 
ceber como fabula um justo no meio de taes ministros da 
justiça divina e humana. 



índice 



Pag. 

Prologo 5 

Introducçâo . . . • 7 

I Informações 23 

II Não era mãe ! 3i 

III O faro das bestas- feras • . 39 

IV Resposta 45 

V A piedosa eloquência do frade 55 

VI Braz Luiz 65 

VII Exemplo de honestidade aos médicos yS 

VIII Má sina de poetas 85 

IX Poeta e moralista gS 

X Os expatriados 1 04 

XI Treze annos depois 112 

XII Historia de António de Sá 128 

XIII Seguimento da historia i38 

XIV O segredo horrível 144 

XV Angustias que existiram 157 

XVI O padre Braz i65 

XVII O inferno como elle é possível 172 

XVIII Gatequeze 180 

XIX O velho da ermida 189 

XX Parecia christão na morte 194 

XXI Gomo se pôde viver ! 198 

Gonclusão 202 

Notas 209